quarta-feira, 29 de maio de 2019

[Pensando alto] “A Petrobrás é do povo brasileiro” e outras bobagens

Pedro Frederico Caldas

Você pode encarar um erro como uma besteira a ser esquecida, ou como um resultado que aponta a uma nova direção
Steve Job

Acho engraçado o fervor com que muitos esbravejam que a Petrobrás pertence ao povo brasileiro, como se toda e qualquer empresa que esteja no País, mesmo estrangeira, não pertença, de alguma forma e no mesmo sentido, ao povo brasileiro.

Toda empresa gera riqueza, dá empregos, paga impostos e produz bens e serviços.  Se abstrairmos a existência de todas as fazendas, comércio, fábricas, transporte, prestação de serviço e o que mais funcione como unidade econômica, o que restará para garantir o meio de vida das pessoas? Nada, absolutamente nada.

Nesse sentido, todos os fatores de produção nos são úteis e necessários, e, na medida em que deles tiramos nosso meio de vida, direta ou indiretamente, nos pertencem como garantia de nossa subsistência.
Em economia o mais importante não é o que se vê. O mais importante é o conjunto das relações econômicas não percebidas, entretidos que estamos em concentrar nossa atenção naquilo que vemos.

Vamos para uma pequena cidade, onde as coisas são mais visíveis. Empregados de um banco, de uma fábrica, de uma loja, ou de um escritório sentem com precisão a importância dessas instituições ante a realidade palpável de que delas tiram seu sustento, seu meio de vida. O dono do mercadinho, da padaria ou a professora, que recebem parte dos salários desses empregados em pagamento dos bens que lhes vendem ou do serviço que lhes presta não têm essa percepção imediata. O nexo de causalidade econômica se perde, para quem não está atento, nas diversas etapas do fenômeno.

Entretanto, se o banco, ou a fábrica, ou a loja deixa de existir, o impacto será sentido por todos. Nesse momento, os negócios na comunidade são altamente prejudicados e todos sentem que perderam algo que antes não tinham a sensação de lhes pertencer. Trazido esse fato para o âmbito nacional, vimos, com olhos de ver, que a queda de atividade das empresas em geral e o fechamento de um sem-número delas, provocados pela crise que nos engolfou e ainda nos engolfa, causou diminuição de renda para todos e, no limite, via desemprego e encerramento de atividades, pobreza para muitos. Assim fica mais claro que a perda de ativos não se dá somente para o dono, afeta, direta ou indiretamente, a todos.

Portanto, meus caros amigos, o total das relações de produção interessa ao conjunto da sociedade e determina o seu maior ou menor bem-estar econômico.

Você terá a percepção mais aguda disso se perdeu o emprego ou viu seu negócio fechar as portas. Aí você verá que a Petrobrás não é sua no sentido em que politicamente as pessoas, ideologicamente motivadas ou não, proclamam.

Quer testar? Compareça à Petrobrás e explique sua situação difícil e peça uma fração do que você e sua família teriam direito se a empresa realmente fosse propriedade de todos os brasileiros. O funcionário a quem você apresentou o seu pleito achará, com razão, que você é louco; despachá-lo-á polidamente com um discreto sorriso.


É exatamente nesse momento que você entenderá que a Petrobrás e tão sua quanto o são o a loja ou a fábrica. Agora, se você tem ações de qualquer dessas empresas poderá vendê-las para sair da agrura econômica em que está.

Aí, justamente aí, tomado esse choque de realidade, você cai na real e para de dizer essa bobagem de que a Petrobrás e sua, ou, recobrando a visão das coisas, você passará a considerar que todas as empresas, sejam quais forem, pertencem, em alguma medida, ao povo brasileiro, eis que o conjunto da economia permite obtermos os meios do nosso sustento econômico.

A diferença não percebida, para quem não tem olhos de ver, é que a Petrobrás teve seu capital formado por dinheiro subtraído dos impostos pagos por todos nós, enquanto as empresas privadas foram edificadas com o aporte de capital de seus acionistas. O mesmo acontece com o posto de gasolina, a padaria, o supermercado e a loja que nos supre as necessidades.

