quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Macroscópio – Tempo de lembrar os retornados. Também seriam refugiados?


José Manuel Fernandes
40 anos depois, Portugal começa a falar de forma mais descomplexada e mais normal dessa imensa tragédia humana que foi a vinda de centenas de milhares de pessoas que fugiam das antigas colónias. Foi um êxodo que começou nos finais de 1974 e alcançou proporções máximas no final do Verão de 1975, com uma ponte aérea a funcionar entre Luanda e Lisboa. Na altura chamaram-lhes retornados, apesar de muitos deles “retornarem” a um Portugal europeu que nunca tinham conhecido ou sequer pisado. Não por acaso só agora, quadro décadas depois, esse drama humana tem honras de uma exposição em Lisboa, Retornar - Traços de Memória, exposição que foi inaugurada hoje na Galeria Av. da Índia. Não longe, portanto dos terrenos ribeirinhos que nesses meses estiveram ocupados por milhares de caixotes feitos à pressa onde à pressa se tinha procurado enfiar alguns haveres. Não longe do Padrão dos Descobrimentos onde uma instalação em torno da fotografia de Alfredo Cunha que ilustra este Macroscópio, e que é uma das mais icónicas desses dias, funciona como complemento à exposição.

"Não trouxemos nada, nada, nada. Não podíamos trazer nada." Há uma voz que repete a palavra nada como um lamento. E logo a seguir outra voz: "Os meus pais viveram toda a vida da terra, chegaram cá e não tinham terra. Ficaram perdidos." E depois outra voz: "Esta não era a minha terra, eu vim para cá mas não sou de cá." E depois outra voz. As vozes cruzam-se, intercalam-se, contradizem-se. As vozes pertencem aos doze rostos fotografados por Bruno Simões Castanheira e que estão ali à nossa volta. Não há nomes, não há referências, apenas os rostos e as vozes que contam as memórias de quem foi para a África e voltou. Ou de quem nasceu em África e depois veio para Portugal. Ou até de quem nasceu em Portugal com as memórias de África na pele.

Assim começa a reportagem hoje publicada pelo Diário de Notícias, um texto onde também se refere o tempo que foi necessário para recuperar a memória desses dias, o que fez com que “só nos anos 2000 o retorno começasse a ser contado”, nomeadamente através de livros e de filmes. Antes pouco mais se poderá registar do que as obras de Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios (1988) e Hélder Macedo, Partes de África (1991).

O último destes três livros é precisamente um dos que Joana Emídio Marques, colaboradora do Observador, escolheu para, a semana passada, escrever sobre A face violenta da descolonização vista por três escritores. Nesse texto refere que finalmente “há uma nova literatura que se recusa a ser um choradinho do nosso paraíso perdido”, propondo-se apresentar “alguns livros para desarrumarem ideias feitas”. Para além de Partes de África, as outras duas obras analisadas com mais detalhe são O País Fantasma, de Vasco Luís Curado (D.Quixote, 2015) e Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (Caminho, 2015). Mas não são as únicas obras referidas. Algumas, por as arrumar naquilo a que Margarida Calafate Ribeiro chamou “literatura pós-luso-tropical”, casos de romances como Deixei o meu Coração em África, de Manuel Arouca, Os Colonos, de António Trabulo, Os Retornados, de Júlio Magalhães, O Último Ano em Luanda, de Tiago Rebelo, ou Os Dias do Fim, de Ricardo Saavedra. São obras a que se contrapõe um clássico escrito por um grande repórter de guerra, o polaco Ryszard Kapuscinscki: Mais um Dia de Vida – Angola 1975. Até que chega, em 2012, o primeiro romance a merecer real atenção: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. Quanto aos três livros em que centra a sua atenção apresenta-os como “três propostas que acabam de sair ou estão a ser reeditados, e que constituem um olhar impiedoso sobre a descolonização e as suas consequências.”

A referência a O Retorno obriga-nos a recuar um pouco mais nos arquivos para encontrar, num Público do passado mês de setembro, uma conversa com a sua autora: "Há retornados que acham que sou uma traidora". Eis uma das passagens dessa entrevista em que Dulce Maria Cardoso, ela mesma uma retornada, situa a sua experiência: “Os retornados tinham sido muito mal recebidos [em Portugal]. Ser retornado era um estigma. Nunca imaginei que o estigma, de repente, pudesse passar a ser uma mais-valia”.  O livro teria êxito junto de públicos muito diferentes, desde “pessoas que têm agora 30 anos, que não eram vivas no 25 de Abril” até retornados que o compraram para oferecer aos filhos: “Ela disse-me: ‘Nunca consegui explicar aos meus filhos o que eu passei e este livro diz exactamente como foi, portanto quero oferecer um a cada um.’ Como uma espécie de herança. Isso comoveu-me”.

Importante também numa reapreciação do que foram esses tempos para os portugueses que fugiam de uma África entregue a movimentos nacionalistas radicais, foi a passagem na RTP da série “E depois do Adeus”. São 26 episódios onde, com recurso pontual a imagens da época e recriação de vários momentos históricos, se contam as dificuldades de adaptação de um conjunto de famílias que é obrigada a viver, sem eira nem beira, numa Lisboa que não conhecem, ou que, o que é pior, não reconhecem. Graças à RTP Play é possível ver, ou rever aqui esses 26 episódios.

