segunda-feira, 12 de junho de 2017

[O cão tabagista conversou com…] Guillermo Santandreu: "e após uns segundos, que aproveitei para olhar nos olhos dos participantes, informei que em Lisboa estavam as duas aeronaves disponíveis da EuroAtlantic."

Nome completo: Guillermo Santandreu Gonçalves

Nome de guerra: Santandreu

Onde nasceu: Copacabana, Rio de Janeiro.

Onde estudou:
Brasil, Chile, México, Costa Rica e Itália.
Estudei no Brasil, no Rio e em São Paulo; em Santiago do Chile; na Cidade do México; em San José de Costa Rica; e em Rapallo, na Itália.

Como assim?
Meus pais eram diplomatas…


Até que idade estudou e onde concluiu os seus estudos?
Estudei até os 22 anos e terminei os meus estudos no Chile.

Já agora diga-nos qual, na sua lembrança, o país de que mais gostou…
Tive a oportunidade de morar em um paraíso chamado Costa Rica… porém, tenho ótimas lembranças de todos os lugares onde estudei e residi.

Alemanha é um ótimo país para morar, estudar, trabalhar, formar uma família e passear.

Tenho um vínculo especial com Portugal: meus pais nunca conseguiram, na carreira diplomática, serem enviados ao cobiçado destino Lisboa… só foi possível já como aposentados, onde moraram por mais de trinta anos. Também o meu irmão e família residem lá.

Tenho muitos amigos, incluindo os da Varig, Tap, Lufthansa, Tam… em todo o belo país lusitano.

Como chegou à Alemanha?
Meu pai foi designado como ministro-conselheiro para a embaixada do Chile em Bonn, capital da então Alemanha Ocidental.

Como o meu pai não estava muito bem de saúde, a minha mãe me pediu para acompanhá-los no que seria o último destino da carreira diplomática deles. Fui primeiro para a Itália, com o objetivo de entregar o meu currículo na Fiat, em Turim, que estava recrutando jovens bilíngues para trabalhar na Fiat de Belo Horizonte. Continuei até Bonn, onde após o reencontro familiar e apenas uma semana de moleza, fui matriculado em um curso intensivo de alemão no Göethe Institut na lindíssima cidade de Boppard à beira do rio Reno…

Seus pais eram chilenos?
Meu pai era chileno, de Santiago, e a minha mãe era brasileira, de Campos dos Goytacazes no Estado do Rio de Janeiro.

Que idade tinha quando começou a estudar alemão em Boppard?
Comecei o estudo do alemão em Boppard com 23 anos.

Presumo que o seu primeiro emprego foi na Alemanha…
Sim, efetivamente foi na Alemanha o país do meu primeiro emprego. Ainda estudava o idioma alemão em Boppard quando recebi uma carta me convidando para uma entrevista na central da Fiat da Alemanha.

Foi uma surpresa para mim ter sido entrevistado pelo próprio diretor da filial germânica, que testou meus conhecimentos de idiomas e o meu gosto pela mecânica, para participar em um curso de formação e integrar a futura equipe da Fiat em Belo Horizonte.

Como o propósito da minha vinda para esta terra foi o de acompanhar os meus pais, preferi entrar como aprendiz de mecânica na Mercedes Benz e obter o nível apropriado de conhecimento do idioma… e dei um pouco do tempo ao tempo (minha certa especialidade para algumas situações…).

Em casa falava-se o espanhol ou o português?
Falávamos espanhol e português. Passávamos automaticamente de um para outro idioma ao falarmos com o pai ou a mãe.

Maravilha! Chegar à adolescência fluente em dois idiomas já vale como uma faculdade…
Voltando à penúltima resposta, então, você começou a trabalhar na Mercedes, certo?
Quase… meu pai já tinha iniciado os preparativos para se aposentar antecipadamente da vida diplomática e estava um pouco preocupado com o meu futuro. Por meio de um grande amigo de estudos do pai e também diplomata servindo em Frankfurt, fui apresentado ao dono de uma concessionária da Mercedes Benz para trabalhar como ajudante de mecânico na garagem. O alemão, meio durão, tinha sido o único sobrevivente de um submarino atingido pelos americanos na segunda guerra mundial. Ouvi que os ajudantes tinham que limpar a garagem e ferramentas…. falei que já tinha feito isso em uma garagem da Mercedes em São Paulo onde era feita a manutenção do nosso carro.

