terça-feira, 21 de maio de 2019

[Pensando alto] Estados Unidos ou Canadá?

Pedro Frederico Caldas 

Vá até onde puder ver; quando lá chegar poderá ver ainda mais longe.
Goeth

Resolvi passar meu aniversário no Canadá. Fomos, Nêga e eu, a Toronto. Lá estava nosso cunhado, compadre e queridíssimo amigo, enfim, um irmão, Ernesto, desincumbindo-se de um curso de inglês. O homem tá danado, falando inglês pelos cotovelos. Foi uma farra só.

Um dia antes da viagem comprei um laptop. Barbeiro como sou com essas geringonças tecnológicas, esqueci de levar códigos e passwords. Aí o bicho pegou. Fiquei sem e-mail e sem facebook, razão por que perdi, pelo tempo ausente de casa, contato com os meus queridos amigos, agora retomado por esta breve memória de viagem.

Há muitos anos não ia a Toronto, cidade belíssima, às margens do Lago Ontário, centro econômico da Província de Ontário, de longe a mais rica das províncias canadenses.

No domingo, dia 9, almoçamos no 360 Restaurant, localizado na CN Tower, a 351 metros de altura. O restaurante é giratório. Um giro leva 72 minutos. Esse giro completo nos permite ver as vastidões da planície em torno da cidade e do lago. A vista deslumbrante, atiçada por um bem elaborado dry Martini à la 007, deu um sabor especial ao regabofe em torno dos macios e suculentos rib eye steak e rack of lamb, escoltados por cogumelos sautés sob os acordes de um divino Shiraz, colhido e batizado no McLaren Vale da distante e, naquele encantado momento, tão próxima Austrália. Saímos alegres para as ruas e ensaiamos alguns passos aos sons de gaita de fole soprada por estilizado escocês e um acordeom dedilhado por uma saudosa alemã, consumados artistas de rua a quem remuneramos com certa generosidade. O embalo continuou a goles de café expresso e baforadas de charutos especiais. A ata de encerramento foi lavrada, já no hotel, por um vinho inesquecível, quando, emocionados, nos despedimos de Ernesto, companheiro inseparável desses momentos de já entronizadas memórias.

Mas voltemos ao tema Canadá, que viajar não é só folia.

Cerca de oitenta por cento da população do Canadá vive na fronteira com os Estados Unidos, numa profundidade de mais ou menos cem milhas (160km). Trata-se de um país riquíssimo, com produto interno bruto de quase dois trilhões de dólares para uma população ao redor dos trinta e sete milhões, o que lhe confere renda per capita ano de quarenta e cinco mil dólares, em números redondos. Sendo um pouco maior que os Estados Unidos, tem quase dez por cento de sua riqueza, em termos absolutos. Sob qualquer prisma, um país maravilhoso para se viver: democrático, mercado livre, capitalismo sem amarras, população de grande qualidade cultural, abundantes recursos naturais, exportador de comida, energia, manufaturas, tecnologia. Um paraíso lindo de viver, com direito a muita neve.



Seu único vizinho são os Estados Unidos, o que lhe confere grande estabilidade e segurança. Como o vizinho, é um país multicultural, formado por imigrantes europeus, agora com um considerável contingente de latinos, não sendo desprezível o número de asiáticos, principalmente, como de costume, nos grandes centros. A presença dos negros não é grande, pois o Canada, como o Norte dos Estados Unidos, não teve escravidão.

Recebe, anualmente, quase trezentos mil novos imigrantes. Precisa de muita gente para povoar a vastidão de seu território, embora, em termos de qualificação dos imigrantes, seja exigente. A imigração tem por alvo gente com idade entre os dezoito e os quarenta anos, com formação superior, salvo os casos das pessoas grande de conhecimento, dos perseguidos políticos, religiosos ou acolhidos em caráter humanitário. Tais exigências garantem ao país uma imigração com alta potencialidade. Os Estados Unidos são como a “casa da mãe Joana”, entra gente de todo tipo. Por sinal, os Estados Unidos recebem mais imigrantes, legalmente, do que o resto do mundo, fora parte o fluxo migratório ilegal.

O Canadá forma com os Estados Unidos e o México uma comunidade comercial, estabelecida nos anos noventa pelo North American Free Trade Agreement (NAFTA). Na verdade, o Nafta é um tratado de livre comércio entre os três, mas opera como um tratado comunitário entre os Estados Unidos e o Canadá, com as linhas gerais de uma espécie de comunidade europeia. Os nacionais de um podem morar em termos permanentes ou trabalhar no outro país sem grande burocracia. Lá ingressamos sem necessitar de visto e passamos na imigração destinada aos seus nacionais. Por sinal, nos foi indagado se íamos a passeio ou morar. Na saída, para minha surpresa, passamos por autoridades americanas, que atuam dentro do próprio aeroporto de Toronto para atendimento aos seus nacionais. Em suma, os nacionais ou residentes permanentes de um país circulam pelo outro com um mínimo de aparato burocrático. Os dois países permitem que os nacionais de um deles adquira a nacionalidade do outro sem a perda da cidadania.

As grandes empresas americanas estão presentes no Canadá. Lá estavam Costco, Whole Foods, Target, The Home Depot, Nordstrom, Ikea, McDonald’s, Chipotle, para não falar em bancos, fábricas, companhias de aviação e tantas outras. Há uma integração grande entre as duas economias. Os capitais americanos controlam boa parte das empresas canadenses. Qualquer americano, em lá estando, se sente em casa, tudo facilitado pelo mesmo idioma.  O fato é que não há diferença palpável entre uma cidade canadense e uma cidade americana. Quando olho para o Canadá e Estados Unidos vejo um mesmo país, com bandeira, hino e forma de governo diferentes.

De Toronto fui, em voo de 1h10m, para a linda Philadelphia [foto], Philly para os íntimos, na Pensivâlnia (Pennsylvania), cidade maravilhosa, histórica, mesclada pelo novo e pelo antigo, plantada às margens do rio Delaware, que a separa do estado de New Jersey, embora uma ponte faça a união. Moraria tranquilamente nessa cidade, bem no meio da costa leste, próxima a Washington, New York (duas horas de trem) e outras cidades importantes. É um grande centro cultural. Somente o seu museu de artes abriga mais de duzentas mil peças e é visitado por bem mais de seiscentas mil pessoas por ano. A gastronomia é um caso à parte, pela profusão de bons restaurantes, com culinária de todo o mundo. Centro histórico, berço do nascimento dos Estados Unidos como nação, lá foi redigida e lida a proclamação da independência americana. Além de tudo isso, dispõe de um campo magnifico, ornado por lindas fazendas em vales e planícies verdejantes.


Íamos continuar a viagem, agora por carro, em trajeto bucólico e pastoril pela formosa Virginia, projeto abortado por uma pequena entorse no pé. Assim, impedido de andar, como gostamos de fazer para bem conhecer as cidades, cometemos mais algumas estripulias enogastronômicas e arrepiamos caminho de volta para casa em voo de 2h10min. Durante todo o tempo usamos essa maravilha, que somente a livre iniciativa pode criar, chamada Uber. Se o prefeito de sua cidade ficar contra, derrubem o prefeito.

Nem bem chegado, tenho um encontro emocionante com o meu teclado, amigo fiel e severo. Olha para mim e ordena: Vá escrever para seus amigos! Obediente e apressado, alinhavei este diário de bordo para dizer o porquê do meu prolongado silêncio.
Aí surge a pergunta: Estados Unidos ou Canadá? Para mim, a resposta é fácil: ambos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas

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