segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Um clima de guerra civil

Manuel Villaverde Cabral
Vivemos uma mutação política radical que vem do tempo de Sócrates, sobretudo a partir do momento em que perdeu a maioria absoluta e lançou a sua guerra contra tudo e contra todos

Com um governo da Coligação que em princípio não é para ficar, se não teriam de ser corrigidos erros de estrutura e de casting inaceitáveis, entrámos num período de calmaria enganadora antes da tempestade.

Ontem, no Expresso, Henrique Monteiro recordou como o país esteve perto de uma «guerra civil» há 40 anos. E, no fim de semana, anterior, dois colunistas tão diferentes como António Guerreiro (Público-Y, sexta 23) e Sousa Tavares (Expresso, sábado 24), lamentavam o «clima de guerra civil» que se instalou desde que António Costa anunciou a tentativa de tomada do poder pela «esquerda unida». Peço desculpa de me repetir mas desde Setembro que a «frente popular» estava a caminho. Pouca gente se comoveu então…

A prova, contudo, de que não se trata de um mero rearranjo parlamentar encabeçado pelo PS, é a extraordinária notícia do Público citada por Rui Ramos, segundo a qual a CGTP «marcou uma concentração em São Bento para o dia da votação de governo»! Que me lembre, é a primeira vez que a CGTP, que não consta ser parte do acordo tri-partido liderado pelo PS, toma uma posição de força aberta contra um governo legitimamente indigitado. Em compensação, essa manifestação lembra, isso sim, a «muralha de aço» levantada pela CGTP e acólitos contra os governos provisórios que lhes desagradavam e contra a Assembleia Constituinte de 1975-1976. Para tirar qualquer dúvida de que estamos perante uma nova «muralha de aço», o líder da CGTP não hesitou em reivindicar a sua «luta contra a austeridade», rematando sem pejo: «Estamos à beira da meta e o sprint final pode ser esta concentração». Ninguém diga que não foi avisado. António Costa devia ser obrigado a revelar o que pensa desta ameaça!

Perante o que se prepara, a maioria dos opinadores continua às voltas com os preceitos constitucionais e as tradições eleitorais do regime, fazendo de conta que não está em curso uma convulsão política cujo final é imprevisível. É verdade que a inabilidade dos agentes visados pela convulsão – o Presidente da República (PR) e a coligação PSD+CDS – foi enorme. Quando se aperceberam do que estava em jogo, já era tarde. O processo devia ter sido conduzido de forma muito mais rápida, mais aberta e publicitada, não permitindo que os interlocutores continuem a esconder o que se está a passar. Cavaco Silva, que nunca interiorizou o facto de ser o ódio de estimação da «esquerda», devia ter reunido todos os partidos eleitos mal se conheceram os resultados provisórios e, logo que o PS mostrou a intenção de transgredir a norma de «quem ganha, governa», o PR devia ter mandado a Coligação e o PS discutirem entre eles a questão, eventualmente com o PCP e o BE, todos juntos, com os jornalistas à porta, de forma a impedir António Costa de dizer uma coisa a uns e outra a outros… Até hoje, ainda não sabemos se há «acordo» ou não, duvido!

O PR podia e devia ter convocado o Conselho de Estado e tornar públicas as opiniões dos conselheiros. Nessa altura, as fissuras do PS teriam ficado à vista de todos, a começar pelo presidente dos Açores, assim como a versão do Tribunal Constitucional, até agora desconhecida. Cavaco sempre teve fama de institucionalista mas revelou-se, sobretudo, um formalista e um crente no «segredo». Agora, arrisca-se a ficar sem soluções e sem o respaldo antecipado que a maioria dos conselheiros de Estado lhe teria dado, possivelmente o próprio Marcelo que agora pretende sacudir a água do capote… Ter-se-iam ganho semanas e evitado ditar exclusivas contra quem quer que seja!

O fechamento total dos pequenos grupos que têm dominado o curso dos acontecimentos cria a falsa impressão que se trata de um mero braço de ferro constitucional entre «esquerda» e «direita». Infelizmente, é muito mais do que isso. É uma mutação política radical que vem do tempo de Sócrates, sobretudo a partir do momento em que perdeu a maioria absoluta e lançou a sua guerra contra tudo e contra todos, gastando dinheiro ao desbarato e comprando votos e influências, com o resultado devastador que se viu.

Embora minoritário, mesmo assim a «direita» a «esquerda» não se uniram para o derrubar. Foi ele, de raiva, que se demitiu e deixou como herança política a denegação sistemática da forma atrabiliária e violenta como governou. Até à prisão e à não menos perturbante libertação. A austeridade tornou-se o pretexto ideal para o PS recalcar as suas responsabilidades e juntar-se à extrema-esquerda, com a bênção da comunicação social, para fazer um discurso de confrontação ininterrupto que agora serve de encobrimento à vingança da «frente popular» contra a vitória eleitoral da Coligação.

Neste clima político, nenhuma solução é boa. Se o PR entregar o poder ao PS e aos seus pouco credíveis aliados, facilmente se imagina o preço que a grande maioria da população irá pagar. Se não entregar, confiando provisoriamente o governo a um «grupo de sábios» que tome conta da situação até à eleição do próximo presidente da República, não é difícil imaginar a violência da reacção dos rejeitados, mas as perdas para o país seriam porventura menores e menos duradoras. 
Título e Texto: Manuel Villaverde Cabral, Observador, 2-11-2015

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