Poucas semanas após, algo parecido se repetia em outra entrevista, quando sabiam que eu era filho de diplomata era avisado de que teria que lidar com lixo, roupa suja, limpeza de toaletes, comida, faturas e pessoas às vezes "difíceis"… muito espontaneamente respondi que meus pais já me tinham (muito sabiamente) ensinado e preparado para os desafios da vida…

Mas onde começou a trabalhar?
Aquela relatada entrevista tinha ocorrido durante uma das últimas viagens com os meus genitores a Frankfurt para visitar o grande amigo, Cônsul Geral do Chile, que era padrinho de casamento de um destacado diretor de uma empresa aérea para Europa Central e Escandinávia.

Essa empresa estava em fase de expansão das frequências em Frankfurt, com a chegada dos novíssimos DC10-30 em fins de 1974...

Um simples telefonema do Cônsul (que para mim era como um tio muito respeitado) para o diretor da empresa aérea mudou totalmente os meus planos e sonhos…

No mesmo dia fui à sede da companhia, em frente à estação principal de Frankfurt, para me apresentar ao Gerente do aeroporto, e a responsável pelos recursos humanos me entregou os formulários para serem preenchidos e enviados de volta pelo correio.

No escritório, fina e funcionalmente decorado com móveis e lambris de jacarandá, tinha jornais, revistas e cafezinho brasileiros…
Me senti em casa, e anos depois entenderia melhor o que os clientes comentavam das lojas da empresa, que eram mesmo verdadeiras embaixadas.

Fiquei tão feliz que até me perdi dirigindo o carro para ir do centro ao aeroporto de Frankfurt, onde tinha uma entrevista com Carlos Andrade, Gerente da Comissaria da Varig. Me candidatava à única vaga disponível de agente de Comissaria II.

Well, então, o seu primeiro emprego foi na Varig, certo?
Sim, o meu primeiro emprego foi mesmo na Varig da Alemanha, o que foi muito interessante, para entender o pioneirismo e a influência germânica da história da empresa.

Portanto, começou a trabalhar na Comissaria da RG em Frankfurt no final de 1974… qual era exatamente a sua função?
As entrevistas e a entrega da documentação, para ser enviada ao Rio de Janeiro, foi até meados de dezembro de 1974. Então considerei que com as festas de fim de ano e Carnaval em fevereiro… só começaria a trabalhar em março. Tive muita sorte, já que recebi um telefonema dos R.H. da Varig em Frankfurt, para me apresentar, assinar o contrato de trabalho e iniciar as atividades no setor de comissaria no dia 2 de fevereiro de 1975.



Basicamente, a função principal na comissaria estava diretamente relacionada com o controle de qualidade de todos os itens do famoso serviço de bordo da Pioneira, que eram embarcados nos voos que saíam de Frankfurt, operados pelos lendários B707 e moderníssimos DC10-30.

Controlávamos também a limpeza do interior da aeronave como as mesinhas, poltronas, janelas e, em especial, dos banheiros.

Isto incluía a verificação do estado dos panos de mesa, guardanapos, fronhas, cabeçotes, panos de cozinha, panos de chão e os lençóis para as camas dos tripulantes, que voltavam da lavanderia. Eram pouquíssimas as coisas descartáveis naquela época…

No próprio almoxarifado ou depósito afiançado, ficávamos responsabilizados pela entrada e saída das bebidas, para o próprio serviço a bordo, incluindo a reposição dos liquor kits com cigarros, cigarrilhas, miniaturas e até baralhos…

No catering se verificava o preparo das refeições para a First Class e Econômica, na sua gramatura, apresentação, conforme estabelecido pela DSB para o menu em vigor nesse mês.

Também se controlavam nas caixas "A" do 707 e os "Trolleys" laranjas do DC-10, a quantidade padrão de talheres, louça Noritake e uma incrível quantidade e variedade de copos, que poucos bares utilizam atualmente.

Do fornecedor íamos para o avião aguardar a chegada dos tripulantes, e aproveitávamos para arrumar os jornais e revistas que seriam distribuídos posteriormente aos clientes.
Colocávamos as flores e cremes nos banheiros.

Com o cordial recebimento dos tripulantes, iniciávamos o briefing, que incluía a informação do menu explicativo, comparação com o número de passageiros e as refeições embarcadas, incluindo as especiais.

Informávamos eventualmente de algum item faltante, o que era muito raro naqueles tempos da "aviação de ouro".

Ficávamos durante o embarque no "finger" para atender a algum pedido ou questionamento de alguns tripulantes… tipo "está faltando a garrafa de Vodca no gelo", "a manteiga líquida" para o serviço de caviar está pela metade ou falta "nice clean" na cabine de comando… e outros, como que o número de earphones não bate com a previsão dos passageiros. Tudo isto se resolvia rapidamente e em conjunto, evitando o relatório da DSB, que poderia penalizar o bom nome que a comissaria de FRA já tinha.

Lidávamos também com compras, importação/exportação, faturamento e auditorias aos fornecedores.

