domingo, 31 de março de 2019

[Pensando alto] Reflexões sobre o período militar – parte I (O ambiente)

Pedro Frederico Caldas

Numa ditadura, não daria para fazer uma passeata pela democracia. Numa democracia, você pode fazer uma passeata pedindo a ditadura.
Mario Sergio Cortella

Aqueles que não lembram do passado estão condenados a repeti-lo.
George Santayana


Como os fatos que me proponho a analisar demandam uma explicação um tanto extensa, acho melhor escrever e publicar por partes, semanalmente, caso contrário ficará muita coisa para ser lida de uma só vez. Então, ficamos assim combinados: vou liberar durante as próximas semanas, espero que não muitas, aquilo que for escrevendo em apertada síntese.

O período político de 1964 a 1984, por uns chamado ditadura militar, por outros, governo autoritário, e, por outros mais, ditadura branda, tem recebido aprovação, desaprovação, distanciamento crítico, críticas sinceras, críticas insinceras, apupos e aplausos.

Dos que apoiam, há aqueles que só enxergam virtudes e os que acham que os aspectos virtuosos excedem os aspectos negativos; os contrários acham que só houve coisa ruim ou, minoritariamente, consideram o balanço negativo ao ponderar os prós e os contras.

De todas as tendências, as piores são as sustentadas por fanáticos e mentirosos.

Tentarei fazer uma análise pessoal, uma análise do conjunto de informações de que disponho por ter lido, ouvido e vivido a crônica dos acontecimentos históricos daquele período. Sempre refleti muito sobre o assunto, sem, contudo, ter tido a intenção de me manifestar publicamente, salvo em conversas com amigos e circunstantes, quando o tema vem à baila, ocasiões em que sempre procuro repelir as tentativas solertes de se reescrever a história ou sacar conclusões contra a evidência dos fatos.

Como preliminar, quero pontificar que sempre estive do lado oposto ao regime militar, sempre votei na oposição, cheguei a ser vice-presidente do MDB em Itabuna; vice porque não quis ser presidente, por falta absoluta de tempo e porque nunca me alinhei completamente com qualquer partido, seja qual fosse, para, pelo distanciamento, poder manter meu olhar crítico. Essa posição, inicialmente contrária de forma radical, foi-se ajustando ao longo do período, e se manteve pendular, no ritmo em que se sucediam as medidas tomadas pelos diferentes governos militares.

Ditas essas palavras, começarei a análise dos fatos com a sinceridade que costumo pautar meus pontos de vista e minha visão crítica de mundo. Posso errar, mas o erro não decorrerá de insinceridade ou de falta de fidelidade aos fatos, mesmo por que os fatos estão postos e devidamente registrados.

Minhas palavras dirigem-se preferencialmente aos jovens, que os velhos ou melhoraram ao longo do tempo como os bons vinhos ou se comprazem na radicalização do erro.

Para entender fatos históricos há de se ter em mente um quadro amplo da paisagem histórica que moldura e interage com tais fatos. Como sempre temo não ser claro, gosto de exemplificar para ser melhor entendido. Vamos escolher aleatoriamente um fato da história do Brasil. Vamos pegar a expulsão definitiva dos holandeses, ocorrida ao final do segundo quartel do Século XVII, mais precisamente em l646. Parece ter sido um fato que se esgotou em si mesmo. Não parece que a saída dos holandeses não teve maior consequência que a saída em si mesmo? Ledo engano, amigos. Ao saírem do Brasil os holandeses levaram para as Antilhas toda a tecnologia do plantio e refino da cana de açúcar. Como Amsterdã era o centro financeiro do mundo, uma espécie de Nova Iorque da época, levaram junto os abundantes capitais e o controle das rotas de distribuição do açúcar na Europa, único mercado para tal especiaria. Assim, o açúcar antilhano substituiu o brasileiro, levando nosso país à mais profunda depressão econômica de sua história, que se projetou por mais de cem anos de apatia econômico-financeira, enquanto os Estados Unidos começavam a abastecer de comida e outros produtos as Antilhas, cujas terras estavam em sua quase totalidade voltadas para o cultivo da cana de açúcar. Fácil, portanto concluir que um mesmo fato histórico, a saída dos holandeses do Brasil, que levara o Brasil colonial à ruína, dava início ao impulso da economia dos Estados Unidos, também então colônia.

Essa ligeira digressão foi necessária para demonstrar como fatos históricos aparentemente autônomos se imbricam para compor um cenário de consequências mais vastas e mais profundas que isoladamente parecem não ter.
               
A meu ver, é necessário que se coloquem os eventos iniciados em 1964 na paisagem mundial de então. Se assim é, então vamos lá.

