terça-feira, 21 de maio de 2019

[Aparecido rasga o verbo] A surdez dos clarões

Aparecido Raimundo de Souza

EM LONDRES, na Inglaterra, um casal de lésbicas coreanas que desejava ter um filho, encontrou um pai para a criança. O sujeito é um brasileiro da cidade de Itú, interior de São Paulo. Seu nome, Beringelângelo Hortaliça. Alto, bonito, charmoso, moreno, olhos verdes, veste camisas da Red Summer, cuequinhas da Zorba e calças da Hangar. Sapatos? Não, só tênis sem meias. Fuma charutos legítimos cubanos diretamente importados da ilha de Fidel Castro. Usa um brinquinho na orelha esquerda um pilsing na língua, e, na pica, o desenho tatuado de um cavalo alado atacando um dragão sem o São Jorge montado em seus costados. Frequenta academia todos os dias, faz faculdade de direito em Bragança Paulista, bebe suco de laranja com gelo e limão, aprecia quiches folheados e se concentra em seções açucaradas com cheesecakes, brownies e trotinhas diet.

Mantém uma programação cultural bastante interessante, com exposições de quadros, rodas de leituras, recitais, lançamentos de livros e saraus. Reserva sempre um dos cantos de seu apartamento confortável e espaçoso, para uma estante com pérolas literárias que vão de Jorge Amado à Clarice Lispector passando por Saramago e Zé Lins do Rego. Ouve como músicas de fundo, repertórios clássicos de origens francesas. De gosto apurado, seu pequeno “habitat” foi decorado com o objetivo de fazer qualquer fêmea esquecer o que se passa do lado de fora das suas quatro paredes. Louco por cortinas, Beringelângelo sustenta que em qualquer ambiente essas peças são acessórios indispensáveis para um bom relacionamento, principalmente com as janelas. Esse cara, com todas essas manias requintadas e que ainda por cima escova os dentes habitualmente antes e após as refeições, foi achado através de um catálogo de vendedores de sêmens disponíveis na Internet. Simples, não é verdade?

Se levarmos em conta, hoje em dia, percebam que se comercializa qualquer tipo de bugigangas pelos sites das redes socias: carros, casas, lofts, vinhos importados e nacionais, mulheres e homens infláveis (existem no mercado – meninos e meninas para pedófilos com pintos, cus e bocetas perfeitas), maconhas, pedras de crack, deputados, senadores, aparelhos para desenhos, brinquedos coloridos ou em preto e branco, trombone com ou sem vara, pratarias, CDs, gravadores e até ministros do STF. Enfim existe uma série de cagalhões listados com mais de um milhão de itens para todos os gostos. Basta o interessado dispor de um computadorzinho barato, uma linha telefônica, cartão de crédito (de preferência com...) e endereço para recebimento das tranqueiras desejadas.

Assim, nesse rastro, voltando às lésbicas, ou melhor, as donzelas, uma médica e a outra, uma professora de piano, moradoras da maviosa e aconchegante Winchester, capital do condado de Hampshire (sudeste da Inglaterra) sem querer descobrimos que as beldades pagaram o equivalente a quase cinquenta mil reais pelo líquido seminal do tal macho espadaúdo de trinta anos incompletos oferecido na “homepage” de uma empresa especializada em produção assistida. Ambas receberam a amostragem pelo correio. O responsável pela felicidade dessas criaturas é a “New Life”, com sede na Califórnia. Nada em comum com a nossa “Blu Life”. Mas observem: elas adquiriram apenas a prova material, ou seja, a porra.

O varapau, que fez a pior parte (desde o ato de se concentrar até o descascar da banana na frente de uma gostosa nua em pelo), não foi enviado, até porque os patenteadores da ideia chegaram à conclusão que “se fosse empacotado o homem, junto, certamente os clientes optariam em ficar com ele. Seria, pois, um ‘mau’ negócio para a Agência. Ademais, despachando só o gozo, o mesmo garanhão servirá para engravidar futuras necessitadas e carentes em todo o planeta’”.

De posse da substância produtora, a mais nova da dupla, de 25 anos (a outra passa dos 28), recebeu a ejaculação adormecida por inseminação artificial. Identificadas somente por Pabla e Samantha, elas contaram ao “Daily Telegraph” que “tentaram, sem sucessos, durante três anos e somente no Natal de 2017 obtiveram êxito”. O fato é que os ginecologistas e obstretas consultados, não deram no coro nem no couro. Um chegou a cogitar que as Trompas de Falópio ou os tubos contráteis da Pabla tinham o colo ou a cavidade do útero virado para o orifício anal. Em vista disso, o bebê poderia nascer com cara de bunda. Apesar do disse-me-disse, a cria (por sinal do sexo feminino), abriu os olhos para o mundo nove meses depois e, segundo os especialistas que cuidam do caso, a criança “coroou” perfeita e passa bem.