Conversando com você, me veio à mente a Comissaria do México, muito elogiada pelos tripulantes…
Efetivamente, a Comissaria de MEX era muito elogiada pelos tripulantes nas nossas conversas e reuniões da empresa.

Nessa época, início de 1975, a empresa operava com os 707 e os DC-10 para Frankfurt?
Sim, os voos eram efetuados na maioria das vezes pelos B707, que foram sendo gradativamente substituídos pelos DC10-30 a partir de fins de 1975. Operávamos quatro frequências semanais via Lisboa, que em alguns dias incluía Zurique. Aos domingos o voo continuava até Copenhague e aproveitávamos o tempo para levar a roupa suja à lavanderia, em uma linda Kombi da VW azul e branco e com o logo da Varig. Conforme orientações do chefe do departamento, Carlos Andrade, a Kombi sempre tinha que estar impecável e ordenada, já que era também a imagem da empresa dentro e fora do aeroporto.

Congonhas, São Paulo

Nos dias em que não tínhamos voos, aproveitávamos para controlar as faturas, o estoque de material e fazer os pedidos aos fornecedores dos vinhos alemães e outras "delikatessen" para o serviço de bordo de várias rotas.

Se sobrava tempo, dava uma leitura e atualizava os manuais e boletins da DSB.

Um dia me deparei com um manual de "Tráfego e aeroportos" que me pareceu muito interessante. Com o incentivo do meu chefe direto comecei a ler outros manuais de telecomunicações, cargas e administração. Trabalhar assim na comissaria era ótimo pelo tipo e ambiente de trabalho, que entre outros para um curioso como eu, me permitia observar tudo o que acontecia ao redor do avião na rampa. Um dia pensei que poderia aplicar meus conhecimentos adquiridos em um curso de A.I.S. na Escola Técnica da Aeronáutica chilena. O meu destino estava traçado…

O que significa A.I.S.?
A.I.S. significa Aeronautical Information Services. Trabalha junto com o Controle de Tráfego Aéreo, A.T.C., fornecendo informações aos tripulantes técnicos, das rotas, metereologia e restrições nos aeroportos de destino do plano de voo. É uma espécie de despachante operacional de voo, D.O.V. do aeroporto e não da empresa aérea.

Entendi… Ficou na Comissaria FRA até quando?
Após quase três anos bem aproveitados na comissaria de Frankfurt, me candidatei a uma vaga no despacho de passageiros, como agente de tráfego II. Chegava a este setor com uma considerável bagagem de conhecimento, sobre um dos pontos fortes da empresa: Serviço de Bordo, saber lidar com os tripulantes e ter experiência com o atendimento às aeronaves em terra.

Nesse período tive a valiosa oportunidade de conhecer e fazer um estágio no antigo Galeão, incluindo o catering, manutenção, cargas e o notável Senhor Rousselet. Me alertou para ter cuidado com o sol na praia, já que tinha chegado em dezembro com os negativos 21 graus do inverno alemão, para os +40 do verão carioca.

Observei a limpeza e desnicotinização do interior de um B707, reforçando o sentimento de ser não fumante… Despachei com os colegas de GIGHR um voo extra (B707) para POA, levando os membros da Fundação para uma reunião.

Fiquei feliz quando o Comandante Carlos Homrich, estando eu na rampa, me reconheceu da cabine de comando, fazendo uma saudação com a mão, antes de dar a partida dos motores…

Conheci também a sede da DSB no SDU e fiquei impressionado pelo tamanho do prédio, os restaurantes “cai duro” e “cai morto” (sai duro) e a maravilhosa vista… Sempre falei e falo com muito orgulho, de que comecei o meu primeiro trabalho na aviação na Comissaria de Frankfurt!


Em fins de 1977 iniciava uma nova fase de aprendizado e desenvolvimento profissional no "tráfego" onde o foco era o atendimento do passageiro em terra…

(Re)começa então no Despacho de Passageiros… eram quantas frequências semanais?
Tínhamos quatro frequências semanais de voos de passageiros e três de cargueiros. Operávamos via Lisboa e Zurique. Aos domingos o voo continuava até Copenhagen.  Posteriormente, operamos via Paris e Madri e também com Amsterdam.

Tanto em Lisboa como Madri tivemos baseamento de tripulantes por muitos anos, o que facilitava muito o trabalho e ajudava a estabelecer um ótimo nível de relacionamento e amizade entre as equipes de terra e voo.

