terça-feira, 10 de novembro de 2015

A base dos “acordos” de António Costa

Rui Ramos

Costa não trouxe o PCP e o BE para o mundo da democracia; em vez disso, levou a democracia para o mundo do PCP e do BE. A demonização da direita é um sinal disso.

Pela Assembleia da República e pelos estúdios de televisão, os mais diversos cidadãos pedem desde ontem acesso aos “acordos” com que Costa se propõe viabilizar o seu governo minoritário com o apoio parlamentar do PCP e do BE. A suspeita é que esses “acordos” serão pouca coisa, e que por isso Costa os esconde. Mas tal como no conto The Purloined Letter de Poe, os “acordos” estão à vista. Não me refiro às “medidas simpáticas” enxertadas no programa do PS, e ainda à espera da conta final. Falo de outra coisa: daquilo que foi sugerido pela frase friamente pronunciada ontem por Carlos César na Assembleia da República: “a direita dá-se mal com a democracia”. Está tudo aqui.

Onde é que já ouvimos isto? Sim, é a velha conversa do PCP e do BE, que sempre imaginaram a “democracia” sem a “direita”. Desde 1974, nunca deixaram de tratar o PSD e o CDS como “partidos reaccionários e fascistas”. Chamaram “fascista” a Sá Carneiro, e chamam “fascista” a Passos Coelho. A novidade é o alinhamento dos líderes do PS nesta fobia contra a “direita”. Já não lhes basta dizer que a direita é “neo-liberal”. Agora também tem de ser “anti-democrática”.

António Costa não trouxe o PCP e o BE para o mundo da democracia; em vez disso, levou a democracia para o mundo do PCP e do BE. Porque Costa não precisa só de justificar os “acordos” com o PCP e o BE: precisa de fazer com que esses “acordos” existam. Ora, só um inimigo comum pode manter juntos partidos que, em comum, não têm mais nada. Daí a necessidade de demonizar o PSD e o CDS. A monstruosa ameaça da direita à soberania, ao Estado social e à democracia serviu agora para justificar o abraço de Costa ao PCP e ao BE, e servirá no futuro para prevenir divórcios: quem é que desejará ser responsável por lhe devolver o governo? Os “acordos” são isto.

E isto pode levar-nos longe. No fim de semana, Catarina Martins olhou para a sua bola de cristal e viu as “grandes pressões” prestes a precipitarem-se sobre um “governo de esquerda”. Viu, entre outros adamastores, a “Europa da austeridade” e o “capital financeiro”. Não viu a oposição parlamentar e os dois milhões de portugueses que não votaram no PCP, no BE e em Costa. E não viu, porque para ela, esses portugueses e esses partidos, quando se atreverem a contestar o novo poder, serão apenas os “agentes” e os “instrumentos” do “imperialismo alemão” e do “grande capital”. E se António Costa pretender continuar no governo, terá de ler por esta cartilha e alinhar nas manifestações e greves contra a “interferência externa” (causa única, como é óbvio, de todas as dificuldades).

Há quem ria muito com tudo isto, porque o Gulag ou o PREC não estão ao virar da esquina. É não perceber a doutrina das etapas do PCP e do BE. Comunistas e bloquistas não teriam dúvidas em guardar campos de concentração ou em manipular militares revolucionários, se por acaso houvesse campos de concentração ou militares revolucionários. Mas não há, e eles sabem-no. Não estão na Rússia estalinista de 1935, nem no Portugal gonçalvista de 1975. Estão no Portugal europeu de 2015. Podem perfeitamente, por enquanto, ser os apoios parlamentares de António Costa, desde que isso lhes sirva para se reforçarem no poder. Só que que estes são partidos de guerra civil, que não sabem viver sem “luta”. É essa “luta” que eles vão ter de criar, como contrapartida à viabilização do governo de Costa. E é nessa “luta” que Costa terá de colaborar, para haver “acordos”. Nada disto augura coisa boa. Hoje, é a “direita” que “se dá mal com a democracia”. Amanhã, caro leitor, quando resmungar por só poder tirar 50 euros por dia do Multibanco, será você.
Título e Texto: Rui Ramos, Observador, 10-11-2015

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