Se a Petrobrás nunca tivesse sido criada pelo governo, nada mudaria na paisagem econômica brasileira. Empresas privadas estariam cuidando da extração, do refino e da distribuição do petróleo e de seus derivados, com a vantagem de serem mais eficientes, os produtos, mais baratos, além de não darem margem a barganhas políticas e a roubalheiras.

Querem medir a eficiência da Petrobrás? Muito bem, dividam a sua produção de barris de petróleo pelo número de funcionários e compare com as grandes empresas privadas da mesma área. Garanto que você terá uma grande decepção. Não quero, aqui, nem entrar no mérito de que ela estava quase quebrada pelo governo que empunhava a bandeira do estatismo. Você, entusiasta de empresas estatais, só terá algum alento se a comparar com outras empresas estatais, como, por exemplo, a estatal venezuelana (PDVSA), mas, nesse tipo de comparação, qualquer coisa serve.

Vejam o que aconteceu com a economia de todos os países comunistas. Todas as empresas desses países pertenciam ao estado e, por isso mesmo, veio tudo abaixo, num cataclismo econômico jamais visto ou pensado em toda a história da humanidade.

Mas você há de perguntar: e a China? A China é o melhor exemplo de que estatismo não funciona bem. Era um país sem nenhuma grande perspectiva até os anos setenta, quando começa a virada em direção ao capitalismo. A partir daí, tornou-se em poucas décadas a potência que sempre deveria ter sido. E isso não foi nenhum milagre, isso decorreu da transformação de uma economia estatal para uma economia de mercado, quando bem mais de um bilhão de pessoas puderam liberar suas energias produtivas e criatividade e tomar as decisões econômicas que lhes conviessem.

O raciocínio que vale para a Petrobrás vale para todas as estatais, aí inclusas as instituições financeiras, como Caixa Econômica e Banco do Brasil, aparelhados pelos políticos e usados como estrovenga econômica pelo governo.

Outra pergunta que vem na esteira, como não poderia deixar de ser, é o porquê de os custos das estatais serem sempre mais altos do que os das empresas privadas correlatas. A resposta é simples: as empresas privadas têm donos que lutam para preservá-las e aumentar a sua eficiência. Se tiverem prejuízo, quebram. Enquanto isso, as estatais, uma vez em prejuízo, recebem o imediato socorro governamental, pelo aporte de mais capital, feito com recursos advindos dos tributos subtraídos, em última análise, do seu bolso, caro amigo.

Compreendido isso, pergunte a si mesmo por que Japão, Estados Unidos, Alemanha e Suíça, por exemplo, não sendo países de estatais, são colossos econômicos admirados por todos. Talvez você conclua que o estado não deve ser empresário. Isso significa o início de uma nova abordagem do tema e de uma visão mais abrangente dos fenômenos econômicos. As bobagens e os slogans ideológicos serão deixados para trás e, para frente, serão usados somente, espera-se, “como um resultado que aponta a uma nova direção”.

Outra bobagem monumental das muitas que pululam na imprensa e nas redes sociais é dizer coisas como, por exemplo, “rico não gosta de ver pobre comer iogurte”, ou “rico não quer que pobre melhore de vida”. Tais assertivas, construídas por mentes domadas pela ignorância, ou, na melhor hipótese, por uma esquerda bolorenta e mal-intencionada, criadora desses slogans com o só propósito de insuflar uma classe social contra outra, como de costume.

No futuro abordarei melhor esse tema, quase doentio, quando fizer uma análise sobre igualdade de renda, outro tema que mais rende calor do que luz. Por ora, apontarei só que se o povo for empurrado para a pobreza a quem os “ricos” venderão eletrodomésticos, roupas, bebidas, comida etc.? Quando é que o “rico” ganha mais, quando o povo tem mais ou tem menos dinheiro? Onde existem proporcionalmente mais ricos, em países pobres ou em países ricos?

Em países pobres, minha gente, os ricos são pouquíssimos. Vejam quantos bilionários existem em toda a África; vejam se há algum em Cuba ou Coreia do Norte; comparem a situação de vida da Coreia do Sul, onde há inúmeros bilionários, com a da Coreia do Norte, onde não há nenhum. Voltarei ao tema oportunamente para examinar com mais vagar esse grande besteirol.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 10-2-2017

Colunas anteriores:
Rescaldo das reflexões sobre o período militar

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