sábado, 13 de novembro de 2010

O orçamento e os pobres (de Portugal)

DR
Após tanta discussão, polémica, o que verdadeiramente está em causa neste Orçamento que o Governo socialista apresenta aos portugueses e à Assembleia da República é uma ética de governação ou, neste caso, a falta dela. É certo que toda a cultura propagada e assimilada nos últimos tempos, assente na irresponsabilidade, no consumismo e no laxismo, uma cultura do "você quer, você tem", conduziu muitas famílias (e não só) a uma desorganização de vida insustentável. Pode dizer-se que estão a sofrer as consequências. Ou, como digo e ouço, que esta crise e este Orçamento também terão efeitos terapêuticos no País de dependentes em que nos tornámos. Ou que as circunstâncias obrigam a cortes, estes e muitos mais, que o problema é geral e colectivo, nos sacrifícios e nas responsabilidades. Isto é verdade mas não impede uma distribuição tão equitativa quanto possível dos sacrifícios, antes a recomenda. Nem justifica que um Estado obeso e improdutivo queira manter essa prerrogativa à custa dos que não têm defesas de qualquer espécie.

Dilma Roussef: anatomia de uma vitória


As eleições presidenciais no Brasil exigiram um segundo turno para que produzissem, afinal, uma vencedora. Dilma Rousseff, a candidata do Presidente Lula, cumpriu com tranquilidade mais essa exigência e será a primeira mulher a governar o Brasil. Há quem atribua esse título à princesa Isabel, que, como regente, governou o país durante as viagens de seu pai, o imperador D. Pedro II, mas o país, no final do século XIX, era uma monarquia parlamentar e tinha um primeiro--ministro. Mesmo falha, a comparação ajuda, entretanto, a compreender correctamente a eleição de Dilma Rousseff: mais uma continuidade disfarçada de mudança tão ao gosto da política brasileira.
A mera realização de um segundo turno, por exemplo, foi decisiva para corrigir certas dissonâncias geradas pelo optimismo das primeiras semanas de propaganda eleitoral na televisão. O comando de campanha de Dilma, antes concentrado em algumas poucas lideranças do PT, foi levado naturalmente a restabelecer contacto com os partidos e lideranças aliadas. A sombra da derrota recompôs relações diluídas no primeiro turno, e o candidato a vice-presidente, deputado Michel Temer (PMDB-SP), fiador da aliança do Governo com o centro político, voltou a aparecer em eventos públicos e nas manifestações da candidata presidencial.

A velha e a sabedoria


As televisões procuravam saber o que as pessoas pensavam dos apertões que o Orçamento previa e propunha. A resignação ou a indiferença resignada, como queiram, pareceu-me ser a nota dominante. Eis que a câmara fixa a velha. A velha semelhava uma personagem de Raul Brandão: só osso, susto e dor. Transfigurada de ventos, de afrontas, de insultos. A pergunta da jornalista sobressaltou-a. Talvez a entendesse como estranha e excessiva. Olhou a rapariga, ergueu o dorso curvado, recuperada uma antiga dignidade, e respondeu: "O que eu queria é que eles me deixassem em paz."
Eles. A abstracta identidade dos que nos mandam, nos julgam, nos submetem, nos mentem, e reescrevem, permanentemente, o nosso destino. Aquela velha seca e altiva, despertada, por uma pergunta inofensiva, para a responsabilidade de ter opinião, era a representação de uma nobreza e de uma decência que temos vindo, lentamente, a perder.
A velha não aceitava; a velha não admitia que fizessem dela o troço reles e desprezível de um aglomerado amorfo, ao qual tudo se faz e tudo se aplica. "O que eu queria é que me deixassem em paz." Mas, como a não deixavam em paz, ela reagia impelida pela raiva da impotência e pelo protesto que a debilidade não conseguiu aniquilar.