O mundo de então era bi polarizado; de um lado, a União Soviética e seus satélites, tentando estender regimes comunistas pelo mundo, do outro, Estados Unidos e seus aliados, principalmente os europeus, tentando conter esse avanço, a um custo muito alto, na medida que tinham de mobilizar exércitos de manutenção caríssima para conter simples guerrilheiros, verdadeira guerra assimétrica em que um colosso militar de poder de fogo e de destruição gigantescos não tem alvos específicos para destruir, eis que o inimigo está diluído e infiltrado. Os próprios Estados Unidos, que já tinham experimentado esse revés na Coreia, a exemplo do que acontecera com os franceses na Indochina, já tinham o inimigo comunista instalado em seu próprio quintal, a Cuba fidelista que impusera uma derrota humilhante aos invasores da Baía dos Porcos apoiados pela CIA.

Havia uma terceira posição, a dos chamados países não-alinhados, na verdade alinhadíssimos com os comunistas ou praticando política pendular para levar vantagem. Aí militavam a Indonésia, o Egito, a Índia e vários outros, compondo aquilo que o pensador e historiador britânico Paul Johnson denominou a Geração Bandung, em sua preciosa obra Tempos Modernos, para mim a melhor história do século vinte, cuja leitura recomendo fortemente. Em Bandung, capital da Indonésia, dominada por Sukarno, ocorreu a primeira reunião dos ditos “não alinhados”.
               
A queda de um país nas garras do comunismo poderia gerar a queda de outros países periféricos, como ocorrera na península coreana e no Vietnam. Face a tal possibilidade, os Estados Unidos e seus aliados concentrados na Otan desenvolveram a Teoria do Efeito Dominó, ou seja, evitar a qualquer custo a queda de um país, evento que poderia implicar a queda de outros mais. Para isso, qualquer aliado seria bem-vindo, mesmo que, contrariamente aos postulados democráticos do chamado Mundo Livre, significasse conviver com ou cortejar um regime de exceção.

É justamente nesse quadro que se insere a luta para a preservação dos países da América Latina como aliados, especialmente de um país com as dimensões e a importância do Brasil. Isso justifica a tolerância e a aceitação pelos Estados Unidos e aliados dos diversos regimes de exceção implantados na região como tentativa de deter o avanço do comunismo. Dentro daquilo que os pensadores de geoestratégia chamam de realpolitik, os regimes de exceção não seriam hostilizados se fosse o preço a ser pago para a contenção do avanço do totalitarismo comunista.

A propaganda da superioridade das maravilhas do comunismo esbravejada, dia e noite, pela Rádio de Moscou, em revistas e livros, contaminava as escolas, boa parte do professorado, a esquerda acadêmica, os sindicatos e, acima de tudo, os jovens; os planos quinquenais lançados pelos países comunistas vendiam a ideia que ganhariam a batalha da produção e que o planejamento econômico suplantava as forças do livre mercado; os partidos comunistas se agigantavam em países importantes como França e Itália e o estatismo trabalhista engolfava a Inglaterra; a União Soviética assombrava o mundo ao lançar a primeira nave e o primeiro astronauta ao espaço sideral. Tudo isso dava uma certeza à esquerda que os Estados Unidos, atolados no Vietnam, seriam sobrepujados. Tudo era uma questão de tempo.

Esse é o quadro mundial em que se insere a tomada do poder pelos militares, no Brasil, em 1964
Negar tal moldura histórica não passa de desfaçatez, sonsidão, ou pura estratégia de reescrever a história para adequá-la ao discurso solerte das esquerdas, cujo objetivo é dizer aos jovens de hoje que eles, os jovens de ontem, pegaram em armas com o puro, único e altruísta propósito de combater a ditadura para reinstalar no Brasil a democracia que, no fundo, abominavam. Mas, não nos precipitemos, o momento da análise dos motivos que levaram uma parte da esquerda à luta armada chegará.
               
Dito isto, na próxima semana continuarei essa saga pela análise da situação política reinante no Brasil, a resistência democrática ao avanço do comunismo, a intervenção militar com o mais amplo apoio da sociedade e os fatos que levaram essa intervenção, que se anunciava cirúrgica e breve, a se transformar em uma ditadura, embora limitada ao campo da política e da difusão de ideias, pois, contrariamente ao que ocorre com as ditaduras totalitárias, a economia, os costumes, o culto religioso, o pátrio poder e as instituições civis foram deixadas como eram, em regime de plena ou quase plena liberdade.
Até a próxima sequência e um bom domingo para todos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 7-9-2017             

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