Mas há ainda muito, mas mesmo muito por contar, e por isso não posso deixar de destacar alguns dos trabalhos especiais que Helena Matos tem feito para o Observador nos últimos meses e que já se tornaram uma referência obrigatória neste ano das “quatro décadas depois”. São eles:

·   Os retornados começaram a chegar há 40 anos, onde se recorda que se, “para muitos os retornados surgiram em 1975, eram brancos e vieram na ponte aérea”, a verdade é que “os primeiros chegaram no Verão de 74. Boa parte deles não eram brancos e muitos nunca tinham saído de África.” Vale a apenas recordar o que então se passava em Angola, em especial em Luanda. Por exemplo: “Os cabo-verdianos, proprietários de muitos dos comércios nos musseques, tornam-se num alvo fácil para a violência que aí se instala. Mas não são os únicos e nem sequer o grupo mais numeroso. Este último é constituído por angolanos. Negros. Fogem com as famílias dos musseques e a sua presença na cidade do asfalto torna-se incontornável, sobretudo quando muitos deles, num movimento silencioso mas imparável, se instalam junto ao palácio do Governo. Em poucas horas o seu número cresce e já ocupam os largos e jardins vizinhos.” É muita dessa gente que é metida nos Jumbo da TAP com destino à ilha do Sal ou mesmo a Lisboa.

·         Chamaram-lhes retornados, um texto onde se recorda que foi no último dia de março de 1975 que foi criado o IARN - Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, e onde depois se contam sobretudo histórias do que se passou em Moçambique, onde o êxodo começou logo depois do 7 de Setembro de 1974 e onde contra eles se fizeram as leis mais abjectas. Eis como eram tratados: “Na sua mensagem de Ano Novo, Vítor Crespo, Alto-Comissário de Moçambique, avisou aqueles que partem de Moçambique para Portugal "onde esperam recuperar os seus privilégios" que "seria pura fantasia pensarem que beneficiariam desses privilégios, pois está a ser criado em Portugal um regime democrático e progressista onde o servilismo e a discriminação no domínio social e económico são impossíveis.” 

·        Há 40 anos, o desespero dos retornados: Tirem-nos daqui!, onde se contam sobretudo histórias de Angola e se faz o seu enquadramento com as negociações que terminaram no fatídico Acordo de Alvor. Pequena passagem, reveladora de como tudo se passou: “O que o homem relata torna evidente aquilo que já todos sabiam – militares portugueses estavam a entregar ao MPLA cidadãos para que este os interrogasse: “Pedi ao marido para relatar o que se tinha passado. Contou que foi apanhado no trajecto para casa, à hora do almoço, por fuzileiros navais, da nossa Marinha, fardados, que andavam num jipe militar. Meteram-no num carro e levaram-no até à porta do cemitério de Luanda, onde um carro do MPLA os aguardava. Passaram-no para o carro civil, deitaram-no no chão e levaram-no preso para os arredores. Taparam-lhe os olhos, andaram às voltas com ele, conduziram-no para um apartamento que ele não sabia onde ficava. Meteram-no numa casa de banho e interrogaram-no. Queriam saber quem era da FRA, Frente de Resistência de Angola (inimiga do Rosa Coutinho), a que ele não pertencia.”

Termino esta breve seleção de textos com Henrique Raposo que, no Expresso, já tem glosado várias vezes o tema. Nesta crónica no Expresso, Retornados e Isabel dos Santos (para assinantes), parte de uma reportagem do New York Times sobre as desgraças de Angola para notar: “Não aceito as teses luso-tropicalistas ou quinto-imperialistas que garantem uma especificidade benigna do colono português. (…) Mas, se não quero branquear, também não quero esquecer. (…)  Com muito trabalho, os retornados transformaram Angola num celeiro global, aproveitando um solo fértil que oferecia colheitas babilónicas. Nos anos 50, 60 e 70, Angola respirou prosperidade e, sem surpresa, milhares e milhares de negros e mulatos lutaram ao nosso lado. Não, estes negros nunca foram tratados como iguais, foram sempre os “pretos”. Mas, pelo menos, estes “pretos” como Alfredo Mambua não passavam fome e recebiam cuidados médicos.  Porque é que agora homens como Mambua passam fome e morrem sem cuidados? Porque a dra. Isabel dos Santos e demais membros da oligarquia do MPLA não investem em Angola.”

De novo, muita História por fazer, muitas histórias por registar devidamente. 40 anos depois muitos dos que então voltaram já não estão entre nós, mas ainda vamos a tempo, como na exposição que hoje abriu, de abrir as portas da memória.

Visitem-na se puderem, por hoje descansem que amanhã é mais um dia de vida, como já escreveu Kapuscinscki. E eu estarei por aqui de novo. 
Título, Imagem e Texto: José Manuel Fernandes, 4-11-2015

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