quarta-feira, 18 de outubro de 2017

[O cão tabagista conversou com...] Dirnei Guedes: “Eu era um brasileiro puro sangue, que jogava papel nas ruas”

Nome completo: Dirnei André Guedes

Nome de guerra: André Guedes

Onde nasceu: 
Rio de Janeiro, Brasil


Onde estudou: Escola Normal Carmela Dutra e Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Que faculdade?
Meteorologia, mas só fui até o segundo período. A Universidade era em horário integral e eu precisava trabalhar.

Quando começou a trabalhar?
Comecei a trabalhar em 1968 como Professor Primário (ensino fundamental). Tive outras profissões.

Foi no Rio que deu aulas?
Sim, foi no Rio de Janeiro que dei aulas.

Por quanto tempo deu aulas?
Por mais ou menos oito anos.

Que outras profissões? Podemos saber?
Sim. Deixei o magistério e fiz concurso para Controlador de Tráfego Aéreo. Fui trabalhar no Controle de Aproximação (APP Brasília) no CINDACTA. Fiquei lá por, mais ou menos, três anos, quando ingressei na VARIG no setor de ‘Manuais de voo’.

Qual era exatamente a função do setor ‘Manuais de Voo’?
‘Manuais de voo’ cuidava da parte operacional dirigida aos pilotos das aeronaves. Eram manuais com rotas, planos de voo, descrição cartográfica dos aeroportos de todo o mundo que os pilotos consultavam sempre durante os voos. Alertava sobre obras nas pistas de taxiamento e restrições em rota, etc...

A minha parte era o NOTAM (Notice To Airmen). Eu fazia as traduções de mensagens internacionais de rádio sobre essas advertências e atualizava para os voos que partiam do Galeão. Não tínhamos e-mails nessa época.
Era um setor muito procurado por outras companhias aéreas que operavam no Galeão.

Por que era procurado?
Porque a Varig sempre foi muito respeitada por sua competência nesse setor.

O que lhe faz dizer que a “Varig sempre foi muito respeitada por sua competência nesse setor.”?
Porque trabalhei nele algum tempo e pude constatar a seriedade de como esses Manuais tinham de chegar perfeitos e atualizados às mãos dos pilotos. Eram cartas de navegação com procedimentos de pouso e decolagem de todos os aeroportos onde a Varig operava. Um mínimo erro num desses manuais e poderia comprometer um voo. Os Comandantes confiavam nesse trabalho. Esses manuais eram consultados pela Cabine de Comando a todo instante. Hoje, não sei como deve ser feito isso. Talvez não se necessite mais de um setor assim. Os Computadores fazem tudo.

A Varig era respeitada em todos os setores.

Uma empresa séria e competente em tudo que fazia. Era mais procurada para informações (suas lojas) no exterior, que os próprios Consulados do Brasil. Todo o setor de terra da Varig era muito profissional, as outras empresas sabiam disso e confiavam nos trabalhos produzidos pela empresa no Brasil. Excelência nos serviços.


Ficou no setor de Manuais até quando?
Fiquei no setor de Manuais de voo, uns dois anos, mais ou menos, até ingressar no voo como Comissário de bordo.

O que o levou a se transferir para o voo?
Na verdade, sempre fui apaixonado por aviões e velocidade. Me criei num subúrbio do Rio chamado Marechal Hermes. Nesse lugar existe até hoje a Base Aérea do Campo dos Afonsos, de forma que cresci vendo os aviões da Aeronáutica fazendo acrobacias na pista. Passava horas olhando tudo aquilo.

Naturalmente, eu deixei o magistério e fui atrás dos aviões. Primeiro me formei como Controlador de voo, depois em terra na Varig...

Minha sala de trabalho em terra na Varig era no Galeão e eu ficava vendo os jatos desfilando pela pista da minha janela... Quando surgiu a oportunidade, não deixei passar. Me inscrevi para ser Comissário de voo... e deu certo... Eu já estava a meio caminho de trabalhar dentro dos aviões. Aviões da Varig, então... era um sonho sendo realizado.

Em princípio, nas entrevistas eliminatórias para o Curso de Comissários, eu fui indicado para fazer o curso de Pilotos da Companhia. Eu tinha uma formação técnica muito boa como Controlador de voo e eles me queriam comandando. Mas eu expliquei que minha missão não era dentro de uma cabine de comando e sim, interagindo com pessoas dentro do avião.

Então, começa o curso de comissários quando?
Em março de 1979.
Primeiro voo na base São Paulo em julho do mesmo ano.

