domingo, 2 de junho de 2019

[As danações de Carina] De um pedaço de mim que nunca morre (parte UM): A cadeira de balanço

Carina Bratt

Vovô Silvério vem lá de dentro da cozinha sacudindo as espumas dos cabelos ralos e resolve se sentar. Corpo moído, cansado, mais de oitenta e tantos anos entrelaçados nas dores de coluna, bico de papagaio, artrite, artrose e outras coisinhas bobas da sua velhice eterna.

A sua velhice, é realmente perene. A morte, graças a Deus, esqueceu a sua senha. Em razão disso, vovô segue ativo, reaviajando, pedalando numa bicicleta inexistente a estrada do seu destino venturoso que a cada amanhecer se aprimora e se retoca nos horizontes do seu infinito.

Seu lugar preferido é um só e único: a cadeira de balanço na sala enorme ao lado de uma coroca rádio vitrola desusada. Do outro lado dessa sala, de frente para a rádio vitrola, dependurado na parede, um relógio cuco do tempo do ronca, às vezes sai mostrando um passarinho alegre, às vezes fica quieto em seu poleiro, como uma ave que se esqueceu de mostrar a sua tristeza adormecida.

Mais caduca que vovô, sem dúvida alguma, a cadeira de balanço. Ela conta histórias vestidas de matizes interessantes. Seu esqueleto oculta lobos maus e chapeuzinhos vermelhos. Cinderelas acorrentadas em torres de castelos com cavaleiros mascarados que aparecem do nada (num heroísmo búsculo) para as salvarem de vilões de caráter duvidosos.

Basta que alguém lhe dê atenção e resolva parar e escutar. Feita sobre medida, seu assento é um livro de páginas (não lidas) em cadeia. A começar por sua formação, ou por sua criação. Não tem um pedaço dela que não seja de boa árvore. Madeira mesmo. Madeira de lei.

Dessas que atravessam os janeiros sem pestanejarem. Sem reclamarem se os próximos dezembros estão longe ou pertos. A peça de vovô Silvério é tão antiga que se ele cismar, por exemplo, de não se abancar na sala, por qualquer motivo na varanda, ou na cozinha, ou em outro lugar que lhe dê na cisma, necessitará de nada menos que três homens com os braços de possantes e fortes brutamontes musculosos. 

Além da cadeira, vovô Silvério se utiliza de uma bengala. Ganhou da tia Walquíria, falecida há meses. Agarrado a esse pau de arrimo, do qual nunca se separa o velhote não se aquieta num ambiente determinado. Isso jamais! Vovó Priscila (dois anos mais nova que ele) costuma dizer que seu marido tem “furmigas no rabu”.

Pelo sim, pelo não, ora vovô está na sala, ora no quarto, ora na cozinha, no banheiro ou na varanda. Ou bolinando no palheiro, à cata de alguma ferramenta que se esqueceu de onde a deixou pela derradeira vez em que fez utilização.

Inseparável esse cajado da tia Walquíria o ajuda a se manter firme em seus trajetos pelos lugares mais incomuns como fazendo uma turnê pela beira do rio de águas claras e mansas cortando a quinta como uma enorme cobra em espiral, ou conversando animadamente com os cavalos na estrebaria.

Ou vendo os peões ordenhando as vacas ou a Chiquinha, filha da Marilza (a cozinheira), dando milhos às galinhas. Vovô Silvério é um velho moço que, apesar de todas as dores e doenças, não se conforma e não se aquieta. Tenho a impressão, quando o espio, da janela do meu quarto, de um menino portador de algum aleijo não visto querendo voar, sem, contudo, ter ao alcance de suas quimeras, um par de asas (como Ícaro) que o faça sair e tocar o céu acima de sua cabeça. 

Voltando à cadeira de balanço, entre ela e o pau de arrimo, não saberia precisar (apesar dos meus trinta anos recém-chegados) qual o mais velho dos três. Quero dizer, dos dois. Muito engraçado, meu avô! Lá vem ele da cozinha em direção à sala. Direto, sem baldeações. Acomoda o peso das dificuldades no amparo e desmonta, como um saco de cimento, nos braços grossos da cadeira de balanço. 

