sábado, 14 de setembro de 2019

Tempos sem ironia

José António Rodrigues Carmo

Há dias, no carro de pessoas de esquerda, dando indicações sobre o itinerário, fui fazendo algumas ironias e piadas sobre o "virar à direita". Gosto do sentido de humor e aprecio pequenas provocações sobre futebol, ideologia etc.

Mas sei, por experiência própria, que o sentido de humor anda pelas ruas da amargura. As pessoas irritam-se e carregam o semblante, parece que agora tudo é sagrado.

Nesta nova era da correção política, há temas que não admitem brincadeiras, é como se de repente o mundo estivesse pejado de beatas. As pequenas brincadeiras discursivas são encaradas como blasfêmias e os seus autores tratados como pecadores impenitentes e malévolos.

Com o clima, com o Trump, com os gêneros, com "as minorias", etc etc., não se brinca.

Há dias, no único debate que calhei a ver, entre Rui Rio e André Silva, do PAN, o Rio ia sorrindo, mas o André, com o olhar fuzilante e expressão carrancuda, tudo encarava como se fosse o apóstolo de uma qualquer religião, o pregador da Grande Verdade.

Curiosamente é a mesma atitude da Catarina Martins, do Jerónimo, e de todos os evangelistas que acreditam que possuem a "Verdade" e que os ímpios que com elas brincam, merecem, no mínimo a flagelação e a lapidação, além de arderem no Inferno, claro.

Esta gente anda sempre séria, de cara carregada, de emergência em emergência, numa incessante pregação de virtude e intolerância ao pecado.

São exatamente como as típicas beatas de aldeia, que bufam, se benzem e se indignam quando alguém diz ou faz algo que brinca com a sua ortodoxia.

Hoje as pessoas zangam-se por tudo e por nada, porque tudo lhes parece imensamente sério, definitivo, preto ou branco, sem cambiantes.

Quando tinha 17 anos, acho que também era assim, seguro das minhas certezas ignorantes, pelo que acredito que estes novos tempos são o reflexo de uma maior densidade da ignorância.

Temos tanta informação ao alcance dos dedos que tendemos a aplicar-lhe os filtros que só trazem até nós aquilo em que já acreditamos.

Estes tempos de intolerância levam-nos à divisão, à fúria, à raiva.

Um bocadinho de sentido de humor ajudaria muito a arrefecer as fúrias, mas os donos da "Verdade" não estão para aí virados.
Título e Texto: José António Rodrigues Carmo, Facebook, 14-9-2019

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