Para aqueles que viram o “Fantástico”, da Rede Globo ou o “Domingo Legal”, do SBT, sabem que não estamos contando mentiras. Trouxemos à baila esse caso, a título de ilustração, com a finalidade única de fazer com que as senhoras e os senhores entendam que não podemos permanecer estáticos. Em dias atuais, se faz obrigatório metermos nossos bedelhos em constantes processos de reciclagens acompanhando as evoluções que surgem a cada novo minuto. Não está longe, o dia em que ocuparemos as redes da Internet vinte e quatro horas ininterruptamente. A partir de então, viveremos do acordar ao voltar a dormir, como bonecos monitorados por controles remotos. Todavia, apesar dos pesares, procuremos encarar a nova coisa tecnológica pelo lado bom e prático. Já imaginaram quanta beleza e comodidade não precisarmos sair às ruas em épocas eleitorais?

Escolheríamos confortavelmente sentados em nossos sofás, tomando aquele cafezinho esperto ou entornando uma cervejinha estupidamente gelada, os vereadores, os prefeitos, os deputados, os governadores, os síndicos dos prédios, e até os presidentes da nação. Por que não?! Uma das muitas vantagens seria a de que não correríamos o risco de prisões em flagrante por estarmos ingerindo uns traguinhos nos botecos das praças e esquinas. Por conseguinte, não seríamos assediados por um bando de chatos de galochas com santinhos às portas das zonas pedindo por tudo quanto é mais sagrado que se votasse nesse ou naquele cafajeste. As ruas não ficariam cheias de papéis amontoados e os lixeiros teriam menos trabalho na recolha dos entulhos.

Pensemos mais à frente um bocadinho: vejam a praticidade dos milhares e milhões de aposentados que também sairiam ganhando. Ganhando e lucrando. Esses coitados não mais necessitariam acordar cedo para enfrentarem e agarrarem os melhores lugares nas filas quilométricas dos bancos para receberem seus salários. Bastaria a esses filhos de Deus, acomodarem o traseiro na frente de uma telinha, apertar meia dúzia de teclas e pronto. O dinheiro viria para a conta bancária e dela (através de um motoboy registrado e carimbado pela instituição financeira), num passe de mágica, para as mãos dos respectivos pensionistas. Isso sem precisarmos mencionar que uma enormidade de criaturas não passaria pelo vexame da discriminalidade (na hora de ingressarem nos bancos, se esquivariam das portas giratórias sisudas, disfarçadas de seguranças amedrontados) que as pessoas dizem não existir, mas estamos carecas de saber, a coisa nesse país não funciona nem com e nem por reza forte.

Com a saúde pública não seria dissonante: acabaríamos, com a desgraça do SUS (Sistema Único Sucateado), e, de roldão, com o inoperante cabide de empregos, o INSS, ou (Instituto Nacional dos Salafrários e Sacripantas). Os doentes não mais se submeteriam aos corredores frios dos hospitais, aos bancos dos ambulatórios, as enfermeiras desatenciosas e outros inconvenientes de um sistema que sabemos falido e sucateado. Os pacientes enviariam um e-mail com seus problemas mais prementes para seus médicos e eles, do outro lado da cidade, ou nos quintos do inferno aviariam as receitas sem precisarem levantar as bundinhas de suas confortáveis cadeiras.

Tudo sem complicações. Por certo, seria bem diferente do quadro que comumente estamos acostumados a presenciar nos grandes centros de triagem, onde os especialistas geralmente nem olham para os rostos das criaturas. Eles vão escrevendo a receita, muito a contragosto, de má vontade e tchau!  Para terminarmos, pensem em quão interessante viria a ser a Internet na hora de se ter cometido um crime bem hediondo. Tipo o Feminicídio ou o Bucetonicídio. Depois de consumado o fato, poderia ser contratado um advogado sem sair do quarto ou da sala. O delegado e o escrivão presidiriam o inquérito sem arredarem os pés da chefatura. E o melhor, sem pedir propina. Tudo muito cômodo. Na esfera judicial, o mesmo procedimento perante o juiz e o promotor. Se, por azar houvesse uma condenação para o criminoso e o “capinha preta” expedisse uma ordem de prisão imediata, mandando um oficial de justiça, juntamente com a polícia bater às portas do infeliz...

Ah, um detalhe de suma importância: se o advogado fosse um filho da puta corrupto, bem como o magistrado, o promotor, e o delegado e, nesse interregno de tempo, “armassem” uma arapuca para prenderem o réu ou a ré, e hipoteticamente tocassem a campainha em suas casas, antes do tempo previsto, sem chances de uma fuga, a alternativa seria disfarçar o criminoso ou a criminosa de Temer ou Raquel Dodge. Se sapatona vestiriam nela as máscaras de Dilma ou Carmem Lucia, ou na falta de uma dessas merdas, de algum parlamentarzinho da câmara ou do senado. Bufões e girofales não faltam no puteiro. Com certeza o acusado ou a acusada (seriam levados ou conduzidos) com toda pompa e majestade para uma cidadezinha conhecida nos meios jurídicos como “LUGAR INCERTO E NÃO SABIDO”. E o resto... o resto, caros amados, que se “fudesse...”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Paraty, no Rio de Janeiro. 21-5-2019

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