quinta-feira, 5 de julho de 2018

Dia dos Mortos

Altar tradicional do Dia dos Mortos em Milpa Alta, México DF. Foto: Eneas de Troya
Ana Paula Henkel

Moro numa cidade americana que já pertenceu ao México. A região que inclui a “cidade dos anjos”, fundada pelos colonizadores espanhóis em 1781, só foi incorporada aos EUA em 1848. Temos aqui laços históricos, culturais, sociais e políticos com os mexicanos e é triste ver o passo que estão seguindo ao optarem por um presidente de inspiração chavista depois de quase duas décadas de desastrosas experiências semelhantes em quase todo continente.

A derrota para o Brasil na Copa do Mundo ontem vai passar, mas López Obrador fica. Por mais otimistas que fossem, os mexicanos sabem da própria “maldição do quinto jogo”, repetida pela sexta vez seguida na Rússia. O México nunca levantou uma taça de campeão do mundo e com certeza saberá superar a decepção de segunda-feira, mas o caminho chavista que saiu das urnas no domingo promete agravar ainda mais os problemas de um país já dominado por cartéis de drogas, violência e miséria.

Tudo isso acontece num momento em que os EUA resolveram, depois de oito anos de importação em massa de eleitores para o Partido Democrata, levar a sério suas fronteiras. Continuamos tendo aqui o país mais atrativo e receptivo para imigrantes do mundo, sou testemunha viva disso, mas o plano de mudança radical do perfil demográfico daqui, patrocinado por corporações ávidas por mão-de-obra barata, celebridades de miolo mole e políticos oportunistas, finalmente parou. A América voltou a ter um governo que, vejam vocês, pensa na América, o que anda chocando o mundo das redações progressistas.

Um dos fetiches que mais me incomoda na política é o mantra da tal “renovação”, como se novos nomes fossem necessariamente melhores. Precisamos de novas ideias, independentemente da idade do portador, até porque o que não falta é jovem com bandeiras de um certo velho barbudo alemão que nasceu há duzentos anos. O México precisa desesperadamente de renovação política, mas não qualquer uma. Requentar o chavismo num país com tantos problemas, tão grande e complexo, é uma irresponsabilidade que pode custar muito mais caro que o tal muro.

Imigração é um assunto que merece um tratamento mais sério do que a gritaria dos últimos tempos, basicamente de gente mal informada ou mal-intencionada. Um país que não cuida das suas fronteiras, que não tem fronteiras, por definição não é um país. E quanto mais atrativo o país for, mais cuidado tem que ter para não cometer suicídio. Imigração sem assimilação é invasão, frase que você já deve ter ouvido por aí e sequer deveria ser polêmica.

López Obrador não esconde a que veio: fim das privatizações, “recuperação” da PEMEX, a Petrobras de lá, perdão para traficantes e todo pacote assistencialista que você pode imaginar. Estatismo, demagogia e assistencialismo, aquelas idéias tão populares em redações e mansões mas tão danosas para população. Obrador é um Ciro Gomes com anabolizantes, um Guilherme Boulos com mandato, um Lula livre.

Garanto que o resultado dessa eleição deu um frio na espinha de qualquer americano que esteja prestando atenção nos últimos acontecimentos e não na histeria de grande parte do atual jornalismo, ou assessoria de imprensa do Partido Democrata, como preferir. Não tenho dúvida que mesmo as viúvas de Obama, personagem mais que comum aqui na Califórnia, estão secretamente agradecendo a Deus por algumas medidas que a Casa Branca anda tomando. Obrador é um cabo eleitoral involuntário de Trump e o Partido Democrata sabe disso.

Desejo sinceramente que os mexicanos não sofram nas mãos do chavista que resolveram chamar de seu, mas as chances de desastre não são pequenas. Como não sou candidata a santa, em minhas orações não vou incluir Miguel Layún, o lateral que pisou em Neymar fora de campo, ou o deselegante técnico Juan Carlos Osório, que os deuses do futebol sabiamente mandaram de volta para casa mais cedo. Derrota e atitudes vergonhosas em campo, mas a goleada contra o México virá desse olé das urnas.

O Dia dos Mortos, a famosa festa nacional mexicana, faz uma linda homenagem aos antepassados, mas o que se viu no domingo no México foi uma comemoração de ideias que já deveriam estar mortas, enterradas e exorcizadas. Em vez de acender velas para os entes queridos que partiram, os mexicanos resolveram evocar o fantasma de Hugo Chávez. O que pode dar errado? Infelizmente, nós estamos cansados de saber.
Título e Texto: Ana Paula Henkel, Estado de S. Paulo, 4-7-2018

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