Como fui um dos responsáveis da mudança da operação de Orly para Charles de Gaulle nos anos oitentas, me permiti fazer uma brincadeira com um dos participantes do nosso primeiro encontro em Sintra. Como o encarregado da gestão dos aeroportos, J.B. Mariscal, estaria presente, levei um malote interno da Varig endereçado a ele, contendo a ata da reunião que realizamos em Orly há mais de trinta anos!... indicando que o importante malote que tinha sido extraviado, foi finalmente encontrado. Lamentavelmente não consegui localizar as fotos do almoço no Maxim's de Orly…


Chegamos ao início da década de noventa… você trabalha no Despacho de Passageiros no aeroporto internacional de Frankfurt…
Iniciava a década de 90 já como Gerente de Aeroporto da base de FRA.
Tive uma ótima formação profissional, que até incluiu um curso da IATA de gerenciamento de aeroportos, ministrado no centro de treinamento da Lufthansa…

Quando começou a frequência para Munique?
A primeira das três frequências semanais para MUC foi iniciada em 14 de janeiro de 2001. Como responsável da base questionei a operação, já que tínhamos diariamente um voo GRU/FRA que fica a 400 quilômetros de Munique.

Teria sido preferível aumentar as frequências para FRA, onde já contávamos com uma boa infraestrutura e equipe, que aceitava todo tipo de desafios…

Em 2000, chegava em um voo da Varig, o comandante Rolim Amaro, já de olho na rota de FRA para a TAM. Ele continuava para Berlim para participar em uma feira internacional de aviação. O acompanhei até o portão de embarque do voo da parceira Lufthansa e lá aproveitei a oportunidade para, em tom de brincadeira, sugerir trocarmos as frequências: a TAM iria para Munique e a Varig iniciaria os voos para o Rio desde FRA. Nunca me esqueci da resposta. Ele deu uma olhada ao seu redor na área de embarque repleta de passageiros e falou "Não, Santandreu, o dinheiro está aqui em Frankfurt!"
Primeiro voo de MD-11 GIG/FRA
Agradeci o espontâneo comentário, que confirmava a nossa visão de rentabilidade de rotas…
A TAM não resistiu à operação em FRA por falta de acordo com os voos de alimentação da LH, o que era privilégio da Varig. E nós desistimos temporariamente dos voos de MUC por falta de rentabilidade…

O interessante foi que após algumas semanas, recebi uma carta do Comte. Rolim que me agradecia pelo atendimento e se colocava à disposição… e quem diria que algum dia (eu) faria uso dessa simpática carta!

Quer dizer, voo para Munique, uma decisão sem pés, nem cabeça…
Eu teria optado por aumentar as frequências FRA/GIG de quatro para sete, voo que era muito rentável em carga e passageiros.
O voo era operado em parceria com a Lufthansa, que posteriormente começou também a operar o seu próprio voo.

Em 2006, novamente contra a minha opinião, voltamos a operar o voo de MUC desde o novo terminal 2, que é um dos melhores do mundo.

Fiz parte, desde 2001, da equipe da Star Alliance que colaborou no desenho MUC2 funcional do futuro MUC2.  Fiquei muito feliz no dia da inauguração, em poder comprovar como é importante o trabalho conjunto entre os usuários e autoridades aeroportuárias.

Curiosamente, em fins do ano passado, a Lufthansa acabou cancelando os voos MUC/GRU/MUC por motivos de rentabilidade, agravada pela crise económica brasileira… Enfim, tanto em 2001, como em 2006, a minha opinião não estava fora da realidade.

Antes de prosseguir, tenho para mim que o Hotel Hilton, em Mainz, foi o hotel que mais tempo permaneceu como hotel de pernoite da tripulação…
Sim, você está certo.  As tripulações, funcionários, passageiros e familiares utilizaram o Mainz Hilton por mais de vinte e oito anos!!

Bateu todos os recordes da Varig de permanência contratada com este tipo de acomodação para as equipes de voo…

Curiosamente, à medida que os contratos iam sendo renegociados, obtínhamos um preço melhor para um hotel de qualidade, muito bem localizado na beira do rio Reno.

Saímos do Intercontinental de Frankfurt pelo fator custo e segurança.

Mainz tinha ótimos restaurantes, cervejarias, centros comerciais e facilidades para fazer turismo.

O próprio músico gênio W. A. Mozart, em fins de 1700 já admirava a cidade pelo vinho e a cerveja, o estilo de vida descontraído dos seus habitantes… e provavelmente chegou a conhecer as "irmãs sisters", tão badalado restaurante, o preferido dos tripulantes.

Quem não se lembra das festas de Natal, Ano Novo, aniversários e os happy-hours?!

Agradeço à empresa por ter-me permitido negociar junto com a diretoria de operações e o representante local, o contrato com o famoso Mr. Morscher. Ele era um "hotelier" estilo antigo, muito educado, culto em história, arte e música. Aprendi muito com ele.

