quarta-feira, 7 de junho de 2017

[O cão tabagista conversou com…] Dorival Cruz: “Na economia o que vale é a razão e não a torcida ou emoção.”

Nome completo: Dorival Antonio Stuchi Cruz

Nome de guerra: Dorival Cruz (na aviação); Guaracy Junior (no Rádio)

Onde nasceu: São Bernardo do Campo, Estado de São Paulo.

Onde estudou:
O Primário na Escola Estadual "Santa Terezinha";
Técnico na ETE- Escola Técnica Industrial "Lauro Gomes" -  Desenhista Projetista;
Superior: Instituto Metodista de Ensino Superior SBCampo - Comércio Exterior.


Foi vizinho do sindicato de Lula da Silva? 😃
Sim, morava desde 1965 na Rua João Ramalho, situada a uma quadra do Sindicato dos Metalúrgicos... algumas vezes cruzei com ele por lá…

Quando começou a trabalhar?
Comecei a trabalhar em 1968, como office boy, na Escola Técnica Industrial "Lauro Gomes" até fevereiro de 1974.

Então fui trabalhar na TV Bandeirantes, como desenhista copista, e de lá, em setembro de 1974, entrei na Varig, como comissário de voo.

Me aposentei em 10 de maio de 2006, após 32 anos de voo. Nesse meio tempo, abrimos uma loja de estampa e bordados com amigos da Varig, também comissários… e ficamos por três anos juntos… (Armando Medeiros, Daniel Ricarde e Irina Kaufmann).

Aí fui ser agricultor, pois sou produtor rural e tenho uma propriedade no município de Tapiraí - SP, desde 1984.

Em 2013, tive a oportunidade de retornar ao Rádio, pois tenho o título de radialista desde 1987, com curso pelo SENAC, com DRT, como comunicador/apresentador do programa cultural de música sertaneja caipira "BRASIL VIOLA ATUAL - NO RANCHINHO DO GUARACY", que vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 5h às 7h da manhã.

O que é desenhista copista?
O arquiteto, ou engenheiro civil, faz o projeto, então o desenhista copista, ou detalhista, separa pequenos cortes, para detalhar.

O que o motivou a procurar a Varig?
Algum dia, lendo jornal (do meu chefe), nos classificados do Estadão, estava lá o anúncio, e eu, então com 20 anos em busca de algo interessante, fui ao aeroporto de Congonhas. Mas tinha um problema… o salário que ofereciam era menor do que eu ganhava como desenhista na época... agradeci, e quando ia me despedindo, a atendente acrescentou que com diárias e horas extras eu poderia ganhar mais do que o meu salário… que eu levasse a ficha de inscrição para casa, pensasse sobre o assunto e poderia devolver a qualquer hora... colocando lá uma pequena história de minha vida e, deu no que deu... 32 anos por lá...


Quais as cidades em que mais gostava de pernoitar?
Todas com seus encantos individuais... mas a Europa, pela sua cultura, sua história, culinária e vinhos… são as melhores em todos os sentidos.


E sobre baseamentos, você foi baseado?
Meu caro, não fui em mais baseamentos porque não pude. Foi a melhor parte da aviação... três vezes em Hong Kong, e umas quatro vezes em Los Angeles. E também na Nacional: mini baseamentos de quinze dias em Rio Branco no Acre, voando AVRO.

Estivemos juntos em um mini baseamento em Hong Kong, final de 1997… para mim era o primeiro, sempre lembro do conselho que você me deu em relação a Los Angeles, well 😉
Por que você gostava tanto de baseamentos? Não sentia saudades do país, da família…?
Jim, carrego comigo boas lembranças, inclusive a nossa no baseamento em HKG. Saudades é uma palavra que muitas vezes nos prende a fatos passados, que impede de vivermos o presente. Assim sempre tive consciência de que os momentos que vivemos são passageiros e assim devemos vivê-los... intensamente. Aproveitei todos os momentos da melhor maneira que minha maturidade permitia... assim como continuo a viver os meus momentos, sejam eles bons, e outros nem tanto… 

Los Angeles seria um lugar onde eu moraria.


Eu também.
Passou por algum incidente/acidente aeronáutico?
A minha jornada na aviação foi muito tranquila. O incidente mais grave pelo que passei foi um urubu que entrou na turbina de um B727, na decolagem do Rio para Recife.

Você se aposentou meses antes do fechamento…
Sim, assinei a minha rescisão no dia 10 de maio de 2006, fiz acordo, e estou até hoje com 36 promissórias... que acho vão ficar para as almas… kkkk

Acredita que ainda vá recebê-las?
Complicado, né? Se nem estamos recebendo o mínimo que nos é devido, imagina então?...
Mas pode ter a certeza de que alguém está usufruindo do que a mim é devido, pois como diz o ditado "o dinheiro não some, apenas muda de mãos", kkkkk.

