terça-feira, 26 de março de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Hoje em dia se “encaixa”

Aparecido Raimundo de Souza

GORGÚNDIO BITOLA LARGA recebeu um baita de um envelope postado com AR trazendo seu novo manual de endereços com todas as especialidades médicas, bem como um cartão magnético de identificação do plano de saúde que vinha pagando há mais de dez anos. Como estava de férias e sem nada para fazer, resolveu ligar para ver se a coisa funcionava de verdade, como anunciava aquele amontoado de papéis, ou tudo não passava de propaganda enganosa para engabelar trouxas.

Pegou o livreto azul, de capa dura. Quase uma centena de folhas coloridas. Abriu ao acaso. Por coincidência, caiu num geriatra que conhecia de longa data, desde os tempos em que levava sua falecida mãe para se consultar com ele. Passou a mão no telefone e ligou para o número indicado.  Uma moça de voz adocicada atendeu prontamente:
- Clínica ASSUMIAMEG, bom dia.
- Bom dia jovem. Gostaria de marcar uma consulta com o doutor Koffer.
- Um minuto, por favor.

Depois do que pareceu uma eternidade a atendente retornou:
- Desculpe pela demora.
- Em absoluto.
- O senhor é cliente dele?
- Não.
- Ah, sim. Veja bem, senhor. Só dispomos de horários vagos para o ano que vem.
- Nossa!
- Infelizmente. Deseja mais alguma coisa, senhor?

Enquanto permaneceu com o telefone no ouvido, Gorgúndio Bitola Larga observou que logo abaixo do doutor Koffer outro médico da mesma especialidade atendia naquele endereço. Como se propusera a testar a qualidade dos serviços seguiu adiante, resoluto, disposto a levar a coisa a ferro e a fogo:
- E para o doutor Hãhnchen haveria possibilidade?
- Um instante por obséquio.

Nesse “um instante por obséquio” se foram mais cinco minutos cravados.
- Senhor, também está lotado. Só para começo de janeiro.
- Que loucura! Estamos no final de novembro!...
- Sinto muito, senhor.

Gorgúndio Bitola Larga desligou e contatou outros credenciados. Mesmos problemas. Idênticas conversas. Não havia vaga. Quem sabe mudando de área e de esculápio, obtivesse mais sorte e fosse acolhido com sucesso. Optou por um tal de doutor Shekinah, cardiologista. Por incrível que pareça a conversa da secretária da criatura foi literalmente idêntica a das recepcionistas anteriores:

- Não temos disponibilidade para o momento cavalheiro.
- Mas é urgente, dona. Meu coração, coitado, só falta saltar pela boca.
- Desculpe. Sinto muito mesmo.
- Como é seu nome?
- Simone.
- OK, Simone. Desculpe a amolação.       

Gorgúndio Bitola Larga teve uma ideia que a princípio lhe pareceu brilhante. Aparecer pessoalmente no local. Anotou o endereço da associada, pegou a moto e foi à luta. O consultório do doutor Shekinah estava sediado numa dessas mansões impecáveis, de dois andares, com jardins bem cuidados, piscina, churrasqueira e uma porção de carros importados na garagem, sem falar no bairro nobre, com uma pá de seguranças rondando para lá e para cá, como se fossem cães de guarda.
Entrou recepção à dentro e mandou bala:
- Uma ficha para o doutor Shekinah... por gentileza.

A jovem encantadora sobretudada num avental azul jogava ao celular. Levou um susto repentino, com aquela intromissão. Sem consultar a agenda foi ríspida e direta com Gorgúndio:
- Senhor, para hoje não temos mais nenhum horário disponível.
- E para amanhã?
- Igualmente impossível.
- Meu caso é urgente. Diria até de vida ou morte...
- Nem assim posso atendê-lo.
- Como é seu nome?
- Simone, senhor.

Gorgúndio Bitola Larga continuou questionando:
- Simone, minha linda não sou cego. A recepção está vazia...
- Senhor, os pacientes estão vindo para cá. Todos com hora marcada. Seguimos uma ordem padronizada. Dentro de dois minutos entrará uma senhora por aquela porta que o senhor deixou aberta.
- Desculpe. Uma desistência, ao menos?
- Até agora todas confirmadas.
- Ninguém que resida muito longe e possa perder o horário?
- Para hoje nenhuma chance mesmo, acredite.

Gorgúndio Bitola Larga jogou, então, a derradeira carta que dispunha na manga. Encarou a beldade da recepção bem dentro dos olhos e arrematou enfático, e muito sério:
- Já que é assim e não tem jeito, fazer o quê? Vou aproveitar que estou na chuva e me molhar mais um pouco. Procurarei outro profissional. Quando vinha para cá, descobri que tem uma concorrente de vocês duas quadras abaixo. Vou até lá, pago a consulta à vista e fim de papo. Como está, deve ter aos montes, outras iguais por ai a fora. Fico muito agradecido, senhorita Simone. Até mais ver...

Estava quase no portão quando Simone, a jovem encantadora de avental azul-marinho (agora sem o telefone celular) o alcançou, se desmanchando em mesuras e solicitudes que dava até para desconfiar:
- Senhor...!
- Pois não?
- Veja que coincidência. O senhor está com sorte. Uma paciente acabou de ligar. Houve um imprevisto com o carro dela...
- E o que eu tenho a ver com isso?
- Acho que vai dar para lhe “encaixar”.
- “Encaixar?”.
- Sim.
- O que é “encaixar”, Simone?
- Em outras palavras. Falei com o meu patrão. O doutor Shekinah vai lhe atender agora. 
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, do Rio de Janeiro. 26-3-2019

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