quinta-feira, 23 de maio de 2019

[Daqui e Dali] O sabichão…

Humberto Pinho da Silva

Conheço meu amigo João desde o dia em que fomos para o Quartel de Campo Grande, em Lisboa.

Era um jovem do Alto Minho, que trabalhara duramente para conseguir o almejado quinto ano.

Começara a mourejar na lavoura. Depois, veio para o Porto, como marçano. Fazia recados e entregas.

Paralelamente, estudava à noite. Com esforço e força de vontade, concluiu o Curso Geral do Liceu.

Com o certificado na mão, concorreu para lugar público e como era ambicioso, esperto e inteligente, foi subindo, até obter o pomposo cargo de Chefe.

Sua cultura nunca passara dos elementares conhecimentos das disciplinas básicas do liceu, e da leitura de jornais e “Selecções de Reader’s Digest”, que comprava num alfarrabista, da Praça de Monpilher.

Após a reforma, reformou-se igualmente da leitura: jamais leu, fosse o que fosse… nem a Bíblia, apesar de ser católico praticante…

Quase semanalmente o encontro, e raro é o dia que não vamos almoçar juntos, num pacato restaurantezinho da baixa.

Sua presença me é agradável, apesar do ar doutoral. Convenceu-se – ou quer-me convencer – que tudo sabe; tal qual alguns políticos da nossa praça.


Se comento artigo que li, logo replica: ”Não é bem assim!”
De indicador em riste, inicia preleção, com autoridade de professor, declarando que me encontro redondamente enganado.

O espírito de sabichão incomoda-me. Cheguei a esquivar-me. Descobri, anos há, que para perfilhar a minha opinião bastava dizer-lhe o contrário do que penso…

Dia destes fiquei banzado: não havia corrido muitas semanas que abordamos Camilo e a infeliz Ana Plácido. Atalhou, para me dizer, que estava equivocado; e desbobinou, arenga, que só por educação, aceitei.

Ora, no último encontro, veio novamente à baila Camilo e seus amores. Fiquei estupefato, quando escutei, tintim por tintim, o que lhe tinha dito e que reputara de confusão minha…

Como o João há muitos, que pretendem parecer intelectuais. Asseveram, a pés juntos, o que não sabem.

Acontece em todas as áreas, desde a literatura ao futebol.

Ao comentar a ocorrência, o Silvério – com a experiência de muito ter vivido - acrescentou:
“Não é de admirar: outrora havia ‘espertos’ para cada assunto. Agora, os comentaristas, da TV, criticam tanto Literatura como Música; tanto entendem Futebol como Economia!
São enciclopedistas…
Título e Texto: Humberto Pinho da Silva

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