quarta-feira, 30 de maio de 2018

[Para que servem as borboletas?] A fragilidade e a fortaleza do ser humano...

Valdemar Habitzreuter

Julgamo-nos superiores a tudo. Através de nossa racionalidade tornamo-nos capazes de controlar e dominar tudo o que nos cerca. Possuímos a vida no mais alto grau se compararmo-nos às plantas e animais irracionais. Mas, podemos admitir, em absoluto, que o ser humano é o rei forte deste mundo natural onde ele se insere?...  Sim e não.

Vejamos:  - As coisas inorgânicas que nos cercam não têm vida, mas percebemos que são duráveis, não sofrem aquela decrepitude acelerada dos seres vivos, são como que eternas. Além do mais não necessitam de nutrição. Por exemplo, um objeto inorgânico de grande desejo (as mulheres que o digam) é o diamante, considerado, praticamente, indestrutível, face a sua dureza e inalterabilidade. Imponentes montanhas rochosas, que ornamentam nosso planeta, nos sensibilizam espiritualmente. Há povos - habitando nos sopés dessas montanhas – que as têm como deuses pela sua imponência majestosa e duradoura. Então, eis a questão: as coisas inorgânicas (sem órgãos vitais) estão aí resistindo ao tempo, desprovidas de qualquer sensibilidade como o ser vivente. No entanto, colocamos o mundo inorgânico na escala mais baixa da existência, a mais insignificante e fraca.

Vejamos mais:  - O mundo vegetal, o mundo das plantas, já se diferencia do mundo inorgânico. Há vida numa planta. Se há vida nela, possui algum grau de sensibilidade, alguma afetividade que a faça ter vitalidade. É como se possuísse um grau mínimo de inteligência e psiquismo na procura da nutrição que a torna viva.  Mas, donde tira ela sua vitalidade? Justamente do mundo inorgânico. Embora estática, lança suas raízes nas profundezas do solo onde encontra o alimento mineral para poder viver. Na escala da existência tem sua posição entre o mundo inorgânico e o mundo animal.

Eis, pois, o mundo animal: - O ser animal é aquele com poder de movimentação. Há nele mais do que a simples afetividade da planta que faz com que ela consiga sua nutrição e viceje, há nele um instinto que o impele a movimentar-se e encontrar aquilo que mais lhe convém para sua subsistência. O instinto é o grande propulsor para que o animal não fique inerte e morra de inanição. Nos animais irracionais o instinto é, portanto, o impulso com o qual vai atrás de sua alimentação. E esse instinto também está presente no ser animal humano, embora mais fraco, uma vez que o homem, com a aquisição da inteligência, serve-se dessa para planejar e facilitar, através de engenharias técnicas, a conquista de seu alimento. É como se a inteligência superasse o puro instinto animal e se valesse da perspicácia racional de como conseguir com menos esforço sua alimentação.

Está aí, pois, o mundo humano: - O ser humano distingue-se do mundo inorgânico e do animal irracional pela sua razão e inteligência. Inteligência essa que, diz-se, o qualifica supostamente como o ser mais forte e o coloca no topo da pirâmide da existência. Mas... Mas, deve-se considerar aí o aspecto contingente da existência do ser humano racional ou inteligente que, justamente, configura-se numa fragilidade. Esquece-se ele que sua racionalidade não caiu prontamente do céu. O processo evolutivo da vida deu-se, originariamente, no mundo inorgânico, propiciando, ao longo da História Evolutiva, o aparecimento de um ser vivente racional, dando origem assim à espécie humana. Sua fragilidade repousa justamente aí: sem a sustentação do mundo inorgânico, com a oportunidade de propiciar o ambiente e os elementos necessários para que a vida surgisse, não haveria um ser dessa magnitude chamado de ser humano. Ele pode gabar-se de ser o ente mais forte que se coloca no topo da evolução, mas é por força e apoio daquilo que o antecede no processo evolutivo. Mesmo já com sua inteligência adquirida ele necessita do mundo inorgânico como apoio para seus projetos de vida e nela subsistir. A fragilidade desse ser racional e inteligente é tamanha que se não houvesse em seu bojo o mundo inorgânico, ele simplesmente não existiria. Daí o problema: o forte (o ser humano inteligente) pode muito bem ser o mais fraco. Como diz Nikolai Hartmann: “As categorias ontológicas e valorativas superiores são em si as mais fracas”.

Mas por outro lado, o homem, sabendo de sua fragilidade como ser racional, perpassado por pulsões de todo tipo na lide com a vida, pode galgar a um patamar superior, ao patamar do espírito onde reside sua fortaleza. Espírito aqui não quer dizer uma substância como uma alma cartesiana timoneira habitando o corpo, necessitando de ser enaltecida. Não, espírito denota algo inerente à vida do homem, no sentido de uma vontade de idear a realidade, isto é, de desrealizar o mundo concreto que prende o homem aos valores materiais. Revestir-se do poder do espírito é saber administrar a tensão existente entre o real e o ideal, priorizando a apreensão das essências das coisas que habilita o ser humano a sublimar as pulsões incessantes de inquietação, e experienciar o espírito apaziguante dormente no homem para, justamente, saber viver o real com pleno discernimento, independente de quaisquer valores a direcionar sua vida fática.
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 29-5-2018

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Um comentário:

  1. Beleza Habitz.
    A realidade se difere do ideal apenas porque o idealismo é composto por Imagens, a realidade pro sentimentos, aquele dos 5 sentidos.

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