Potenciar o caos

O preço inegociável da democracia é a constante vigilância. Nunca este princípio, estabelecido sobre milhões de vítimas às mãos de variados totalitarismos, teve aplicação tão actual. Assistimos a uma revoada de encomendas armadilhadas contra sinagogas nos EUA, contra os gabinetes do Presidente da França ou da chanceler da Alemanha, contra várias embaixadas em Atenas. A rede global de organizações federadas na jihad islâmica tenta, uma e outra vez, disseminar a morte e o terror indiscriminados nas capitais ocidentais, semeando o caos, ao mesmo tempo que ataca civis indefesos em vários países do Terceiro Mundo só pelo facto de serem cristãos. Isto é, por professarem a fé dos alegados novos cruzados ocidentais.
O tempo, o modo e os alvos destas acções nada têm de casual. Na situação de profunda crise económica e social que se vive nos países desenvolvidos os jihadistas procuram tirar partido do descontentamento e da contestação reinantes para potenciar o caos. Os grupos de acção directa de cunho mais ou menos anarquista sempre seguiram a mesma táctica, sem terem jamais conseguido provocar a revolta triunfante das massas. Os guerrilheiros da restauração do califado sabem bem que a sua luta é de fôlego longo e que não podem esperar a derrocada catastrófica do império do Ocidente à imagem da implosão da URSS, que, segundo os seus delírios interpretativos, se deveu aos golpes que lhe foram desferidos pelos mujaedines no Afeganistão.
Quanto àquilo que as sociedades como a nossa defrontam, não pode haver ilusão: eles não vão desistir tão cedo e as sociedades democráticas têm de cooperar sem descanso entre si, para poderem, um a um, fazer fracassar cada novo ataque, que sobre elas se abaterá impiedosamente.
Editorial, Diário de Notícias, 03-11-2010

Segredos para vencer campanhas



Aníbal Cavaco Silva
Suspeito que antes de anunciar que vai poupar na campanha eleitoral, nomeadamente em cartazes colados no exterior, o Prof. Cavaco Silva leu o estudo do sociólogo norte americano Frank. L. Luntz, divulgado há uns dias pela Time online. É que o especialista andou durante oito meses pelos EUA, com um computador cheio de imagens dos anúncios da campanha eleitoral de 2010, para concluir que apenas 1% das mais de 10 mil campanhas dos diferentes candidatos teve algum impacto no sentido de voto dos norte americanos.
Do trabalho feito, Frank Luntz tirou, no entanto, algumas lições, que podem ser úteis aos nossos candidatos. Infelizmente, as lições são bastante previsíveis, e revelam que os eleitores, deste ou daquele lado do Atlântico, caem que nem patinhos na demagogia fácil. Mas pronto, são essas as regras do jogo, e quem quer ganhar deve segui-las com o máximo de perspicácia. Luntz percebeu que, ponto um, os americanos odeiam os políticos, e por isso tendem a gostar dos políticos que afirmam odiar políticos. “Eu já estou farta de políticos que se atacam uns aos outros, e você?”, foi um dos slogans preferidos entre os inquiridos neste estudo.
Ponto dois, detestam o “establishment”, representado por Washington. Em ano de crise, lá, como cá, as palavras de ordem que melhor funcionaram foram as que pediam o congelamento dos ordenados dos congressistas e o fim dos seguros de saúde dos “deputados”, até que fizessem frente aos abusos das companhias de seguros.
Luntz percebeu, ainda, que os candidatos que se deixam filmar de perto, com rugas e sinais à vista, inspiram mais confiança aos eleitores, porque dão ideia de que não escondem nada. E, finalmente, que se tornam populares, os que se dizem dispostos a fazer sacrifícios equivalentes ou maiores do que os eleitores. Descoberta a fórmula, agora é pô-la em prática, jurando sempre que se gasta menos do que o adversário, claro.
Isabel Stilwell, Destak, 02-11-2010

O Sr. da Silva quer reintroduzir a CPMF (e outros assuntos)

Peter Wilm Rosenfeld
Mais uma vez sinto necessidade de abordar diversos assuntos.
Os últimos dias foram plenos de acontecimentos ou de notícias desagradáveis, tristes mesmo; não poderia deixá-los em branco. Ei-los:

MONTEIRO LOBATO – Nosso maior escritor de livros infantis, de repente, é considerado impróprio para a língua portuguesa e, por isso, deve ter seus livros censurados.
Livros que várias gerações (inclusive eu) leram sem qualquer problema; que todos os brasileiros adoraram em suas infância e juventude, de repente são julgados ofensivos, por alguns brasileiros (?) absolutamente ignorantes de tudo e de mentes doentias!
Como o ainda Presidente da República, Sr. da Silva, nunca leu nada na vida, não tem condições de avaliar essa recomendação (é triste constatar isso sobre a mais alta autoridade brasileira, mas é real!).
O Ministro da Educação (que nome errado; educação se recebe em casa. Na escola, as pessoas recebem instrução, ensino; mas vá lá), felizmente, não concordou e o assunto talvez morra aqui. Mas não posso me conformar que os integrantes desse Conselho ou que nome lá tenha, ainda não tenham sido exonerados e o próprio Conselho extinto!
Quem censura é o leitor, comprando o livro ou deixando que mofe na editor! O leitor sempre terá melhor bom senso do que qualquer outra pessoa.
Já está demonstrado que todos esses “conselhos” governamentais são daninhos e contrários aos reais interesses da sociedade. Por isso, nem deveriam existir. Mas os burocratas de plantão não tomam jeito mesmo!!!

