domingo, 5 de maio de 2019

[Pensando alto] Rescaldo das reflexões sobre o período militar

Pedro Frederico Caldas

Cada época é salva por um punhado de homens que têm a coragem de não serem atuais.
Chesterton

Para todo problema complexo existe sempre uma resposta simples, elegante e completamente errada.
Henry L. Mencken

Prometi pronunciar-me a respeito dos apontamentos e comentários feitos aos cinco textos que publiquei sob o título “Reflexões sobre o Período Militar”. Dei um tempo para a chegada de novos apontamentos. Agora, me pronunciarei, como prometido.

Primeiramente, devo dizer que nada tenho a opor ao que me disseram os que me deram a honra de ler meus textos e tecer os comentários que consideraram oportunos. Esses apontamentos me foram lançados no próprio texto, ou através de mensagem, ou via e-mail.
               
Ninguém mandou nada que fosse contra a verdade factual. Cada um fez, a partir de fatos e dados verdadeiros, uma leitura impelida por sua mundividência, assim como, dos mesmos fatos e dados nutri a visão histórica que tenho daquele período.
               
Quando interpretamos os fatos sociais, operamos embebidos em nossos conhecimentos, nossas crenças, nossa perspectiva filosófica, trazendo vieses que construímos através de nossa trajetória intelectual e de nossa experiência de mundo. A ninguém falta isso, mesmo àqueles que se não consideram, em qualquer medida, intelectuais. Está sempre presente portanto o risco de nossa interpretação refletir, no todo ou em parte, as posições preconcebidas sobre o mundo e seus fenômenos sociais.  Esse aparato de que se serve o observador pode perturbar, em maior ou menor escala, o objeto analisado, fazendo-o extrair da análise encetada conclusões não condizentes com a realidade diversa daquela que suas convicções gostariam que fosse, embora mais verdadeiras se mostrassem, se o observador tivesse a necessária isenção para tanto.
               
Não há na língua portuguesa, que me recorde ou me ocorra, uma palavra que bem traduza esse fenômeno. Na língua inglesa há. Os anglófilos usam o termo “bias” para traduzir tal fenômeno, cuja melhor translação para o português talvez seja os termos “viés”, “inclinação”, “tendência”. Assim é que se diz que o viés ideológico do intérprete dos fatos sociais pode estar perturbando a tradução do que seria a verdade factual, substituída por interpretação tendenciosa.
               
Como às vezes tenho dificuldade em ser claro no raciocínio, pelo mau manejo das palavras, gosto sempre de recorrer a exemplos esclarecedores.
               
Assim, como exemplificação e somente para tal fim, examinemos o pretenso papel dos Estados Unidos na tomada do poder pelos militares em 1964. Há teorias não alicerçadas em fatos cabais de que os Estados Unidos teriam incentivado o golpe e teriam aprestado uma esquadra para uma eventual guerra civil.
               
Dificilmente esse país não teria acompanhado com vivo interesse o que ocorreu antes, durante e após o movimento militar. Isso seria a coisa mais natural, principalmente em se tratando, como se tratava, de um aliado da importância do Brasil, além do fato de estar localizado em uma zona de incontrastável influência americana. Mais importante ainda quando se leva em conta o pano de fundo que tratei no texto inaugural desta série, traduzido na luta, em escala global, contra a expansão do comunismo, ou de regimes favoráveis ao fortalecimento do poderio soviético e seus naturais desdobramentos geoestratégicos.
               
O que quero dizer é que um fato que poderia ser encarado com certa naturalidade pelos que temiam a expansão do bolchevismo é visto como um escândalo pelos que torciam pela derrocada do capitalismo e que, por isso mesmo, sempre têm os Estados Unidos como alvo predileto pelo seu papel inegável de líder da democracia e do capitalismo. Verdade ou não, essa hipótese sempre será brandida pelos adversários do movimento militar, mesmo que não tenha influído em seu bom sucesso, sequer tenha sido historicamente comprovado. É como a história das duas pessoas que encontram uma concha gigantesca na praia. Postado de um lado, uma delas diz que ela e côncava, a outra, do lado oposto, diz que é convexa.
               
Meu relato, como disse no início, era uma visão, para mim muito clara, do que se passou. Não poderia em pouco mais de três dezenas de páginas analisar mais de vinte anos de história repletos de fatos e mais fatos que se desdobraram à vista de quem viveu aquele período.

Fui lembrado, por exemplo, com muita razão, não ter abordado as possíveis resistência à tomada do poder. Não o fiz por economia de relato e mesmo porque tal resistência jamais se materializou, ficando somente no campo das potencialidades e daqueles relatos que se traduzem num “poderia ter sido assim”, que mais alvejam um irrealizado desejo. A realidade última é que o poder foi tomado sem a deflagração de um só tiro, um mísero tirozinho, sequer.
               
Alguns apontamentos referem-se a possíveis, mas nunca provados atos de corrupção imputados ao Cel. Mário David Andreazza e ao ministro Delfin Netto, este, alvo do chamado “Relatório Saraiva”, feito por um adido militar, quando Delfim era embaixador brasileiro na França. Por tudo que li, o famoso relatório quedou sem nenhuma demonstração cabal de alguma corrupção praticada pelo então embaixador Delfim Netto. Quanto a Mário Andreazza, nada também se conseguiu apurar, restando provado somente que quando deixou o governo continuou com sua vida modesta de coronel do exército e, uma vez morto, o inventário retratava a modéstia de seu patrimônio. Portanto, não seria eu o instrumento adequado para continuar a espicaçar a memória de um e a biografia do outro. Aliás, nada pode mais incomodar o Delfin do que lhe pespegar, como fiz, o título de criador da híper inflação brasileira, legado do qual jamais ele irá se orgulhar ou admitir sem rebuços. O biombo onde se esconde dessa vergonha sempre foi e sempre será o da crise do petróleo.
               
