sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A "lenda negra" de Carlota Joaquina

Não se sabe ao certo se esta rainha de Portugal, espanhola de nascimento, matou o marido, D. João VI, mas que fez tudo para lhe azedar a vida, isso fez

Luís Almeida Martins

É garantido. Se pedirmos a um português medianamente culto que indique o nome de uma grande megera da História, há todas as probabilidades de ele referir o de D. Carlota Joaquina. Infanta espanhola, filha de Carlos IV  e neta de Carlos III, era feia, vaidosa, desagradável, intriguista, adúltera e inclusive assassina, segundo a imagem que dela nos chegou. Esta recordista da antipatia veio para Portugal em 1786, com 10 anos, para casar com o príncipe D. João, filho de D. Maria I, quando este ainda nem o herdeiro do trono era, pois tinha um irmão mais velho. Mas a inesperada morte de D. José, o primogénito de D. Maria, transformou D. João em futuro rei e a birrenta criança em futura rainha.


Retrato da Infanta Carlota Joaquina, de Anton Raphael Mengs
Birrenta, porque se comprazia em amuar e fazer o contrário do que lhe era pedido. No entanto, D. Maria e o marido, o rei consorte (e seu tio) D. Pedro III, não só a tratavam com carinho como lhe davam mimos. Eram mais avós do que sogros.


Imagem: Manuel António de Castro
As mortes do filho mais velho, do marido e ainda do seu muito estimado confessor deram a volta à cabeça de D. Maria I, que, ainda por cima impressionada com as notícias que chegavam acerca da Revolução Francesa, acabou por enlouquecer irreversivelmente. Nem a vinda de um muito reputado especialista inglês em doenças mentais lhe valeu – e eis D. João com o poder nas mãos em 1792 (embora só daí a sete anos fosse oficialmente elevado à categoria de regente). A nossa Carlota Joaquina tornou-se assim, aos 16 anos, uma rainhazinha de facto; só que, achando-se injustamente afastada de muitas das tomadas de decisão, começou a conspirar contra o marido. Chegou até a fundar um partido cujo objetivo era declarar D. João louco como a mãe, para ficar ela sozinha com o poder. A intentona foi descoberta, mas D. João perdoou à mulher, para abafar o escândalo. De qualquer modo, passaram a dar-se bastante mal, só se falando em cerimónias públicas e passando a viver em palácios separados – ele em Mafra, ela em Queluz.


Megera de Queluz e Messalina são dois dos epítetos que os escritores liberais deram mais tarde à menos simpática das rainhas de Portugal. Já os defensores do Antigo Regime, que a idolatravam (tal como ela idolatrava o filho D. Miguel, futuro Rei Absoluto) preferiram sempre descrevê-la como esposa generosa e mãe extremosa. A sua generosidade como esposa é um conceito que está nos antípodas da teoria segundo a qual teria sido ela a envenenar (ou a mandar fazê-lo) as laranjas que mataram o marido. Como seria de esperar, durante os muitos anos em que as suas relações com o rei foram pouco mais do que formais, Carlota Joaquina terá sido íntima de outros homens, uns fidalgos e outros plebeus. Por estas e por outras, a famosa Laure Junot, duquesa de Abrantes e mulher do general napoleónico que comandaria a primeira invasão francesa depois de ter sido embaixador da França em Lisboa, escreveu nas suas Memórias acerca da rainha Carlota Joaquina e da sua exuberante fealdade: “Não podia convencer-me de que ela era uma mulher e, no entanto, sabia de factos que comprovavam largamente o contrário.”


Carlota Joaquina está sepultada no panteão dos reis da dinastia de Bragança, na igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. O seu túmulo foi colocado exatamente ao lado do do marido, D. João VI. Separados em vida, ficaram simbolicamente unidos na eternidade.
Título e Texto: Luís Almeida Martins, in “365 DIAS com histórias da HISTÓRIA de PORTUGAL”, páginas 386/387/388.
Digitação: JP

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