domingo, 8 de novembro de 2026

[As danações de Carina] A Mulher do Princípio ao Fim

Carina Bratt

MILLÔR FERNANDES
escreveu um livro intitulado ‘O Homem do Princípio ao Fim’. Eu tenho na minha biblioteca, todos os livros desse simpático carioca nascido no bairro do Méier e falecido no seu apartamento em Ipanema, também no Rio, aos 88 anos, vitimado por um AVC, fato acontecido em 27 de março de 2012. Como tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente junto com o Aparecido, (e coincidentemente hoje revendo seus trabalhos publicados), resolvi escrever um ‘texto’ não falando especificamente do seu livro acima citado, apenas puxando a sardinha para nós, mulheres. Segue, pois abaixo, ‘A Mulher do Princípio ao Fim’. Espero que as minhas leitoras e leitores gostem. Ficou mais ou menos assim. 

Ela chega ao mundo pequenina, as mãozinhas fechadas como se guardasse segredos que ainda não foram contados. Vem com olhos que aprendem o mundo antes mesmo de andar e falar, trazem dentro do peito um coração que bate mais forte quando alguém a abraça. É a ‘menina-criança’ que corre atrás de borboletas, que acredita em fadas, que na adolescência desenha o futuro com cores que só ela consegue ver. Ainda não sabe que carrega dentro de si uma força imensa e então, basta ir crescendo aos poucos, para sair em campo e descobri-la, como também aproveitando o ensejo e formando o seu futuro.

Depois vem a mulher. Coração aberto, às vezes demais. Aprende que amar também dói, que confiança é um tesouro frágil, que nem todos os caminhos são floridos como os imaginara ao se tornar uma moça dona de si. Mesmo assim, segue adiante. Trabalha, luta, questiona, constrói. Descobre que não precisa ser perfeita para ser suficiente. Que seu valor não está no que os outros dizem, mas no que ela sabe ser. É fogo que aquece, chama que queima, água que acalma, que mata a sede, que refresca o calor, que banha os pecados e dissabores, bem ainda a raiz forte plantada na Terra que não se deita com a tempestade.

E então, tempos depois, vem a mulher plena, a mulher inteira. Já não precisa provar nada a ninguém. A idade o faz por ela. Sabe dizer ‘sim’ e também dizer ‘não’ e o faz ‘sem culpa’. Encontra beleza nas rugas que o tempo desenhou, encontra tristeza no pai que partiu, busca ser mais ela mesma ao ver a mãe se desfolhando aos poucos, numa agonia lenta, em face de uma doença que não tem cura. Essa ‘Mulher do Princípio ao Fim’, a cada dia se faz diferente, se reinventa, renasce das cinzas, e o faz porque cada uma delas em cada novo amanhecer, abre os olhos e conta uma história de coragem, de renúncia e de vitórias.

Tem mãos que consolam, que acalentam, que provocam o amor, a paixão, a saliência, que leve o sujeito as loucuras, profetiza palavras que libertam, um olhar (as vezes perdido) mas um olhar direcionado que enxerga, que espia, que acalma, que irrita, que chora, que sorri, e vê o que não deve, além das aparências. Principalmente as (aparências efêmeras). Não é mais só ela, é também herança, é árvore adulta fortificada, a raiz imorredoura. É memória ‘viva’ e quando menciono ‘viva’, sinalizo a palavra de todas as que vieram antes dela e se farão ouvidas em futuro próximo.

E quando o fim chegar, (o meu fim), não será um adeus. Porque ‘ela-eu’, ‘eu-ela’, terá (ou seria teremos??!!) deixado pedaços do coração espalhados pelo mundo: talvez num filho, ou filha, que sorrirá, que talvez numa palavra que confortou alguém, ou numa semente que cresceu porque ela cuidou. O fim, no meu entendimento, não é escuridão. É mais que isso. É saber que estive aqui, que amei, que lutei, que vivi, que SOBREVIVI. E o fiz, com certeza, do primeiro choro ao último suspiro. Ela, melhor dito, (euzinha) foi-fui-serei vida em sua forma mais completa.

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, ES, 8-11-2026 

Anteriores 
O Tempo que eu queria 
Os pássaros não cantam mais 
Ele, sempre Ele. O pão, e os pés na estrada 
[As danações de Carina] Vazia de mim mesma tentando me achar no que ‘ainda não me descobri’ 
A ferida invisível 
Oração dos ‘Sete Esses’ 
Livre como passarinho preso em gaiola 
Memórias póstumas do 11 de setembro, vinte e cinco anos depois

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-