Ah, então você foi para base SAO?
Minha turma se formou e alguns puderam optar entre ficar na base RIO (na ponte aérea) ou ir para a base SAO que era o forte dos voos nacionais. Como eu queria voar todos os equipamentos disponíveis na época (737/727 e o Electra), não pensei duas vezes e fui.

Minha turma de 1979... sobraram poucos. Nos reunimos sempre que temos chance. Eu, Angela Freire, Martha Lee, Yara Maria e Lídio José... em 2015
Já tinha morado em São Paulo? Sentiu diferença(s) entre São Paulo e Rio?
Nem conhecia Sampa. Gostei muito de viver por lá. Não tem a irreverência do Rio, mas era uma cidade incrível.

A base SAO era bem diferente da base Rio. Levei algum tempo para me adaptar porque sempre havia a comparação entre as duas bases. A de Sampa se dizia mais profissional e sofri algum bullying por ser Carioca.

Ficou quanto tempo em São Paulo?
Dois anos mais ou menos. Em 1982 fui transferido para a base Rio para voar no DC-10 em voos intercontinentais.

1982, o DC-10 estava separado do Jumbo (as tripulações)... Penso que foi nesse admirável avião que voamos juntos...
Com certeza. Isso mesmo. DC-10 e 747 separados. Sabe o que mais gostei quando fiz meu primeiro voo para o exterior? O quarto individual no hotel. Como me senti bem não tendo de dividir o quarto. Foi uma conquista.

Sim. E você lembra para onde foi esse primeiro voo?
Inesquecível. RG 810: Miami com dois dias inativos. Marina Park Hotel na Biscayne Boulevard.  Nessa época, o DC-10 voava junto com o A-300. As tripulações eram fixas, só garotada abaixo dos trinta anos. Cada voo era uma festa.



Não entendi “o DC-10 voava junto com o A-300”...
Sim. O DC-10 se separou do 747 e com a chegada do A300 quem voava o DC10 também voava o A300. Por isso nossos voos para Miami eram assim com dois, às vezes três dias inativos. Voávamos para Caracas direto e para Miami via Caracas.
Só os mais antigos voavam o 747. A garotada ficou no DC-10/A300.


O A300 ficou com a Cruzeiro posteriormente, e então o DC10 passou a voar sozinho. Pouco tempo depois, com a chegada dos MD11 juntou tudo, menos o A300 que em seguida foi embora ando lugar aos 767. Eu fiquei no Jumbo/MD 11.

Era confuso mesmo. Mudava a toda hora. Depois juntou tudo: MD11/747/767/DC10.

Desses todos qual o avião preferido?
Avião preferido... hummm... o MD 11, quase empatado com o 747.


Quais os pernoites de que mais gostava?
Pernoites... deixa ver... Paris. 
Paris, Lisboa e Frankfurt (leia-se Mainz).

O que mais gostava de fazer nessas cidades?
Em Lisboa eu tinha amigos que me pegavam no hotel Penta. Era um voo com três dias inativos feitos no glorioso 707. Em Lisboa eu simplesmente me sentia em casa. Quase deixei a aviação para viver por lá nos anos 80. Lisboa era vida. 

Paris eu andava a pé... era um prazer andar pelas ruas de Paris, respirava cultura por todos os lados.

Em Mainz também adorava passear pelas margens do Reno e pelo centro histórico da Cidade. Sem contar com a gastronomia dessas três cidades.

Hummm... “quase deixei a aviação para viver por lá”... paixão pela cidade ou por pessoinha?
Pela cidade mesmo... Viver em paz, sem medo de caminhar pelas ruas. Vidas passadas, com certeza.

Sabe, Dirnei, eu comparo diariamente o Rio com Lisboa, ou melhor, com a grande Lisboa. Evidentemente que eu não vou andar às 3h da manhã por ‘determinados’ locais de Lisboa, nem de Paris, nem de Mainz... Aliás, a única cidade onde andei às 3h da manhã na maior, estava com a minha mulher, foi Hong Kong.

Ainda me causa uma boa surpresa o respeito que os automobilistas têm com o pedestre. Aqui eles param para o pedestre atravessar. Quando vou ao Rio, fico estarrecido.

Caixas eletrônicos estão na calçada. Bancos ainda não se transformaram em fortalezas feudais.

Em Lisboa (acredito que nas outras cidades também) turistas caminham despreocupados com o smartphone na orelha, a câmera fotográfica de centenas de euros pendurada no pescoço e o iPad pendurado no cinto. E outros detalhes.
Não sei até quando...