Voando do Rio de Janeiro para São Paulo

Aeroporto de Congonhas, 1959, foto: Rodolfo Waltemath

Ponte Aérea Rio de Janeiro (Santos Dumont)/São Paulo (Congonhas) nos Electras L-188. Vídeo de Moacir Schneider, janeiro de 2007:


Colaboração: Cristina Freitas

Nova espécie de macaco descoberta na Birmânia espirra à chuva

Uma equipa internacional de primatólogos descobriu uma nova espécie de macaco no Norte da Birmânia. O animal, cujo nariz virado para cima o faz espirrar à chuva, já é considerado ameaçado por só existirem entre 260 e 330 indivíduos.
 Fauna & Flora International/Reuters

A descoberta, publicada na revista “American Journal of Primatology”, revela como oRhinopithecus strykeri - no dialecto local é chamado "mey nowoah", ou seja, "macaco com uma cara virada para cima" - tem as narinas viradas para cima, o que faz com que espirre quando chove.
Esta nova espécie foi encontrada no início deste ano por uma expedição realizada no âmbito do Programa de Conservação de Primatas na Birmânia, liderada pelo biólogo Ngwe Lwin, da Associação birmanesa de Conservação da Natureza e Biodiversidade e apoiada pela Fauna & Flora International e a Fundação People Resources and Biodiversity.
Thomas Geissmann, coordenador da descrição taxonómica da espécie, descreve o macaco como tendo o pelo quase totalmente preto e uma cauda relativamente longa, aproximadamente 140 por cento do tamanho do seu corpo.

História de amor pode acabar mal

Nos próximos quatro anos, o que vai suceder ao beijo casto que Lula deu na testa de Dilma? Sim, o criador criou a criatura. Mas isso é Proto-História. A questão é: e agora? Lula não se reelegeu porque não podia ter três mandatos seguidos; mas em 2014 ele está pronto para outra. E a outra, Dilma, deixa? Vamos ver a História. O herdeiro natural de Júlio César era Marco António. Depois de César ser apunhalado, é o discurso de Marco António que derruba os assassinos - mas é Octávio, o filho adoptivo de César, que toma o poder... Na Revolução Francesa, a ambição de Paul Barras levou-o a mandar a amante, Josephine, fazer olhos bonitos a um jovem general útil - mas este, Napoleão, ficou-lhe com a amante e o poder. Salazar criou Marcelo e, depois, cortou-lhe as asas; Marcelo teve de esperar a cadeira quebrada. Chirac e Balladur, Blair e Gordon Brown, a história de combinações de partilha pessoal de poder acabam sempre mal. No jornal O Globo, leio que Getúlio Vargas fez circular a ordem em 1945: "Votem em Gaspar Dutra." Getúlio queria candidatar-se da vez seguinte. Mas Dutra gostou tanto que queria repetir, o que só não aconteceu porque o Brasil, perdendo o Mundial em casa, em 1950, culpou o Presidente - e Getúlio ganhou. Dilma já sabe: se não devolve o poder em 2014, Lula vai para a bancada torcer para que o Brasil volte a não ganhar o Mundial em casa.
Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 02-11-2010 

Lula e Dilma Roussef

Como fazer os ricos pagar a crise


A pantominice a que assistimos a semana passada entre o PS e o PSD acerca da aprovação do Orçamento do Estado resume-se numa discussão agiota sobre a melhor maneira de sacar dinheiro aos pobres, condenados sem apelo a pagar a crise dos ricos.
Nem José Sócrates nem Pedro Passos Coelho discutem o fundamento da questão, presos, por um lado, à sua convicção ideológica de que falar em economia de mercado é o mesmo que falar em especulação financeira e, por outro lado, amarrados à dependência do eixo Paris-Berlim que o provincianismo crónico e a pedinchice acumulada de subsídios à União Europeia atou em torno dos líderes portugueses. Estão, portanto, juntos num programa de solução da crise que passa por aumentos de impostos sobre a classe média, aumento de desemprego, redução de salários na função pública, redução perigosa da actividade do Estado e paragem das obras públicas. Variam as quantidades dos ingredientes da receita, mas o prato que servem é o mesmo.

