sexta-feira, 6 de setembro de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Agulha no palheiro

Aparecido Raimundo de Souza

PARA SE ACHAR UMA AGULHA no palheiro, primeiro se faz necessário ter um palheiro ao alcance dos olhos e das mãos, ou vice-versa. Quanto a isso, ponto pacífico. Seja o palheiro no quintal ou colado a uma casa de campo. Não existe palheiro em cidades, tampouco em apartamentos.

Num outro momento, alguém carece ter perdido uma agulha nesse palheiro. Palheiro que se preza tem que ter uma agulha em suas entranhas para ser procurada, ou não é palheiro para se levar a sério. Outro detalhe importantíssimo.

Alguém do seu relacionamento familiar (ou não) tem a obrigação quase moral de, ainda que por acaso, desprezar uma agulha no palheiro. Logicamente a esse palheiro, juntamente com quem a desamparou, você precisará ter livre ingresso, ou em contrário, ficará difícil, ou quase impossível achar a menosprezada agulha.

Não importa quem a deixou aos reveses da sorte, vítima de vil e malfadado esquecimento. Se o palheiro estiver alinhado com os seus movimentos de olhos e mãos, mãos e olhos, certamente a agulha será encontrada. Ainda que demore um pouco. Uma particularidade que não deverá faltar no rol das “importâncias”.

O tempo. Dependendo do tamanho do palheiro, é provável que se leve uma quadra grandiosa demais. Estou tocando nesse assunto, porque aconteceu na minha família, ou mais precisamente com a minha tia Nair, irmã de meu pai. Na ânsia dos afazeres diários, a desditosa se descurou da vigilância de uma agulha pequena, presente da mãe dela, falecida.

Nesse caso, não era pela agulha em si. A tia possuía bem umas vinte, ou mais, de tamanhos diferentes. Poderia ter comprado outra idêntica à desaparecida. Mas não! A coisa se prendia ao carinho que o pequeno objeto representava. Tia Nair nutria um amor incondicional por essa agulha minúscula.

Um objeto insignificante, que ela usava praticamente para costurar as meias de meu tio Dimitri Lambru, pregar os botões nas minhas calças e nas do Júnior (nós dois beirávamos os vinte e dois, e, apesar dessa idade, fazíamos estripulias do arco da velha) refazer um rasguinho ou outro nas blusas ou nas saias de minhas primas Mariza, de dezesseis anos e Yarodara, de dezoito.


A agulha (com uma manchinha vermelha feita propositalmente no meio), para sobressair das demais, vivia sempre em seu quarto, sobre um criado-mudo que dividia espaço com outra mesinha de cabeceira igualzinha em tamanho e cor. Esse objeto, depois de usado descansava espetado junto com as companheiras, numa baratinha de feltro verde.

Ai da criatura que ousasse tirá-la do lugar costumeiro. A tia virava bicho e se descobrisse o autor, certamente lhe aplicaria umas doloridas tapas no meio das pernas. O apartamento de tia Nair, na Ladeira dos Tabajaras, 196 Edifício Neves da Rocha, coração de Copacabana, se constituía enorme, espaçoso, com várias dependências. Seis quartos e, pelo menos três banheiros, sem contar os anexos destinados à secretária doméstica.

O palheiro não ficava nesse local. Imponente, e altivo, se erguia quase solitário nos fundos de uma propriedade que o tio Dimitri adquirira em Guia de Pacobaíba, em Mauá, ou Praia de Mauá, subdistrito de Magé para onde seguíamos impreterivelmente todos os finais de semana, chovesse ou fizesse sol.

Essa “quase chácara”, um terreno de cinco mil metros quadrados fora todo murado, de um extremo ao outro.  A velha casa de alvenaria a dois ou três passos do mar, apesar de muita coisa para ser feita, possuía dois andares, e no último, um belo terraço com vistas para a Ilha do Governador.

