domingo, 5 de março de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Segundas intenções

Aparecido Raimundo de Souza

1
BASTOU A MOÇA ENTRAR NA LOJA DE CALÇADOS E, DE CHOFRE, PROVOCOU um suave burburinho nos quatro atendentes que estavam mais próximos da porta. Impensadamente, todos de uma só vez, se precipitaram em direção a ela.
- Bom dia – disse um.
 - Pois não? – gritou o outro.
- Em que posso ajudá-la – acorreu o terceiro?
- Preferência por alguma marca em particular?

2
Diante de tantos rapazes bonitos, charmosos e elegantemente vestidos, a linda, composta por uma simetria corporal perfeita e uma luminosidade vital, que transbordava alegria e erotismo a um só tempo, optou pelo mais tímido que se limitou a um “Bom dia”.
- Gostaria que me mostrasse alguma coisa diferente do que estou usando.
Em resposta, o atendente esticou o braço direito indicando um dos muitos bancos existentes.
- Por favor, me acompanhe.

3
Antes de se acomodar, balançou a cabeça, jogando os cabelos compridos para trás. Deu uma caminhada básica, pelo salão, como se procurasse, nos milhares de produtos expostos, alguma coisa que lhe chamasse a atenção. Na verdade, a danada só queria mostrar seus dotes de princesa, envoltos por debaixo daquele vestido azul marinho, bem curto e esvoaçante sabendo, de antemão, que deixava todos os marmanjos ali presentes (inclusive o que a seguia de perto), dissimuladamente embasbacados.

4
Para os que haviam sobrado garimpassem mais acentuadamente seu visual impecável, levantou um pouco o tecido que cobria os joelhos de maneira insinuante. Finalmente, sentou no local indicado cruzando as pernas bem devagar.
- Qual seu número?
- 34.
- Aguarde só um minutinho. Trarei as últimas novidades que acabamos de receber...

5
Dizendo isso, sumiu, atrás de uma porta vai-e-vem que ficava perto da seção de abertura de créditos. Ao lado, uma fila aguardava vez para fazer pagamentos de carnês.

Os três vendedores que ficaram a ver navios, começaram a trançar de um lado para outro. Passavam na frente da formosa, balançavam a cabeça em sinal de cumprimento ou simplesmente sorriam e desviavam os olhos para suas lindas pernas. E que pernas! Ela percebeu que deixara a todos extasiados, naturalmente em decorrência do panorama que exibia.

6
Resolveu apimentar um pouco mais a visão da galera tornando a coisa bem quente e exótica.  Propositalmente derrubou o celular.  No que se abaixa entre as poltronas, para reaver o aparelho, permitiu, ao se curvar, pudessem os engraçadinhos bisbilhotar um pouquinho além do que deviam.  Nessas alturas, literalmente, todos os vendedores ficaram sem ação, boquiabertos, como se estivessem embasbacados. Houve um silêncio solene, colossal e abrupto. Também, diante de uma coisa maravilhosa como aquela e, levando em conta o que estava à mostra, faria qualquer homem normal arregalar os olhos e babar. Foi o que aconteceu.

7
Devido à movimentação pouco exagerada e o burburinho dos vendedores, o gerente caiu em si e pescou no ar, o lance. Arranjou um jeito discreto de sair de trás do balcão estendendo a conversa com uma cliente. A intenção dele era a de levar à senhora que fora pagar uma prestação até a saída do estabelecimento. Na verdade, tencionava passar perto daquela princesa e se regozijar, como os demais funcionários, do que ela oferecia, de graça, para o deleite dos desnorteados e assombrados da plateia que num átomo se formara.

8
Com uma dezena de caixas coloridas em cada uma das mãos, eis que surge, de volta, o vendedor escolhido. Ele caminhava devagar, para não deixar que nada fosse ao chão. Nesse instante, sem exceção, a loja inteira parou. Inclusive alguns clientes que vasculhavam as vitrines. Todas as cabeças se voltaram para aquele pobre que se aproximava cambaleante, pé ante pé, solícito, o mesmo sorriso de sempre nos lábios. A linda, ao vê-lo, se levantou, e o ajudou a se livrar daquela carga, colocando um pouco das caixas sobre uma das poltronas.
- Nossa!, você caprichou.
- Trouxe tudo que encontrei em nosso estoque e espero que alguma coisa aqui venha a lhe agradar.
- Com certeza...
- Posso dar uma sugestão?
- Claro.

