domingo, 26 de maio de 2019

[As danações de Carina] Saudade infinita

Carina Bratt

A poesia (só a poesia) usada nas minhas “Danações” de hoje, bem como a música (gravada por Roberta Miranda), são de autoria de João Dias, nosso amigo de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

Para Aparecido e senhor João Dias, com carinho.


“Entre as nuvens e as estrelas
percebi que era você.
De repente foi embora,
a razão não sei por que”.

A nostalgia de fato bateu. “A razão não sei por que”. Bateu, investiu forte, entre nuvens e estrelas, a ponto de flagelar meu corpo. Meu rosto não tinha esses olhos melancólicos, de visão estreita, de lágrimas desbotando minha pele. Percebo que não estava preparada para recepcioná-la. Acho que ninguém está. Nostalgia nunca vem sozinha. Sofri, chorei, caí num ermo isolado, longínquo, deserto e árido.  Um degredo inconsistente, pesado, denso e febril me envolveu. Sozinha, me vi vazia, oca, relegada a um exílio despovoado. Sem ninguém, sem chão, tipo barco à deriva desbussolado num mar imenso e revolto. “A razão não sei por que”.

“Cada um tem um destino
às vezes até descontrolado
o importante é ser feliz
mesmo que não esteja do meu lado”

E, de fato, você não estava. Deixei de ser feliz. Destino? Talvez! Quando você se fazia aqui, a nostalgia se mostrava presente. Carente, envolvente e baldada. Era, porém, um anseio gostoso, caliente e meigo. Um leve pesar afável, moderado, de pouca intensidade, que se dissipava toda vez que você chegava. Não havia aquela outra variação pujante, denodada, robusta e potente. Inexistia a alteração, a mutação ingrata e medonha.  Não havia, porque você saía de manhã e volvia à tarde, se reembolsava para meus carinhos como quem se restaura para o trabalho dia seguinte e fim de noite retorna.

“A saudade é um segredo
que fica marcada no meu coração
se um dia você aparecer
vou explodir de paixão”

Agora não é mais um segredo. Tudo mudou. Houve uma reviravolta medonha, enfadonha, tristonha e infame. Uma saudade que se agigantou. Ficou marcada no meu coração. Cresceu enraizada em meus destroços e aos percalços da minha alma frangalhada. Meu céu interior se desprendeu do espaço que o retinha e caiu mastigando o avesso de uma geometria invulgar, que, de igual forma, também se espatifou com a ausência que ficou como o vazio que engrandeceu e como a tristeza que se quadruplicou à minha volta. Apesar desse contratempo, acredite, “vou explodir de paixão”. A nostalgia não vai me vencer. Não vai. E você vai aparecer...

“A solidão vai embora
não deixa minha vida vazia
traz pra mim bem depressa
quem eu amei noite e dia”.

Quem eu amei noite e dia, dia e noite, se transformou em um vendaval surgido do nada. Percebi em meio a tudo isso, que ventos fortes sopraram, destruindo meus sonhos, meus devaneios, meus segredos que só você conhecia. Não passo, agora, de uma construção abandonada, capenga, esqueletada, ossificada de quimeras construídas sobre areia movediça. Sou ruína. Virei devastação, imensidão, escuridão, desilusão. Fiquei assim: confusão de desencontros no cais do meu próprio eu entorpecido. 

“A solidão vai embora
não deixa minha vida vazia
traz pra mim bem depressa
Quem eu amei noite e dia”.

Cada um tem seu destino, eu sei. O meu foi amar. Amar você em segredo, em demasia ilimitada. Amar num esboço de degredo que se mensurou. Mas espere! Existe a esperança. Ela nunca morre. Se um dia você aparecer, voltar, eu reagirei. Claro que reagirei! Sairei do poço escuro, onde me acho mergulhada. Voltarei a ser aquela massa integra plena e serena. Feliz, cicatrizarei feridas em erupção. Estancarei o sangue que escorre, me cobrirei de venturas e de paz interna. Felicidade incontrolável que na inteireza do meu gostar, fará, de novo, o nosso passado junto com a nossa história transbordarem de pura paixão.

“A solidão vai embora
Não deixa minha vida vazia
Traz pra mim bem depressa
Quem eu amei... amei, amei, amei noite e dia”.

E aí está, ou melhor, aqui está o milagre. A solidão foi embora. A devastação idem. De vez, espero! Não importa. Vale o agora. Você chegou. Por certo, inquestionavelmente explodirei. Você chegou. Se faz presente. Você é o meu “aqui pulsante”, o meu hoje, o meu amanhã. Vou me explodir, aliás, VAMOS NOS detonar, nos espocar, nos estrondar de PAIXÃO. Sem mais delongas, me abrace. “Não deixa minha vida vazia”. Se entregue. Me toque me pegue, me consuma. Continuo como antes... sendo seu rio de águas claras, seu rio que se alaga, que avança que cresce que se funda, que se entrelaça, que se abisma, que se atarraca, que se embrulha e atordoa  QUANDO TRANSBORDAMOS...

“Entre as nuvens e as estrelas...”.



tulo e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha Espírito Santo, 26-5-2019

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