Quarenta pastas na Esplanada e uma pergunta que o Planalto evita responder
Rogerio Pires
Lembra da história de Ali Babá e os
quarenta ladrões? Um tesouro escondido numa caverna, uma porta de pedra e uma
senha que abria tudo: abre-te, sésamo. Agora, parece que vemos essa fábula se
materializar. O número é o mesmo, e o enredo rima com Brasília: quarenta
ocupantes em volta de um tesouro, que aqui é o Orçamento da União, e uma senha
que também abre tudo. Chama-se base aliada.
Os números ajudam a medir o tamanho do
exagero. Lula assumiu em 2023 com 37 pastas, 14 a mais do que Bolsonaro tinha
ao deixar o cargo. Chegou a 38 e, com o novo Ministério da Segurança Pública,
igualaria as 39 de Dilma Rousseff. Agora, a marca de 40 passa a ser tratada
como natural. Cada nova pasta nasce com a mesma justificativa: é preciso
organizar o governo. Na prática, é preciso acomodar aliados.
Veja o contraste com o discurso. Lula
já disse que quanto menos ministérios, mais incompetente é o governo. Pela
régua dele, a eficiência se mede em cadeiras. Pela régua do contribuinte,
mede-se em resultado: fila do SUS menor, preço do alimento menor, rua mais
segura. Nenhuma dessas métricas melhora porque o Diário Oficial ganhou mais um
decreto de criação de pasta.
Há ainda o custo que não aparece na manchete. Cada ministério exige ministro, secretário-executivo, assessores, carros, passagens, cargos comissionados e, claro, uma sede. Multiplique por quarenta. O dinheiro que sustenta essa máquina sai do mesmo bolso que sustenta a carga tributária que o governo diz que precisa aumentar. Primeiro se cria a despesa, depois se procura quem pague. É assim que o Estado cresce enquanto o país encolhe.
Enquanto isso, o Planalto também lida
com o próprio palco. A coluna de Matheus Leitão, no Metrópoles, informa que o
ministro da Secom, Sidônio Palmeira, pediu para sair do governo e quer vender
campanhas eleitorais no exterior, com a Argentina no radar. Sidônio nega, em
nota. Mas a pergunta que o brasileiro faz é outra: o que acontece com um
governo cujo maior ativo, na própria leitura dos aliados, é o marketing? Se o
responsável pela propaganda procura a porta de saída, quem vai vender a conta
de 40 ministérios ao eleitor?
A Fazenda também entra na dança. O
elogio de Lula indica que Dario Durigan segue cotado para continuar na pasta, e
uma ala do Planalto defende que o presidente indique o ministro antes da viagem
internacional. Repare na ordem das prioridades: o debate é sobre o recado que o
mercado vai receber, não sobre como cortar gasto. Quem controla a caneta da
economia fala em troca de nomes, e quase nunca em redução de tamanho do Estado.
A direita tem uma proposta simples e
que resolve. Um governo enxuto, com poucas pastas, metas claras e ministros que
respondam por resultado. Bolsonaro entregou 23 ministérios e provou que é
possível administrar o país sem transformar a Esplanada em condomínio de
partidos. Menos ministérios significa menos cargo para negociar, menos gasto
fixo e mais dinheiro disponível para o que o cidadão cobra de verdade.
Pergunto sem rodeio: o que a população
ganha com o quadragésimo ministério? O brasileiro paga por 40 estruturas e
continua esperando atendimento em uma. Cada pasta criada para dividir espaço
com aliado é um lembrete de que, no governo petista, o poder se reparte
primeiro e o serviço público vem depois, se sobrar orçamento.
Na fábula, Ali Babá só descobre o
segredo porque alguém vigiava a caverna e contou o que viu. É o que faço aqui:
olho a porta, conto os que entram e pergunto quem pagou a pedra. Porque a
caverna da Esplanada tem dono, e ele não foi consultado: é o contribuinte que
banca cada uma das quarenta cadeiras.
O recorde que o Planalto prepara não é
de eficiência, não é de entrega, não é de segurança. É de cargos. E quando o
país descobrir quanto custou a fatura, talvez a pergunta mais incômoda não seja
por que são 40 ministérios, mas porque ninguém no governo se constrange em
anunciar o número como se fosse conquista.
Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro. Timeline, 8-11-2026, 11h36
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