As dificuldades da Varig aumentavam e fomos obrigados a procurar um hotel mais econômico em Darmstadt.  No dia em que recebi do Rio o contrato já assinado pelo diretor de operações, tive a ideia de ir com o nosso gerente-geral, primeiro ao Hilton, para fazer um último intento negociador com Mr. Morscher… chegamos lá e mostramos para ele o contrato assinado, ele empalideceu. Nos ofereceu café e vinhos e pediu para esperarmos meia hora. Voltou com todos os seus assessores fazendo uma contraproposta que ficava igual à do hotel em Darmstadt… Liguei para o diretor informando da virada e este me comentou de que o contrato já estava assinado, aí eu falei que ainda não tinha sido entregue... Continuamos a viagem até ao que seria o futuro hotel para um encontro com o diretor.

Falamos que o sindicato dos tripulantes tinha enviado inspetores anônimos, que o hotel ficava próximo à linha dos trens, que reclamaram das vibrações e ruídos… o que era verdade.

Negociação inesquecível que nos favoreceu a todos...Voltei ao aeroporto para dar a boa notícia aos tripulantes que assumiam o voo e que me tinham visto no hotel junto ao Mr. Morscher. Foi a última negociação com ele, que posteriormente se aposentou com uma grande festa no próprio hotel.

Com a chegada da Nova Varig, fomos obrigados a trocar de hotel, sem negociação.

Para que hotel foi a Nova Varig?
A tripulação foi para o Steigenberger Airport Hotel, bem perto do aeroporto.
O hotel tinha boas facilidades e bom atendimento. Parte da economia se dava pela eliminação do custo do transporte, já que o hotel contava com um ônibus que circulava a cada quinze minutos… os tempos tinham mudado e tínhamos que nos adaptar à nova política empresarial, para sobreviver.

Quando falamos ‘Nova Varig’ quer dizer Gol, proprietária da Varig, ou do que sobrou dela… certo?
A Nova Varig foi o que sobrou do leilão de 20 de julho de 2006, tendo sido comprada pela Varig Log do grupo Volo e Matlin Patterson.

Foram iniciadas as demissões e cancelamentos dos voos. Me lembro do dia em que estava na sala onde recebíamos as mensagens de telex e estava entrando nesse momento o cancelamento dos voos do Rio e posteriormente os de São Paulo para Frankfurt (FRA). Tirei a mensagem da impressora para que os funcionários não ficassem preocupados com a paradas dos voos na base.

Aí me veio um flash à memória... me lembrei da minha ida em 14 de maio 2006 a Lisboa, para estar juntos com os meus colegas da histórica base, no dia da realização do seu último voo. Foi uma sensação coletiva muito triste ver aquele voo decolar pela última vez…

Vendo tantos colegas também de outras empresas e muitos aviões da TAP na rampa, pensei no destino… se o Engenheiro Fernando Pinto e sua equipe tivessem ficado no comando da empresa e se o apaixonado pela aviação comandante Rolim Amaro estivesse vivo, não estaria participando no enterro de rota e uma base…

Voltei à realidade do momento e simplesmente me rebelei do negro destino que teríamos de passar com os meus colegas e os nossos clientes em Frankfurt.  Fui tomar um cappuccino fora do escritório e fiz um esboço de uma mensagem que posteriormente enviei ao Diretor dos Aeroportos no Rio.

O telex dizia resumidamente que como o cancelamento não respeitava o prazo mínimo de quatorze dias para cancelar os voos conforme a regulamentação da comunidade europeia, teríamos que desembolsar aproximadamente cinco milhões de euros por mês em indenizações, hotel, alimentação, transporte dos clientes, além dos "imensuráveis danos à imagem da empresa em um dos seus melhores mercados".

Telefonei ao meu chefe no Rio (Dolabela) que me informou de que estava indo a uma reunião das diretorias com o Lap Chan do fundo Matlin Patterson… Ele mostrou a minha mensagem-telex ao todo poderoso, que após seguramente uma "reflexão financeira" resolveu reativar apenas o voo GRU/FRA/GRU… um colega do planejamento do Rio me ligou para dar a boa notícia de que o voo estava sendo reativado.

Foi o único voo internacional-intercontinental que não foi cancelado e o jornalista Claudio Magnavita escreveu um artigo "A estrela solitária" em homenagem à equipe de Frankfurt.

Termos vencido uma batalha significou um notável aumento de trabalho para nossa dedicada equipe, sempre pronta para enfrentar desafios e os novos que iriam aparecer mais adiante...

Guillermo, quando você sentiu que ‘as coisas não iam bem’?
No meu ponto de vista a crise já estava afetando a Varig na década de noventa com a crise financeira nacional e a política de céus abertos.