Saudades da RG?
Sim, eu tenho, mas da instituição em si, dos meus colegas e de todos os bons momentos que lá passei, pois com os recursos de lá criei meus filhos e pude proporcionar viagens e muitos conhecimentos a eles... faria tudo outra vez e, de preferência, no mesmo lugar.

Quando você saiu, em maio de 2006, você imaginava o final conhecido?
Na economia o que vale é a razão e não a torcida ou emoção, portanto, os fatos que se sucederam levaram ao triste final, para nós e toda a nação brasileira que muito perdeu com a quebra da Varig, lamentável…


E depois de maio de 2016 você abraçou outra atividade?
Da aviação, em 2006, eu virei a página, e como todo recém-aposentado... existe um misto de euforia e indecisão... o que fazer agora??
Lembro bem que após o meu último pouso em Guarulhos, trafegando pela rodovia Hélio Smith, olhando os aviões parados, senti uma certa amargura… mas a vida segue...

Inicialmente, tentei iniciar a minha carreira no rádio, mas, a falta de experiência me levou a cair nas mãos de pessoas inescrupulosas, aí, saí fora a tempo, muito decepcionado.

A convite, participamos de uma sociedade em loja de comércio de roupas com três amigos (DANIEL RICARDE, IRINA KAUFMANN E ARMANDO MEDEIROS), ex-tripulantes. A nossa parceria durou três anos, bela experiência, mas os interesses, eram diversos, daí nos separamos, e eu fui morar no meu sítio, na cidade de Tapiraí... onde idealizei vários projetos... e por fim recebi novo convite para voltar para a rádio Brasil Atual - 98,9 FM, em maio de 2013 e lá estamos até hoje com um programa cultural, de moda raiz sertaneja caipira, de 2ª a 6ª das 5 às 7 da manhã.


Que projetos foram esses, em Tapiraí?
Em meu sítio: criar galinhas, fabricar móveis rústicos ecológicos e plantação de vegetais…

Comercialmente?
Sim, no sítio, comercialmente... mas o apelo do rádio, foi mais forte, pois assim como a aviação... quem experimenta, gosta e vicia…

Então, há quatro anos que você irradia um programa sobre música ‘sertaneja caipira’.
‘Sertaneja’ e ‘Caipira’ é a mesma coisa?
O sertanejo vive em todo o sertão do Brasil… nos rincões... longe da civilização. Pode ser o sertanejo nordestino, aquele que lida com gado, enfrenta os rigores da seca, que habita o sertão; rústico, agreste, rude; indivíduo sertanejo, e que as músicas ficaram conhecidas nas vozes de alguns expoentes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, entre outros.

Já o sertanejo caipira, compreende mais a parte do sudeste e centro-oeste do Brasil como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, e a expressão "caipira", vem do Tupi-Guarani: "caaipura = de dentro do mato". Nome que os índios do interior de São Paulo deram aos colonizadores. Atualmente é designação genérica dada aos habitantes de regiões do interior do Sudeste e Centro-Oeste. Pessoa do interior, da roça. Inocente, tímido, segundo definição do Aurélio, sendo que um dos ícones da moda caipira como violeiro é Tião Carreiro, conhecido como o "PELÉ DA VIOLA", e muitos e muitos outros, além dos compositores que têm obras imensas como Zé Fortuna, com mais de 2 000 letras, além de peças teatrais…


E os Violeiros também têm o seu santo padroeiro que é SÃO GONÇALO DO AMARANTE, um beato Português...


E o Milionário & Zé Rico, Tonico e Tinoco… Waldick Soriano, Cláudia Barroso, Carmen Silva, Jane & Herondy…?


No segmento da música os cantores adotam estilos, é como se fossem tribos, cada um se enquadra procurando a sua, e outros migram de seus estilos procurando novos caminhos, assim como Sérgio Reis, que teve início na Jovem Guarda e seu maior sucesso é "coração de papel", ou então Chrystian da dupla Chrystian e Ralf, que iniciou a sua carreira cantando em inglês. E hoje são considerados como uma das duplas mais afinadas do mundo sertanejo.

