terça-feira, 1 de janeiro de 2019

[Aparecido rasga o verbo] Porca e ruela

Aparecido Raimundo de Souza

RESOLVI VENDER BALÕESZINHOS COLORIDOS, desses de assoprar em festas de aniversários, nas cercanias do Terminal Tietê para ganhar a vida, enquanto esperava pelo milagre de uma porta se abrindo para me acolher num trabalho mais digno e que ganhasse um pouco mais. Dos males, o pior! Melhor que mendigar ou fazer malabarismos nos cruzamentos das ruas como os “noias” ou os despatriados “sem noção”, saídos das cracolândias contíguas às Estações da Luz e antiga Júlio Prestes.  

Em lado paralelo, não precisei pintar, com tintas frescas, o corpo todo de verde e amarelo e me fingir de bandeira do Brasil, no Viaduto do Chá, ou posar de estátua, para assustar as moças e as criancinhas na Avenida Paulista. Juro que tentei também uma semana inteira, em plena Praça da Sé, postado feito dois de paus, nas escadarias do Metrô, em frente à Catedral, porém a experiência pela qual passei fora o vexame de fazer papel de besta enfurecida, não desejaria ao meu pior inimigo. Ao meu pior inimigo eu não desejaria.  

Todas estas proezas, contudo, valeram como aprendizado e lição de vida. Ajudaram a enxergar melhor o futuro e a abrir mão de certas coisas insignificantes. Ao menos não passei fome, não dormi ao relento. Não esmolei. Deu para comprar todo santo dia um pãozinho com manteiga e um copo de café com leite na lanchonete do japonês no largo do Arouche. Vendo a coisa por outro prisma, não careci de roubar ou furtar nada, nem fugir de ninguém. A não ser da feiura de mim mesmo, quando frenteava sem querer, com os espelhos das vitrinas das lojas de conveniências.

Desde pequeno, furtar ou roubar me lembrava de polícia e polícia me trazia à memória um negócio esquisito chamado cadeia. Esta história de cadeia não me cheirava bem, aliás, nunca me cheirou. Tampouco cheirei. Por outra banda sem música de Chico Buarque, me disseram com todas as letras que existia aquela história do “negão”. Todo xilindró que se prezava, mantinha um “negão” de plantão, esperando a hora para entrar em cena e desempenhar o papel para o qual fora designado. E qual seria este papel? Passar o cerol nos novatos que chegavam detidos por alguma contravenção.   

Aconteceu com um amigo meu, o Luiz Cláudio. O infeliz foi levado algemado e embaixo de uma chuva de porradas, para a delegacia, acusado de ter estuprado uma velhinha no bairro do Brás e, ainda não contente, ter lhe surrupiado um cachorro quente e uma lata de refrigerante que levava numa sacolinha plástica, para a netinha que morava com ela desde a morte prematura da mãe num acidente de carro na Raposo Tavares, perto de Cotia. Logo uma anciã? Quase noventa anos? Tinha mais que ir à cana mesmo. E enfrentar o “negão” e suas sandices estropiadas.

Entretanto, para calar minha boca, se descobriu depois de acirrada investigação, que o meu amigo não tinha nada a ver com o caso. A própria vítima, no ato do depoimento e do reconhecimento, deixou claro este particular, ou seja, que realmente não se tratava do meu amigo o tal monstro horrendo que andava pela cidade, tarde da noite aterrorizando as vovós, como um lobo mau, solto e leve pelas ruas e avenidas.

- “Seu doutor -, teria dito a vítima ao delegado quando da sua inquirição –, não é este o rapaz. O sujeito que me pegou à força, na marra, no laço, e me arrastou sobre ameaça de arma de fogo para um escurinho da Major Sertório, era muito alto. Parecia até o senhor!”.
- Como é que é minha senhora? – se enfureceu o delegado dando um soco na mesa. - A senhora por acaso está me gozando?
- Faço referência à altura, doutor. À altura...  

O delegado se acalmou, todavia insistiu com a veemência de um bom policial que cumpria seu dever acima de qualquer coisa:
- A senhora tem certeza?
Ao que a boa idosa completou pondo fim à questão:
- Claro que tenho certeza, seu doutor. O salafrário possuía uma cicatriz horrível no rosto, do lado esquerdo, as sobrancelhas sobressaíam por serem arqueadas além do normal.

- E o que mais minha senhora?
- Os lábios lhe caíam vermelhos e carnudos, ele fungava muito, cuspia feito um bêbado nojento e toda hora coçava os olhos com as costas da mão.  Cá entre nós, seu doutor, confesso se fosse violentada por este coitadinho aí que o senhor prendeu, eu adoraria. Parece mais calmo. O outro não ia além de metido a valente, senhor de si, nariz empinado, autoritário, sem contar que tinha uma lasca de... o senhor sabe, seu doutor. Deixa pra lá.

Dez horas depois, terminada as burocracias de praxe e finalmente ser encaminhado ao departamento médico legal, meu amigo Luiz Cláudio (que passou pelo “negão” e, apesar do pouco tempo de clausura na “tranca”, se viu compelido a se vestir de mulherzinha, deitar com o sujeito e revirar os olhinhos), ganhou a liberdade.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. Do Sítio Shangri-Lá, um lugar perdido no meio do nada, MG. 1-1-2019     

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2 comentários:

  1. Seja bem vinda minha linda amiga Denise Ávila, autora de "Guga Não Engula" e "Que amor, Astor!". Obrigado, de coração, pela sua presença aqui na Revista Cão que Fuma e especificamente em meu texto. Você é sensacional.
    Aparecido Raimundo de Souza, de Shangri-Lá, um lugar perdido no meio do nada.

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