Deus permita que Portugal nunca chegue ao nível de barbárie que se transformou o Brasil. Não tenho nenhum prazer em viver aqui. Não posso nem ficar em casa tranquilo. Vivo trancado e com medo... isso não é lugar para se viver. Estou perto dos 70 anos e o jeito é encarar esse terror. Não sei se conseguiria recomeçar em outro lugar.😢

Aqui nós andamos nas ruas com a sensação de estarmos sendo caçados... a qualquer momento você pode se deparar com um bandido disposto a te matar... por puro prazer de tirar sua vida... é o inferno.

Você concluiu qual é a diferença entre a ‘violência urbana’ no Rio de Janeiro e, por exemplo, a ‘violência urbana’ em Lisboa. No Rio de Janeiro mata-se por um celular, uma nota de 50 reais, uns tênis... Em Lisboa, ainda existem ladrões (ou assaltantes), que querem roubar/assaltar. Eu mesmo fui assaltado por dois homens, de raça negra, quando entrava na portaria do meu prédio. Eu estava com o meu falecido amigo, Kenzo, abri a porta do prédio e me abaixei para abrir a caixinha de correspondência, quando senti a gravata e os puxões nos finos cordões de ouro e na pulseirinha... mas não senti medo de morrer.

Meu amigo, estamos perto dos 70 anos. Alguns, como nós, brincamos com a nossa idade... eu fiz o cartão de idoso da RioCard e logo mandei a foto para a família. Minha próxima ‘conquista’ será o Cartão de Idoso para botar no painel do carro do meu filho quando formos, por exemplo, à Feira de São Cristóvão... 😊

Mas a realidade é implacável e sentida diariamente...



Sobre Paris tenho a mesmíssima opinião: cultura por todos os lados.
Não sei como está, como se apresenta Paris atualmente, tenho severas dúvidas. Mas costumo dizer que Paris é o exemplo de cidade maravilhosa. Com exceção de uma ÚNICA beleza natural, o Rio Sena, a beleza de Paris foi construída pelo Homem.
Concordo plenamente. Com esses problemas de imigrantes invadindo a França, já não sei se ainda é aquela cidade fantástica. Sem preconceitos, por favor... é um fato que vem acontecendo e modificando muito a Europa.

Dei uma informação errada a você. O DC 10 não voava com o A300, era o 707. Quando o A300 chegou se fundiu com o que ainda restava do 707...

Mudando de assunto e ficando no tema, você é um ‘demitido’ ou ‘aposentado’?
Eu sou aposentado sem Aerus. Não cheguei a voar o 777.

Você se aposentou quando?
Aposentei em novembro de 2001. Saí no PDV... a Varig já apresentava sinais de que as coisas não iam muito bem.

Chegou a voar em dezembro de 2001? Quais os voos que você pediu na última escala?
Não voei em dezembro de 2001. Saí no início de novembro.
Pedi e ganhei três voos para Paris.

Hummm... peixão!

Você recebeu todas as promissórias?
Recebi tudo o que tinha direito. A Varig me pagou tudo.

a Varig já apresentava sinais de que as coisas não iam muito bem”. Que sinais?
Os sinais de que as coisas não andavam bem eram muitos... Determinadas coisas já não embarcavam. Mudança na carta de vinhos (para inferior), escalas mais apertadas com poucas folgas, fechamento de lojas físicas, mudança nos hotéis de pernoite (para pior)...
Isso foi me desmotivando e acabei por aceitar o PDV. Eu já voava como Chefe de Equipe.

Na sua percepção, a quem e/ou ao quê cabe a maior responsabilidade pelo fechamento da empresa?
Antes eu creditava toda a culpa à má gestão na Varig. Havia muito desperdício e abusos. Depois vi que tinha o dedo podre da política nessa história.

Segundo li num livro sobre a falência da Varig, um partido político que almejava vencer foi ao presidente da empresa pedir dinheiro para a campanha, o que foi negado porque a empresa estava operacional, mas não tinha como colaborar. Então, prometeram vingança...


Tem saudades do voo?
Em parte, sim. Tenho saudades mais da Varig como um todo do que propriamente do voo.

A Varig tinha tentáculos. Atuava em várias partes e até um banco chegou a ter, o Banco Varig.

