domingo, 1 de novembro de 2015

A "vacina"

Alberto Gonçalves

Neste Outono sombrio, há quem alimente esperanças com a teoria da "vacina". Eis uma súmula: em primeiro lugar, Cavaco aceita contrariado um governo PS com a participação ou o "apoio" dos partidos comunistas. Depois, o governo defende os superiores interesses nacionais (leia-se serve a clientela e espatifa a economia), actua em benefício dos trabalhadores (i.e., saqueia os últimos cêntimos dos que trabalham e pagam impostos), favorece os direitos das pessoas (ou seja, persegue e cala dissidências) e consolida a democracia (por outras palavras, deixa-a em coma). No meio do pandemónio, lá para o Verão o governo cai, Portugal aprende que o marxismo é nocivo e a relevância eleitoral da esquerda, PS incluído, esvazia-se por décadas ou pela eternidade afora. Um consolo, não é? E também uma alucinação pegada.

Na tarde de 11 de Setembro de 2001, sofri um portentoso ataque de ingenuidade e, por momentos, presumi que os atentados nos EUA explicariam enfim ao mundo a legitimidade da resistência de Israel ao terrorismo. Voltei ao normal em dias ou horas, o tempo suficiente para que certo mundo desatasse a "compreender" as dores da "rua" islâmica, a reforçar a repulsa pelos EUA e a redobrar o anti-semitismo, perdão, o anti-sionismo. À semelhança da cegueira ideológica, a má-fé não aprende nada, excepto a evitar a realidade.

Excepto para os viciados em metanfetaminas que a bem do colesterol hesitam em ingerir uma morcela, o arrependimento não é para aqui chamado. Se o país não erradicou o comunismo após os arremedos revolucionários de Cunhal, Otelo e Vasco Gonçalves (por pudor, não falo do rastro de sangue e miséria que a conversão dos povos à felicidade espalhou - e espalha - pela Terra), a que propósito ficaria "vacinado" por causa de novo assalto ao poder, uma pequenina supressão das liberdades e a trivial bancarrota? O razoável PS faliu-nos em três ocasiões e nunca se viu remetido para a obscuridade que merecia. Depressa atribuída aos "mercados", à Sra. Merkel, a Passos Coelho e às conspirações do costume, uma quarta falência não fará grande diferença, e a diferença que fizer custará demasiado.

Além de enganadora nas expectativas, a "vacina" é desaconselhável nos efeitos: no fundo, sugere a resignação de todos os cidadãos que ainda não endoideceram, de Novembro em diante condenados a consentir uma burla e a contemplar um desastre. Embora banhada nas melhores intenções, a ideia da "vacina" acaba por tornar o desastre consolador e a burla tolerável, dois equívocos que pagaremos com juros.

Isto tudo para dizer que Cavaco Silva não deve ceder a chantagens e nomear o Sr. Costa. Pretextos "técnicos" não lhe faltam, desde a inexistência de um acordo de facto (na quinta-feira, o Sr. Jerónimo assumiu o carácter fictício do mesmo) às promessas implícitas e explícitas dos partidos comunistas em remover-nos do Ocidente rumo à balbúrdia exótica que estiver em voga. Mas a verdadeira razão prende-se com a Sagrada Constituição, cujo artigo 120.º informa que o Presidente da República garante "o regular funcionamento das instituições democráticas". A "frente popular" nem ganhou eleições nem é democrática. A "vacina" é a própria doença, está nos livros. E estaremos feitos. 
Título e Texto: Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 1-11-2015

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