Então, dos cantores citados, Milionário e José Rico, Tonico e Tinoco, são considerados sertanejos, algumas canções da Carmem Silva (Meu velho pai), mas Waldick Soriano e os outros citados, fazem parte do grupo considerado música "brega", e fazem sucesso, cantando músicas de "sofrência" e amargura. E Claudia Barroso, faz parte daquele time de cantores do rádio inesquecíveis que fizeram muito sucesso desde a década de 40 no rádio, como "Francisco Alves", Carmen Miranda, Lamartine Babo e outros…

Tem tanto material sonoro caipira sertanejo para fazer um programa de duas horas, cinco dias por semana?
Muito, talvez seja o material mais farto para estudo e reprodução na música brasileira. Vou enviar a você um dos trabalhos que fiz sobre o compositor Lourival dos Santos, para que tenha uma pequena ideia, depois, se desejar, posso enviar outros...

Valeu, obrigado.
E o que é esse tal de ‘sertanejo universitário’? É cantado por estudantes universitários?
Este movimento (universitário) nasceu em função das apresentações de duplas novas e jovens cantando música sertaneja, em bares próximos às Universidades, em Goiânia, daí o título...

Não tenho nada contra, pois todos merecem um lugar ao sol, mas de sertanejo só têm o nome, e suas canções são apelativas e repetitivas, no sentido de que só fazem apelo à bebida, à pegação, e o seu ritmo e batida são os mesmos para todas sempre (com exceções, como Victor e Léo, por exemplo, que me vem na memória... parecendo que na música só existem duas ou três notas musicais…

Muito bem.
E a nação Brasil, como está? Mais para ‘sertanejo’, ‘brega’ ou… ‘heavy metal’?
Acho que está mais para "PUNK", pois a cada hora sai uma notícia que parece ser o fundo do poço... mas ainda não é... Mas o Brasil é maior do que tudo que aí se apresenta. Quem sabe, seja o momento de depuração… e acordarmos para a realidade e não deixarmos a administração na mão de espertalhões...

Quando é que você vem a Portugal?
Meu caro Jim, muitas saudades de Portugal... terra abençoada… povo gentil... e hospitaleiro…
Eu digo sempre, brincando, que "passeei" 32 anos de minha vida, e agora estou "trabalhando". Mas, de repente a saudade é maior e me bandeio por aí... kkk

Europa ou Estados Unidos?
Muito mais Europa.

A pergunta que não foi feita?
Sempre tem algo mais a dizer, mas agradeço a sua solicitação para eu falar sobre mim... muitos são os fatos que vivemos e levamos como lembranças em nossa vida. Talvez a pergunta seria "Se pudesse voltar no tempo modificaria alguma coisa em sua vida?”


Eu responderia que não, pois tudo o que fiz foi consciente.  E fiz da forma que a minha maturidade permitia naquele momento, e agradecido por ter os pais que me criaram, me dando um teto e carinho, as pessoas que amo ao meu lado, por nunca ter passado fome ou frio, enfim, sou um privilegiado, considerando o atual contexto da humanidade.

Dorival, no próximo dia 17 de junho, haverá um encontro de ex-Trabalhadores da Varig, Familiares e Amigos… qual a sua mensagem para esses ‘encontrantes’?
Os encontros que realizamos me fazem sentir muito feliz, por eu ter encontrado em minha vida seres humanos fantásticos, com os quais eu pude conviver e desfrutar por 32 anos de minha vida.

A todos eu desejo que esse momento de confraternização seja um marco de felicidade, de harmonia, e saber que em cada um de nós existem capítulos escritos para a grande enciclopédia da vida.
Saúde a todos!!


Muito obrigado, Dorival.

Fotos: Arquivo pessoal de Dorival 

Conversas anteriores:

5 comentários:

  1. Caro Dorival, vejo que estás bem de saúde, isto é o que importa.
    Na vida fazemos escolhas, opções, e assumimos, ou temos que assumi-las, a sua foi ficar ligado à "Chefia", à qual puxastes bastante o saco.
    Eu recebi 39 promissórias, pois tinha 3 décimos-terceiros, e ainda me Aposentei pelo Aerus, e comprei um belíssimo Apto em Recife. Todos sabíamos qual final seria, pois o Lula queria a TAM. Bola para frente!
    Sempre são boas as entrevistas, caro Editor.
    Abraços,
    Heitor Volkart

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  2. Lembrando, reconhecendo mas esquecido há,
    Beleza Dorival, mas sem crachá,
    Não dá.
    A velhice nos faz esquecer por se má.
    Abraços

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  3. Muito boa conversa.
    AJS

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  4. Boa sorte e felicidades, Dorival.
    Nada como relembrar os bons tempos na saudosa Varig.
    Abração.

    Sidnei Oliveira

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  5. Não me cansarei de agradecer àqueles e àquelas que acederam serem 'entrevistadas' pela revista. Não só pela excelência das suas respostas e pela consequente promoção da revista, mas também, muito importante, não sei como dizer, pelo destemor em concordar conversar conosco.
    Porque, gente querida, de dez convidados, NOVE recusam!

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