Um serviço médico de dar inveja a muito hospital de primeira linha no Brasil. Uma Fundação, (Rubem Berta), que assessorava os funcionários em quase tudo. Uma Associação de Comissários (ACVAR) que cuidava de meus interesses junto à Empresa... O voo era a cereja do bolo.

Você trabalharia na aviação de hoje?
Definitivamente não. Não me enquadraria na aviação de hoje. E se trabalhasse seria por pura sobrevivência financeira.

Como vai o Brasil e o Mundo?
O mundo nunca esteve tão turbulento. Parece que as pessoas resolveram se odiar sem fronteiras.

O Brasil é um vulcão pronto para explodir. A violência se espalhou como rastilho de pólvora. Um País a beira do caos social, com uma população hipnotizada. Os jovens só se preocupam com redes sociais e smartphones. Os valores se inverteram. A vida humana vale pouca coisa no Brasil atual. Não gosto de viver aqui, mas agora com quase 70 anos tenho de me conformar em terminar meus dias por aqui. Nem vou comentar a política...

A pergunta que não foi feita?
Não me ocorre uma pergunta no momento, mas, sintetizando minha vida no voo (onde passei a maior parte) foi bastante positiva. Conheci e aprendi muitas coisas. Talvez me lamente por não ter aceitado ficar dois anos na base Los Angeles como muitos ficaram.

Pude melhorar sensivelmente em todos os sentidos. Participei de outras culturas e aprendi muito.

Eu era um brasileiro puro sangue, que jogava papel nas ruas, não tenho vergonha de dizer isso.

Viajar me fez um ser humano melhor, mais civilizado, educado e refinado.

Agradeço a Deus pela oportunidade.

Muito obrigado, Dirnei!

Conversas anteriores:

10 comentários:

  1. Obrigado,Jim. Espero ter correspondido. Se as coisas melhorarem,quem sabe eu consigo ir ao Encontro dos Variguianos aí em Lisboa!?

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    1. Eu é que agradeço a sua disponibilidade. E espero muito revê-lo em maio de 2018.
      Forte abraço./-

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  2. Muito bom Dirnei. Bela entrevista. Saudade dos vôos, pernoites e estas conversas.
    Abraço.
    Heitor Borges

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  3. Caro André Guedes, lembro de Vc, apesar de termos tido uma Aviação diferente, pois eu voava B747, por interesses da Empresa, mas tivemos alguns momentos em comum, seus colegas de turma, maravilhosos, tenho saudades de todos. A década de 80 na Aviação foi fantástica, mundialmente, a vida era vivida!

    Mainz, Paris, Lisboa, Rio, Nyc, andávamos sim, altas horas nas ruas com plenitude de vida, hoje não mais, aqui no nosso Brasil, porque mundo afora ainda se faz isto.

    Sabes, eu também aderi ao PDV em 2001 após o 11 de setembro, quando fiz 50 em novembro e com 50 pude aposentar pelo Aerus, não perdi a oportunidade, pois se tivesse esperado fazer 55 teria perdido tudo, também como CE e recebi todas as “promissórias”, não tinhas Aerus?

    Concordo plenamente, que “voar” ou viajar, conhecer os continentes, nos fez um ser humano muito melhor e mais Feliz!
    Parabéns pela Entrevista!
    Parabéns ao Blog, por entrevistar pessoas bacanas, que sempre nos acrescentam muito!
    Abraços Fraternos,
    Heitor Volkart

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    1. Muito boa entrevista do André Guedes, Parabens. Um grande abraço Jim. E vc, meu amigo Volkart, nunca te esqueço, tô te devendo umas fotos, faz tempo,mas gostaria de bater um papo contigo pelo Skipe, me manda teu email.




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  4. Muito boa , a entrevista com o Dirnei . Fez uma brilhante carreira .
    Compartilho o pensamento dele: também não retornaria à aviação para trabalhar ... hoje estamos mais na idade de aproveitar as delícias que o mundo oferece.
    Creio ter uma certa lembrança do rosto do Dirnei.
    Grande abraço.

    Sidnei Oliveira

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  5. Não me cansarei de agradecer àqueles e àquelas que acederam serem 'entrevistadas' pela revista. Não só pela excelência das suas respostas e pela consequente promoção da revista, mas também, muito importante, não sei como dizer, pelo destemor em concordar conversar conosco.
    Porque, gente querida, de dez convidados, NOVE recusam!

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  6. Jim querido , como sempre excelente a sua escolha. Dirnei,foi um comissário completo . Um grande colega,generoso e amigo!Fiquei feliz pela entrevista,saudades ...bjs

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