Começa a balançar. Nesse chacoalhar cadenciado, desanda a geringonça a fazer um barulho engraçado, como se rangesse as juntas. Inhaaaa... inhaaaa... Inhaaaa... Inhaaaa... e nessa lentidão, vovô vem... para frente, volta atrás..., espaceia para a frente, de novo... e retorna. Segue intermitente, para frente, para trás, para frente, para trás.

Vai e vem. Vem e volta, volta e vem. Torna a retaguardear. Fica assim um tempo enorme, dinâmico, incansável, laborioso, ativo, enérgico, apressurado..., uma hora, duas e o som da cadeira de balanço não muda o seu ritmo: Inhaaaa... inhaaaa... inhaaaa... inhaaaa...

Vovô de repente se pilha incomodado aperreado com aquele barulho. Ruído chato, contenda incômoda. Está, segundo palavras suas, “calejando seus ouvidos”.  De repente, para ele, a coisa fica maçante. Indiferente e sem se importar com os seus chorumes, a danada da cadeira de balanço segue avacalhada descuidada e relaxada: Inhaaaa... inhaaaa... inhaaaa... inhaaaa. 

Conflita no mesmo tom sem variações nas notas, o saracotear. Prúfida, intransigente, a cadeira se torna ríspida, obstinada, teimosa, contumaz em seus ouvidos, a ponto de não dar um instante de folgueamento. Chateado, os tímpanos em frangalhos, Vovô Silvério se levanta ligeiro na sua quase não paulatina morosidade, se ergue resmungando pandarecos com seus botões, tão alquebrados e amorrinhados quanto seu coração de tantas andanças.

Quando se arriba... definitivamente se põe de pé empertigado, a cadeira de balanço se avexa. Detém de se abanar de um calor imaginário, de se brandir, de se sacolejar. E pior: cessa as rangedoras, acalma os adejos e serena as palpitações. Apazigua o inhaaaa... inhaaaa... inhaaaa... inhaaaa...

Vovô entre afobado e impulsivo, furioso na sua impaciência e desassossegado, passa a mão em seu encosto inseparável e sai da sala. Procura, aos passos pequenos, avança decidido em rota de colisão com o quarto. Vai tirar um cochilo. A rotina não muda. Pensando na alcova acolhedora, parte, quieto, cabisbaixado, o sorriso apagado, os conflitos internos enterrados num piso de terra cemiterial.

Com a saída definitiva de vovô da velha cadeira de balanço ela fica ali, abarcada a um mutismo constrangedor, uma pasmaceira que insiste quieta como se tivesse os órgãos da visão esbugalhados arregalados e grudados na rádio vitrola.

Contudo, a rádio vitrola, por sua vez, parece não estar nem aí.  E não está. Impassível, segura em seu prato um disco antigo de setenta e oito rotações igualmente estagnado. O cantor do disco perdeu a voz. A agulha, o tato. Então ela viaja. A cadeira de balanço sonha que o cuco do relógio sairá e quebrará o marasmo. Qual o quê! Nada por aqui se aviva.

Nada por aqui nesse lugar de lembranças paralisadas e inertes, parece querer se afastar das rugas outrorais. O carcomido do tempo não fica atrás. Depaupera nos caibros retrógrados um pouco acima do solo e dá guarida ao telhado ancião, obsoleto, escurecido por demais, em torno de uma camada de poeira que também não se desvanece.
Título e Texto: Carina Bratt, de Sertãozinho Ribeirão Preto interior de São Paulo. 2-6-2019

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Um comentário:

  1. Essa é a fase em que a alma do homem anseia a vitalidade que o corpo não mais tem. De fato,o ser humano, ao nascer, ingressa em uma verdadeira contagem regressiva. Sábios os que notam isso. Parabéns a autora pela criatividade!

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