9
Tirou de dentro de uma das caixas um belo par de sapatos e o exibiu à jubilosa.
- Experimente É a sua cara...
Ela voltou a se sentar e ele se pôs de cócoras, para calçar o pezinho que ela lhe indicava. Foi aí que aconteceu. No instante em que abotoava o fecho da sandália. A desejada fez de propósito. Premeditou tudo. Abriu as pernas. Era como um auto-de-fé. Uma obsessão, um vício. Não conseguia domar a criatura selvagem que morava dentro de seu ego medieval. Queria ver a reação, sentir de perto e na pele, como cada um se comportava diante de uma provocação inesperada, como aquela.

10
Num primeiro momento, o atendente, entretido em cuidar de pequenos detalhes, não só para agradar como para não perder a venda, se esqueceu de espiar para um pormenor maior que o seu limite de contenção. Contudo, ao se dar conta do que desfilava diante de si, o coração disparou. O sangue ferveu. Seu rosto perdeu a cor natural. Por segundos, andou sobre fogo e nadou em gelo. Abriu trilhas numa selva que até então vivia adormecida dentro de seu corpo. Teve a impressão de morder cabeças de cobras venenosas e arrancar o couro de tatus e porcos-espinhos.  As batidas de seu coração se espalharam por todos os cantos como tambores. Chegaram a ponto de provocar um eco retumbante naquele outro coração que dormia quieto, logo abaixo, dentro da cueca de algodão.

11
Olhou ao seu redor, assustado, sem saber o que fazer, ou que atitude tomar. Uma sensação gostosa e atemporal se alastrou por sua mente. Continuava atarantado, fora de si, sem ação e perdido. Percebeu que um entusiasmo erótico, instantâneo, mexeu com seus nervos. Enquanto isso, a cliente, mordiscava os lábios e sorria maliciosamente. Sabia que havia alcançado seus objetivos.

12
Podia se ver em seu rosto travesso, que aquela cena mexia com seu interior. Havia uma estranha combinação de magia e poder feminino sobre a presa, a essa altura transformado num duende completamente estabanado segurando fortemente um de seus pés. Resolveu levar adiante a estripulia.  Descerrou, por completo, seu triângulo preto, seu esconderijo secreto, a racha latejante e fermentada. E o fez sem meios termos, sem pudor, sem nenhum sentimento de vergonha. O pobre rapaz tremia na base. No minuto seguinte, seu corpo inteiro transpirou como se alguém tivesse lhe despejado, sobre os costados, um balde de água.

13
Diante dele, a doce cavidade do prazer em completo repouso e a espera de ser atingida. Nessa visão colossal, ele viu um jasmineiro florido, com passarinhos cantando uma melodia suave. Sentiu como se um milhão de luzes houvessem se acendido e, no instante após, teve a impressão de mergulhar num mar de ilusões até então nunca sonhados. O cheiro da maçã entrou em suas narinas.

14
Pressentiu o pecado se agigantando, tomando conta da sua vontade. Seus olhos não mentiam. Não via coisas, nem desvairava acordado. A mulher era real, tudo ali tinha forma física e podia ser tocado. Com as mãos, a fofura moveu um pouco o vestido, permitindo que o tresloucado ficasse mais perto do calor e da tentação e, nesse clima lascivo, o infeliz se extasiasse, se subornasse com todas as transgressões que pudessem ser criadas por sua enamorada imaginação.

15
Para os demais da loja, o vestido da facécia cobria o essencial. Especialmente para o vendedor sortudo, a safadinha mostrava a cobiça. Alardeava o apetite. Pracejava a vontade exacerbada, se agigantando no meio de suas coxas. Um ponto dentro dela, de repente, explodiu em líquido puro. A poção do universo veio a baixo. Inesperadamente molhou o assento da cadeira. Diante da incredulidade do vendedor, ela, a gatinha fogosa, sem a calcinha, carinha travessa, sorriso hipnotizante, o suor escorrendo, a linguinha aliciando os cantos da boca, num gritinho gutural, alcançou o epítome do que buscava. Gozou. 


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Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Sítio ”Shangri-La” – Um lugar perdido no meio do nada. 3-3-2017

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