Eleições presidenciais 2010: comentários de Peter Rosenfeld

Peter Wilm Rosenfeld

Terminou o processo eleitoral. Nós, o povo, decidimos quem deve dirigir os destinos do Brasil nos próximos quatro anos, a partir de janeiro próximo.
Decidimos bem? Decidimos mal?

Realmente, isso só o tempo nos dirá. O importante é que cada um votou como quis, com toda a liberdade e sem qualquer coação ou ameaça. Vejam bem: Votou!

O que aconteceu antes, foi algo que “nunca antes neste Pais aconteceu desde seu descobrimento”, como diria a lamentável figura do Sr. da Silva, que foi um vergonhoso cabo eleitoral, infringindo todas, absolutamente todas, as regras de decência, de moralidade, de sobriedade, que a Presidência da República deveria observar.

É claro e evidente que esse comportamento influenciou milhares ou milhões de votantes que, mesmo analfabetos e ignaros, têm direito a votar, nos termos de nossa Constituição de 1988.
Mas não têm o direito de serem votados (CF, Art.14,§ 4º), para azar do palhaço Tiririca, que foi o mais votado dos candidatos à Câmara Federal em São Paulo.

Apesar de ter afirmado linhas acima que só o tempo dirá se o povo votou bem ou mal, penso que cabe uma reflexão, ou tentativa de análise, da votação.

Antes disso, porém, é justo dizer que as empresas que previram o resultado da eleição, tão criticadas e condenadas por suas previsões, no final das contas não erraram. A vantagem da Sra. Rousseff sobre o Sr. Serra foi ampla e folgada, como prevista pelos Ibopes da vida. O que parecia absurdo foi realidade.

Eis o presidente do qual o Brasil estará livre em 2011

Sem comentários...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A pedagogia de Antonio Gramsci

Antonio Gramsci

Não tenho dúvidas de que Karl Marx é um dos filósofos mais vivos nos nossos dias, pelo menos na realidade cultural brasileira. Podemos não viver num regime comunista, mas ainda assim não é difícil identificar a influência velada que o marxismo exerce nos veículos de comunicação, nas ciências humanas e, até mesmo, na exegese das Escrituras Sagradas, ou seja, sua influência viva no campo ideológico. Destarte, eis o motivo pelo qual eu escolhi o teórico marxista Antonio Gramsci para analisar sua pedagogia (este artigo faz parte de um trabalho para a disciplina Fundamentos da Educação). Gramsci foi um grande responsável pela difusão do marxismo no campo ideológico, como já dissemos acima, e isso inclui a disciplina da Pedagogia. Portanto, nada mais perninente é à nossa realidade do que a análise do pensamento gramsciano.
Nascido no final do século XIX, na Sardenha, Antonio Gramsci foi um dos grandes teóricos da Esquerda. Foi jornalista, escritor, teórico e político italiano e um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Tendo sido um bom estudante, Gramsci venceu um prêmio que lhe permitiu estudar literatura na Universidade de Turim. A cidade de Turim, à época, passava por um rápido processo de industrialização, com as fábricas da Fiat e Lancia recrutando trabalhadores de várias regiões da Itália. Os sindicatos se fortaleceram e começaram a surgir conflitos sociais-trabalhistas. Gramsci frequentou círculos comunistas e associou-se com imigrantes sardos.
Sua situação financeira, no entanto, não era boa. As dificuldades materiais moldaram sua visão do mundo e tiveram grande peso na sua decisão de filiar-se ao Partido Socialista Italiano. Esta é uma característica comum aos mais ávidos comunistas: um passado menos favorecido.

Cleia Carvalho escreve carta aberta

Cleia Carvalho
Eu sei que sou criticada, mas ninguém me fala quem são estas pessoas e muito menos contam quais são as críticas. Eu gostaria de dizer à estas pessoas que botem a cara para bater como eu. Eu dormi em aeroporto, tomei  banho de água fria debaixo da porta de banheiro no aeroporto. Implorei para não pagar ônibus em Brasília, mostrando ao motorista o peso de milhares de cartas que eu iria entregar pessoalmente aos políticos.  De tanto vai e vem entre aeroporto e o Congresso Nacional  me tornei conhecida dos motoristas que deixavam eu andar de graça. Quebrei um dente da frente comendo um pastel que era o meu almoço naquele dia. Como era feriado só encontrei uma clínica de pronto socorro particular. O pastel  custou um real e paguei R$ 300,00 para colocar um dente, tudo isso para não interromper o meu trabalho em prol do Aerus. Fiquei uma semana pregada em uma cruz debaixo de sol quente, e a noite dormindo no gramado gelado passando um frio do cão. Sim, eu dormi lá para que não arrancassem a cruz, porque a Polícia Federal me disse que iriam tirar. E eu os enfrentei. Como não estava aguentado mais a insegurança no gramado, eu pedi socorro ao Senador Paulo Paim à meia noite através do celular dele, e também pedi socorro na aeronáutica e fui atendida.