Com a entrada no novo milênio (2000) a situação piorou com a saída da equipe do Engenheiro Fernando Pinto, que desde 1996 tinha tomado uma série de medidas de melhoria da rentabilidade, a nova imagem, a entrada no seleto e exigente grupo da Star Alliance e uma grande valorização e profissionalização do quadro de funcionários, especialmente da linha de frente.


Em 11 de Setembro chegava em um dos nossos voos o presidente Ozires Silva e Equipe, que continuariam para Toulouse em visita à Airbus. Tive que dar a notícia dos trágicos acontecimentos dos atentados, o que significou o cancelamento da continuação da viagem para a França e o retorno na mesma noite para o Rio.

A crise que se deu no setor aéreo mundial após os atentados, a trágica morte do comandante Rolim, que favoreceu os contra colaboração ou contra a fusão entre Varig e TAM, somada à vontade política de asfixiar a nossa empresa nos levaram a operar em céus turbulentos e com mudanças de rotas permanentes na direção da empresa. Tínhamos dificuldade com o abastecimento no Brasil de combustível, começavam a faltar os suprimentos para o serviço de bordo e tínhamos que lidar com uma possível apreensão das aeronaves nos aeroportos da Europa… e tudo isso sendo driblado pela incrível vontade e profissionalismo das equipes guerreiras da empresa.

Como soube do fechamento da empresa??
A primeira vez foi via telex em que se cancelavam os voos internacionais, que conseguimos reverter. A segunda parada prevista para praticamente o único voo da malha intercontinental, foi via telefone. O gerente de vendas, o gerente financeiro e eu, éramos convidados para uma reunião no Rio para discutirmos em começo de março o fechamento da base devido aos maus resultados da rota. A saída da Star Alliance, o fim dos acordos comerciais com a maioria das empresas aéreas, eram os motivos principais que tinham contribuído para uma redução de um aproveitamento médio de 85% para apenas 30%. A falta de aviões era um dos pontos em discussão. Antes de ir à reunião fui visitar um grande colega da Varig Charter. Conversando com Carlos Berardinelli fui informado da disponibilidade imediata de dois B767-300 da EuroAtlantic em Lisboa…

Durante a reunião veio à tona o tema da falta de aviões para efetuar o voo da rota Alemanha… reclamei irritado de que sequer tinham respondido ao fax que o subgerente Elói tinha enviado com uma lista de treze aviões da falida Air Madrid, disponíveis para leasing… e após uns segundos, que aproveitei para olhar nos olhos dos participantes, informei que em Lisboa estavam as duas aeronaves disponíveis da EuroAtlantic.


Nesse momento entra na sala o presidente da VRG na época, Guilherme Laager (admirador da base FRA, como cliente frequente) que pediu-me para repetir o que eu tinha acabado de falar… nos deu três dias para irmos a Lisboa e negociarmos o leasing dos dois aparelhos.  Fiquei muito feliz, porque Guilherme Laager estava cumprindo, como executivo e pessoa, a palavra de segurar os nossos empregos.

Isto nos deu fôlego para que após a venda da VRG para a GOL, continuarmos com trabalho e tempo para prepararmos com o concelho de funcionários de FRA, um plano social, para evitar a falta de garantias trabalhistas e sociais.

No começo de 2008, recebo um telefonema do Dr. Piller, presidente da GOL, informando o encerramento da rota para 30 de março de 2008, definitivamente!!

Deixa ver se eu entendi bem. De 2006 a 2008, você trabalhou para a Gol (que tinha comprado a Varig) e voava para Frankfurt com aviões pintados com as cores da Varig?
Depois do leilão em 2006 trabalhamos na Varig da Varig Log-Volo do fundo Matlin Patterson, que vendeu para a Gol em março de 2007 a marca Varig, com aquele ágio gigantesco.

Os nossos contratos de trabalho só foram mudados para a Varig VRG Linhas aéreas em outubro de 2007, reconhecendo assim todos os direitos trabalhistas acumulados durante muitos anos na Varig Alemanha.

O último voo realizado foi em 30 de março de 2008, contando com a presença dos solidários funcionários da Lufthansa, Fraport, catering LSG, A.S.A., autoridades, outros fornecedores e o curador do museu do aeroporto, Héctor Cabezas (ex-Varig dos anos 60) e esposa Paula.

Compareceram também funcionários de diversos setores da Varig FRA e de outras empresas que participaram da festa de despedida que durou até às 4 da manhã… e continuamos com outra festa só para os "da casa" no dia 31 de março.

Passamos o resto do ano atendendo os clientes que não tinham sido avisados e nos preparando para finalmente "apagar a luz e fechar a porta", tarefa que realizei sozinho, para evitar desconforto aos membros da nossa equipe do aeroporto. Registrei estes últimos e tristes momentos em um vídeo.