Logo ao lado da edificação principal, num barracão de madeira se guardavam as bugigangas fora de uso. Colado a esse tugúrio, o palheiro. Quando íamos para lá, tia Nair levava a baratinha porta-agulheiro, entre os cacarecos, caso fosse preciso remendar alguma peça que carecesse de reparo urgente.

Verdade seja dita. Sempre havia um filho de Deus em face das brincadeiras, quintal a fora, que acabava rasgando os cus das bermudas, fosse perdendo dois ou três botões das camisas, fosse emperrando os zíperes das saias das meninas. Numa dessas viagens, a agulha querida e amada se perdeu no palheiro. A tia em vista disso, fechou o sorriso do rosto, desajeitou os cabelos, subiu nas tamancas.

Literalmente virou bicho. Quase de sete cabeças. Faltou pouco. Zetinha, a empregada, jurou de pés juntos que se lembrara de tê-la visto ajeitando uma cueca do Junior sentada numa poltrona caindo aos pedaços dentro do palheiro, enquanto tomava café e comia um pedaço de polenta que a serviçal lhe fora levar. Furiosa, soltando fogo pelas ventas, Tia Nair convocou todo mundo para ajudar na procura pela minúscula pecinha e prometeu uma pequena recompensa em dinheiro, para quem desse a sorte de encontrar a infeliz.

A farra do vai daqui pra lá, vem de lá pra cá, teve início, mais pelo prêmio que viria pelo achado (comer milho cozido e tomar refrigerante “Tubaína” na velha estação de trem desativada) que pela vontade de voltar a ver a tia parar de soltar seus impropérios a quem fizesse corpo mole e fingisse estar procurando a droga da agulha. Nessas horas de enfezamento, a tia Nair se transformava além do bicho de sete cabeças, num tremendo porre. 

Nesse solavanco desajeitado, como se estivéssemos num trem lotado da Central do Brasil em direção à Japeri, investiga daqui, busca dali, pesquisa acolá e nada. Quatro ou cinco horas depois, não havia dentro do palheiro um lugarzinho que não tivesse sido visto, revisto, mexido, vasculhado, bulido ou alterado. Nada. Nem sinal da porcaria da agulha com a marquinha vermelha.

A tia seguia insatisfeita. Resmungava irritada, inflamada, insuportável, chorosa e botando pressão na galera:
- A agulha que mamãe me deu. Não é possível! Continuem caçando... Por Nossa Senhora das Candongas... Essa desgranhenta tem que aparecer, nem que eu tenha que derrubar esse velho “muquifo”.

Quase oito da noite, hora do jantar, à espera de tio Dimitri sair do banho, vem lá de dentro do quarto, peito ofegando em respiração larga, chorando copiosamente a Yarodara, segurando o traseiro, seguida pela Mariza, rindo a esgangalhos a mais não poder e se fazendo mais palerma que a imbecilidade da sua zombaria. Ao vestir o pijama Yarodara tomou uma espetada dolorida nas profundezas dos recuados. 

Zetinha acorreu em seu auxílio. “Uma abelha, com certeza, uma abelha – gritou tia Nair, pelas tabelas. – Só pode! – A casa está infestada!”.
Eu e meu primo Junior, a pretexto de uma ajuda, em solidariedade (na verdade queríamos espiar o rabicó da dengosa e acender a curiosidade criminosa da nossa libido) nos demos bem.

Momento supremo, por sinal. Bota supremo nisso. Todos nós, enfileirados em estreito semicírculo, ao virarmos a queixumosa de costas e acomodá-la no colo da tia (que não pensou duas vezes para lhe arriar até os joelhos, uma lingerie que mal cabia no buraco de um dente), topamos, em transbordante entusiasmo, com a desgranhenta.

Verdade! Lá estava à estropiciosa agulha fujona da tia, sacrificando, com a sua ponta espetante, a inocência dos brios da prima, entranhada entre a calcinha confortável e os socavões da bunda magra da azarada.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital. 6-9-2019

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