José Mestre - o homem sem rosto

José Mestre, Lisboa, 2007

Fernanda Câncio
A primeira vez que o vi achei, lembro-me bem, que estava a ver mal. Foi, creio, na rua 1º de Dezembro: uma figura escura, ao longe, um rosto indistinto, inquietante, talvez uma sombra, que estranho, o que é aquilo, uma máscara?, até perceber que era, sim, afinal, a cara de uma pessoa, uma cara monstruosa, lancinante, da qual o olhar se desviava, em pudor e calafrio, até poder duvidar de novo – vi bem? Era mesmo uma cara? É mesmo assim?

Sim, era assim mesmo. Voltei a vê-lo, uma, outra vez. A confirmar o terror daquela condição, a dúvida – como respira? Como fala? Como come? Como vê? Passei a procurá-lo, ao passar, como mais um marco da Baixa – como o homem dos cães brancos que coloria a rua Augusta ou aqueloutro que ajoelhava, tronco nu, cabelo desgrenhado e barba, mártir oferecido à esmola. Romanceavam a minha cidade – imaginava-lhes a história, o percurso até chegarem ali, até este conto de McCullers, esta novela de McCarthy, esta personagem de Auster. Pensei entrevistá-los, cotejar a minha ficção com a deles. Abordei o homem dos cães brancos. Contou-me muitas coisas. De onde vinha, porque estava ali todos os dias, porquê só cães brancos. Mas não me deu autorização para as escrever. “Não estou interessado”, disse.

O Brasil faz história (DN)


No Diário de Notícias, 1º  de novembro de 2010:
A eleição, ontem, no Brasil de Dilma Rousseff faz história: primeiro que tudo porque a candidata apoiada pelo Partido dos Trabalhadores é a primeira mulher a chegar à presidência do gigante lusófono. Como afirmava um cartaz no hotel de Brasília onde se preparava a sua festa da vitória, "O povo decidiu. O Brasil vai seguir mudando com Dilma, nossa primeira Presidenta"; mas faz história também porque o sucesso da era Lula, o metalúrgico que soube manter a prosperidade económica mesmo apostando forte na justiça social, foi reconhecido pela sociedade brasileira, que elegeu a sua delfim como continuadora do sonho de construção de um país mais justo; e como se não bastasse, fez-se também história porque contra Dilma se apresentava José Serra, o homem que Lula da Silva derrotou em 2002, um político social-democrata de grande nível intelectual e objectivamente também defensor de um Brasil próspero e solidário, ou não tivesse ele sido ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso, o Presidente que preparou o terreno que permitiu o êxito de Lula.

O poeta e o cabo eleitoral


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de uma cerimônia de lançamento de um navio na Ilha do Governador (RJ). 
Indagado se usava as inaugurações para fins eleitoreiros o presidente, como sempre, negou, como negou todo o sempre sobre todas as irregularidades em seu governo.
"Para que você governar, se você não pode entregar as coisas boas e só participar das coisas ruins?", indagou Lula. Segundo o presidente, ao contrário dele, o "adversário" na disputa presidencial "não deve ter muita coisa" para inaugurar.
Aumentando sua ironia, acrescentou: "Acho que nosso adversário, que foi governo até outro dia, tem coisa para fazer. Ele deve estar inaugurando. Não deve ser muita coisa, mas cada um nada com a profundidade do seu mar. Eu tenho até 31 de dezembro para inaugurar obras e podem ficar certos que vocês vão se surpreender quando vocês verem o que está sendo feito". Tal afirmação denota total ignorância já que candidato não pode participar de eventos oficiais como inaugurações de obras.

Não é, afinal, a morte, a coisa mais natural?

