domingo, 8 de outubro de 2017

Como os media gostam do ‘sistema’: O entusiasmo editorial por [Rui] Rio contrasta com o desapreço editorial por Passos [Coelho]

Eduardo Cintra Torres

Não me lembro de, alguma vez, em democracia, um jornal de ‘referência’ fazer manchete dum slogan político. Aconteceu ontem. No ‘Expresso’, em letras gigantes, lê-se: "Rui Rio: ‘É hora de agir’". Pensei que o candidato do PSD dissera essa frase ao semanário. Mas não. No interior, o jornal reproduz o cartaz de Rio com o slogan. Na primeira página, a manchete teve direito a um fundo cor- -de-laranja, para identificar Rio com uma onda em crescimento no PSD. Rio aparece sobre esse fundo de corpo inteiro, a dar um jeito à gravata, gesto que pretende conotar a tal ‘hora de agir’. Transformada em manchete, essa frase — inócua, por já se saber que Rio se candidatava — é uma opção editorial de apoio a Rio.

No interior, a notícia é entusiástica, escrita pelo mesmo jornalista que andou meses a juntar à informação sobre Passos Coelho uma subjetividade antipassista sarcástica, para não dizer humilhosa. O entusiasmo editorial por Rio contrasta com o desapreço editorial por Passos, reconfirmado semana a semana desde que António Costa formou governo. O mesmo entusiasmo, alívio, até, pôde ver-se na capa de uma revista do mesmo grupo, a ‘Visão’. Com um Rio gigante, a ‘Visão’ dava a boa nova ao povo: "É desta!"


Defendo que os media podem ter a máxima liberdade editorial, a par duma informação rigorosa. O que pretendo aqui relevar é como esta escolha editorial se enquadra numa luta subterrânea, de que não se fala porque não se quer apercebida: a luta pela sobrevivência do ‘sistema’, essa misturada de política e negócios feita à sombra da democracia, assim mantendo uma enorme liberdade de ação devido à deriva da atenção das pessoas para outros temas, a começar nos media, ou ocultando o que está de facto em causa: controlar o orçamento, obter dividendos, lugares para militantes, parentes, adjudicar trabalhos estatais a empresas ‘amigas’, etc. A ‘tempestade perfeita’ para o ‘sistema’ é que este pântano também agrada ao PCP, BE, e a partes do PSD e CDS.

O ‘sistema’ não perdoou a Passos ter recusado o dinheiro do Estado (da CGD) para salvar o número um do ‘sistema’, o BES de Salgado; que rejeitasse a tentativa ‘irrevogável’ de Portas de salvar o BES in extremis, quando já sabia a decisão de Passos, deitando abaixo o governo; e também não lhe perdoou que garantisse a independência do Ministério Público, que o ‘sistema’ antes controlava.

Uma boa parte dos media atacou sistematicamente Passos, que não intervinha nem pressionava os media; e alcandora Costa e Rio, conhecidos ambos pela sua fanfarronice contra os media: um paradoxo que só se explica pela fidelidade desses media ao ‘sistema’.
Título e Texto: Eduardo Cintra Torres, Correio da Manhã, 9-10-2017

2 comentários:

  1. Embora concorde com o artigo de Cintra Torres, há uma passagem que acho incorrecta: "luta subterrânea". Essa luta há muito que deixou de ser subterrânea e trava-se a céu aberto - nas páginas de jornais, redes sociais e aberturas de telejornais.

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    1. Certo.
      Talvez o autor queira significar que nem todos cidadãos se aperceberam da despudorada campanha política travestida de jornalismo. Ou seja, para alguns cidadãos, o que aparece nos jornais e nos telejornais é fruto de um trabalho sério...

      Quando ainda assistia às TVs em Portugal, gostava do Jornal das 9, na SIC Notícias, com Mário Crespo. Quando este acabava e chegava a chamada para o Jornal das 10, com Ana Lourenço, nossa! lembro bem: ela, de pé, anunciando a(s) desgraça(s) daquele dia... “O governo fez...“, “Passos Coelho deixou de fazer...”...

      Uma última nota: o que é Pacheco Pereira, apresentado no rodapé dos televisores como comentador representando o... PSD?!

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