Meus heroicos colegas, dependendo do tempo de casa, foram à procura de trabalho, alguns se aposentaram e outros se registraram como desempregados. A maioria foi contratada em atividades relacionadas com aviação, graças ao elevado nível profissional que tinham.

E depois de 2008?
Meu último dia na atividade foi em 31 de dezembro de 2008. Semanas antes, a nossa secretária Tania, responsável pela perfeição da área administrativa e o nosso melhor mecânico do mundo, Paulo Romam, já contratados pela TAM, me escreviam comentando de como "seria bom trabalharmos juntos novamente" e de que o meu nome estava sendo mencionado para assumir a gerência do aeroporto desta nova empresa em FRA.

Em 14 de janeiro de 2009, fui entrevistado pela diretora de recursos humanos e o gerente-geral de aeroportos, para a mencionada posição.

Conversando sobe pontos do contrato de trabalho, tirei da minha pasta e mostrei aquela carta de agradecimento do comandante Rolim e comentei que me parecia que ele tinha simpatizado comigo… me perguntaram em que dia poderia começar a trabalhar… respondi "desde ontem" dia do primeiro encontro!!

Com esta nova equipe, que contava já com talentosas pessoas e alguns ex-variguianos, superamos muitos desafios como a mudança de sistemas, entrada na Star Alliance, voos para o Rio e outros.

Em 18 de agosto de 2010, Claudio Magnavita escrevia um visionário artigo sobe a fusão (venda) entre a TAM e LAN, intitulado "Tapete vermelho para os chilenos?"

Após termos concretizados a fusão das operações, equipes em um só terminal, começaram a questionar o meu estilo de gestão e não os resultados… vi que era o momento de chegar a um acordo e saí da empresa no fim de 2013.

Me aposentei em 2015, feliz por ter tido a oportunidade de trabalhar mais de trinta anos na Varig, junto a uma equipe de valiosos profissionais da linha de frente. Agora era o momento de aproveitar o tempo para estar com os netos, família e os amigos espalhados pelo mundo…

Há quantos anos vive na Alemanha? Como é viver na Alemanha?

Vivo há quarenta e três anos na Alemanha.

É um ótimo país para estudar, trabalhar, criar uma família e se aposentar…

Existem muitas garantias no plano médico, social, cultural e no campo da legislação trabalhista. Está no rumo de ser um dos países ideais para as futuras gerações…

É um país muito bonito, com muitas opções de turismo, para os amantes da história, música, literatura, tecnologia, gastronomia, enologia e esportes… e, obviamente, a aviação também!!

Estamos em um lugar central da Europa que te permite chegar à maioria das capitais do continente com uma empresa aérea em menos de duas horas.

Acompanha a situação político-econômica do Brasil?
Acompanho diariamente a precária situação político-econômica do país, com os colegas, amigos e parentes no Brasil.

O elevado nível de corrupção político-empresarial é assustador. Me parece muito injusto que o país com um potencial gigantesco, tenha que castigar a maioria da população, impedindo que possa viver dignamente.

Será que algum dia teremos uma CPI sobre o caso Varig?

No próximo dia 17 de junho, ex-trabalhadores da Varig encontrar-se-ão em Sintra, Portugal, no 2º Encontro Europeu de ex-Trabalhadores da Varig, Familiares e Amigos.  Você esteve no 1º? Vai ao 2º?
Claro que vou participar e apoiar a tua iniciativa e de Maria Cecilia Keller, ajudando com a memorabilia também em este 2º encontro.

Gostaria de contar com uma maior participação dos colegas da Varig Europa (responsáveis na época, em mais de 50% do tráfego internacional da empresa), que têm maiores facilidades de deslocamento, se comparados com os colegas do Brasil e outros continentes…

Forte abraço e até o dia 17 de junho de 2017 com muitas emoções a chegar…

Muito obrigado, Guillermo, e até o dia 15 no happy-hour!


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Conversas anteriores:

8 comentários:

  1. Linda narrativa de vida pessoal e profissional apresentada pelo excelente amigo de tantos anos Guilhermo Santandreu com o qual tive o prazer de trabalhar nos idos dos 70/80/90's. A memoria do Santandreu e fotográfica lembrando fatos que a muito se passaram.Adorei esta entrevista tanto pelas perguntas como pelas respostas, parabéns Santandreu e também ao Cão que Fuma.
    J.Mariscal