Ser ingênuo e pensar que nenhuma corrupção houve, jamais. Principalmente uma pessoa que pensa, como penso, que o estado é corrupto e corruptor. Como já advertiu Ronald Reagan “não espere que solução venha do governo, o governo é o problema”. Quanto mais estado, maior a possibilidade de corrupção. Vejam que a corrupção nasce e é cevada nas entranhas do Estado e de suas empresas: Petrobrás, Correios, Caixa Econômica, BNDES, Nuclebrás, Valec, fundos de pensão estatais...
               
Houve anotações sobre o papel da imprensa. Os grandes órgãos deram apoio ao movimento militar, sob o pressuposto de que estavam evitando o mal maior, a implantação de um regime comunista, ou, no mínimo, uma república sindicalista perdida na demagogia e na irresponsabilidade econômica, financeira e administrativa.
               
Dos grandes jornais, só a Última Hora não deu apoio. O Estadão, de quadros conservadores e democratas, como um natural reflexo da família proprietária, os Mesquitas, que lutou bravamente contra a ditadura varguista, deu apoio. O Globo, de propriedade da família Marinho, lançou editorial de apoio entusiástico.
Inclusive, um dileto e sempre atento amigo enviou-me a cópia do editorial. Um jornal de grande expressão, salvo engano o Correio da Manhã, depois do comício da Central do Brasil, ocupou a primeira página com uma manchete de três palavras: BASTA/CHEGA/FORA!, pedindo retumbantemente a deposição de Jango.

Em termos gerais, os meios de comunicação apoiaram por todo o Brasil o movimento militar. Depois do governo Castelo Branco, quando ficou claro que uma ditadura se instalava, o Estadão muda de trincheira e começou, dentro de sua melhor tradição, a resistência democrática. Instalada a censura à imprensa, aquilo que era censurado o jornal substituía por receitas e versos dos Lusíadas, o que dava a todos a senha de que a edição estava sob censura. Enquanto isso, a Rede Globo de Televisão se expandia e a família proprietária colaborava galhardamente com o regime, num processo incessante de enriquecimento de seu império. Assim continuou, até hoje, apoiando todos os governos, com exceção do final do segundo período de governo Fernando Henrique, que não abrira ilimitadamente, como eles queriam, as burras dos bancos estatais, principalmente do BNDES, a juros subsidiados pelos contribuintes, para livrá-los de uma situação de quase derrocada econômica, provocada por errôneos investimentos na Net. Logo que Lula foi eleito, os próceres do novo governo deixavam claro que o socorro à Globo era algo de interesse nacional(!). José Dirceu, por exemplo, deixou isso claríssimo no programa de televisão Roda Viva. Lula, aparentemente um antípoda para capitalistas como os Marinho, ancorou todo um Jornal Nacional, sob o ar embevecido de seu principal jornalista e locutor. Ali se selava um improvável conúbio político.

Presentemente, algo de muito estranho ocorre, pelo seu apoio incondicional à derrubada do governo Temer. Não me parece que isso se dê por questões morais, ou nobre tentativa de restaurar os bons costumes políticos. Negócios da Globo...
               
Fico com a impressão final de que desagradei a quase todos meus caros leitores, ou frustrei suas melhores expectativas. A muitos, defensores do período militar, porque procurei demonstrar que o chamado “Milagre Brasileiro” não passou de medidas tomadas que, mais cedo ou mais tarde, resultariam na reversão do boom econômico; outros muitos, porque considerei o período do governo Castelo Branco o melhor momento da República. Foi uma pena que essa linha de atuação não tivesse sido mantida ao longo do tempo. Se assim fosse, a situação econômica do Brasil teria continuado numa senda virtuosa, como aconteceu no Chile. Os mais radicais devem ter ficado incomodados por ter assoalhado uma verdade para mim inconteste. Trata-se do fato de a motivação da luta armada não ter sido a restauração da democracia no Brasil, mas uma tentativa solerte, quase louca, de implantar o totalitarismo comunista. Entretanto, uma coisa parece que restou patente, não dá para comparar o desempenho do período militar com o da restauração da democracia. No plano econômico, administrativo, moral e do combate à criminalidade aquele período ganha, como sublinhei, de goleada.
               
Mas é assim mesmo, a história das nações é talhada por fatos positivos e negativos. Ao cabo de tudo, o que interessa mesmo é a soma algébrica de tudo isso, que se mostrará positiva, ou negativa, como se diz vulgarmente, “ao frigir dos ovos”.
               
Uma coisa tentei: ser verdadeiro e ter usado ingente esforço em evitar o “bias” direcionando a minha pena. Em dívida e em falta, aqui e acolá, com meus amigos leitores, só me resta desejar:
               
Um bom domingo para todos.
Título e Texto: Pedro Frederico Caldas, 26-10-2017

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Verdades incômodas (1) e a coruja do beiral

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