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  2. Adorei rever o Guilhermo, com quem convivemos tantos anos no mais absoluto respeito mútuo profissional. Gostei muito de ter lido o seu relato e de saber que ele está bem. Pena que ficou uma ponta de nostalgia e ao mesmo tempo muita pena pelo que aconteceu não só à Varig e seus funcionários em especial todos os de Frankfurt, os quais mantínhamos uma excelente relação, mas acima de tudo pelo que o Guilhermo significou para a empresa e em contrapartida o que a empresa significava para ele. É como se tivessem amputado o seu futuro como excelente profissional que era. Ás vezes acho que tudo não passou de um sonho ou que eu vivo num país de brincadeira.
    Parabéns Guilhermo pela sua entrevista, e parabéns por tudo que você representou para nós e para a empresa. Um grande abraço
    José Manuel - ex Chefe de Equipe B-747

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  3. Este profissional tinha um coração gigante para atender a todos com simpatia e eficiência... Por isso querido por todos...
    Valdemar Habitzreuter

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  4. Caro Guillermo,
    Quantos momentos! Sim, desde 1975, grande convívio. Você Guillermo, é o Espírito Varig, em carne e osso! Qualidade, Competência e Bem Servir. Vc e Sua equipe em FRA era excelente, tanto Carmen, Elio, as Meninas, o Azevedo, seriam tantos a citar, todos vocês, nos tratavam, não como Tripulantes, mas como VIPs, a serviço ou como GC. Tivemos grandes bases fora do Brasil, e FRA estava entre as melhores.

    Lembro quando uma época tentaram mudar o Hotel de pernoite, e defendestes e mantivestes o HILTON, um puro sangue 5 estrelas, conquistado pelo Cmte. C.Homrich em 75.
    Mainz é realmente sensacional, quantas Saudades.
    Guillermo, baita prazer saber notícias suas, este reencontro virtual é maravilhoso.
    Teria tanto a relembrar, espero que em um próximo Encontro Europeu, sei que estarás, sempre presente, possamos matar as saudades pessoalmente. Belíssima Entrevista, Parabéns Editor e a Vc, Obrigado!
    Um forte Abraço,
    Heitor Volkart

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  5. Santandreu, inesquecível amigo
    Quanta alegria ler esta tua bonita história; quando eu te reencontrei aqui em POA, na PUCRS, voltou-me à memória os anos 70/80/90 quando éramos recebidos em FRA com fidalguia e presteza; desempenho de primeiro nível.
    Guardei este lindo relato para revê-lo outras vezes.
    Obrigado Jim por este espaço; sou um profundo admirador destas entrevistas, como é bom ter notícias atualizadas dos colegas e amigos variguianos.
    Continue Jim com este trabalho tão importante.
    Um grande abraço Santandreu
    Um grande abraço
    Jim
    Vilmar Mota

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  6. Maravilhosa entrevista com o querido Santandreu ! Lá atrás, em 1994, participei de um encontro de "Code Sharing" em Frankfurt ( RG/LH) envolvendo os setores Reservas & Aeroportos. Uma proveitosa reunião para ambas empresas .
    Durante o tempo livre, Santandreu nos levou a conhecer o museu do vinho ( Rüdesrheim am Rhein , creio eu) . Fazia um frio de 08ºC...

    Bonita foto do colega Mariscal, junto ao Santandreu! Felizes tempos trabalhando juntos...
    Fui duas vezes a Alemanha , sendo uma com a família , em férias. Passeamos pelo Reno, fomos a Mainz , Heidelberg ( um espetáculo!). Guardo ótimas lembranças dessa magnífica pessoa , que é o Guillermo. Viver na Alemanha dever ser mesmo muito bom. Um país com muitas belezas naturais e um povo super acolhedor.
    Deixo meu grande abraço ao Santandreu , desejando que prospere a cada dia.

    Abração do amigo,

    Sidnei Oliveira

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  7. Que entrevista bem boa de se ler. Que equipe fantástica havia em FRA, Guillermo, Eloy, Azevedo, Andrade e todos os colegas do despacho e manutenção. Não tenho dúvidas, a melhor de todas onde a RG operava.
    Meu primeiro vôo para Frankfurt, peguei na reserva dia 29 de dezembro de 1974, ficávamos no Internacional de Frankfurt e com direito ao réveillon na Torre, no restaurante nas alturas. Ano seguinte, novamente, FRA na proa, e fomos convidados a pernoitar em Mainz, no Hilton, também com direito a festa de reveillon, impecável e nunca mais saímos daquela maravilha de lugar.
    Santandreu, um grande abraço, sempre fui teu fã, a maneira correta, cortês, polida mesmo, vinda de berço diplomático sempre me chamou a atenção.
    História profissional linda que você nos revela.
    Uma feliz e saudável aposentadoria é o que te desejo.
    Cmro. Vieira Dutra

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  8. Eu e minha filha tivemos a honra de conhece-lo no happy hour em 15 de junho em Lisboa e durante o almoço, no segundo encontro anual dos ex-trabalhadores da Varig em Sintra.
    Nercy Grabellos

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