Característica essencial do nosso tempo é fazer da morte tabu, talvez o último tabu. Nunca tinha acontecido na história da humanidade.
De qualquer modo, as nossas sociedades ainda mantêm dois dias por ano (1 e 2 de Novembro) em que permitem a visita dos mortos. Os cemitérios enchem-se e as pessoas ali estão ou por ali andam, numa recordação, talvez numa prece, num choro íntimo ou exteriorizado, e interrogando-se sobre o mistério da morte, esse mistério absolutamente opaco e laminante.
A morte põe-nos em confronto com o nada e abala-nos desde e até à raiz. Martin Heidegger foi o filósofo do século XX que levou mais fundo o pensamento sobre a morte. O homem é o ser da possibilidade, o existente para quem no seu ser a questão é esse mesmo ser, isto é, a quem o seu ser é dado como tarefa, como poder ser. Ora, a morte é a sua possibilidade "mais própria", pois é a que mais o caracteriza, "irreferível", pois corta a relação com tudo o resto, remetendo-o para si próprio, "intranscendível", pois, enquanto possibilidade da impossibilidade, é a possibilidade extrema, a que se não pode escapar. A tentação permanente é distrair-se e não assumir a morte como essa possibilidade mais própria, irreferível e intranscendível, escapando-lhe pelo palavreado, pelo recurso ao "toda a gente morre", mas não propriamente eu. O homem cai então no esquecimento de si mesmo e perde-se numa existência inautêntica.

Portugal desce para 26º lugar no Índice de Prosperidade


Portugal perdeu uma posição no índice global elaborado pelo Instituto Legatum, que tem em conta o crescimento económico e a qualidade de vida dos cidadãos de 110 países.

A Noruega mantém-se na liderança desta tabela, seguida pela Dinamarca e pela Finlândia.

No caso de Portugal, entre os diferentes sub-índices que servem de base para a posição de cada país no ranking global, é na “segurança” de livre expressão que o país está melhor, na 17ª posição: “Os portugueses têm geralmente segurança para expressarem livremente as suas opiniões”, salienta o relatório hoje divulgado.

Já no que respeita à “economia” (40º lugar) e ao “capital social” (63º), Portugal fica pior situado. No primeiro caso, o instituto sublinha que a economia é “moderada” e que “os portugueses temem pelo seu futuro”. Quanto ao “capital social”, o relatório destaca que “para além do casamento, os portugueses têm fracos laços sociais”.

O instituto Legatum chama também a atenção para a diferença cada vez maior entre os países do Norte e do Sul da Europa, entre um “Norte próspero e um Sul que está económica e socialmente fracturado”.

No caso de Portugal, Itália, Grécia e Espanha (designados por PIGS), o Legatum Institut adverte para os “problemas económicos combinados com uma governação pobre e uma falta de sentimento de bem-estar entre os cidadãos” destes quatro países.

“De facto, os PIGS e os países bálticos correm o risco de serem deixados para trás por países em posição ascendente como a República Checa, a Eslovénia e a Hungria, que estão a tornar-se rapidamente mais prósperos”, acrescenta a mesma entidade.

O instituto faz parte do Legatum Group, uma organização privada de investimento nos mercados de capitais internacionais e na promoção do desenvolvimento sustentável, adianta o mesmo documento.
Título e Texto: Inês Sequeira, Público 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Profissões socializantes


Um amigo meu, estudioso, empreendedor e crítico (discreto) como poucos, considera que o país foi assolado por três novas categorias profissionais: o pobre, o gestor do espaço público e o político.
O pobre profissional tem habitação social e recebe diversos subsídios. O mesmo Estado Providência que cuida dele deixou que se desenvolvesse o gestor do espaço público - que é o arrumador de carros (domina o espaço e controla os danos nos automóveis estacionados)
O político profissional é aquele que nunca fez mais nada e que pode atingir o melhor momento da sua vida quando identificado com uma função política antes de qualquer habilitação académica ou técnica.
Qual é a sua profissão? Deputado. Quem é aquele senhor? Ex-ministro. Que conhece do país um político que defende e é protegido pelo Estado Providência?
Um idealista não precisa de ser político profissional - se um idealista é um homem que ajuda os outros a prosperar (como o definiu Henry Ford, 1892-1976, o fabricante de automóveis que idealizou um carro para todas as bolsas), e não a criar pobres profissionais. Um político profissional não sabe o que é um homem desejoso de trabalhar, e que não consegue encontrar trabalho, naquele que talvez seja o espectáculo mais triste que a desigualdade ostenta ao cimo da terra - como observou o ensaísta Thomas Carlyle (1795-1881).
O pobre profissional nunca se mostrará grato a quem o sustenta e jamais compreenderá a indizível situação de muitos que, depois de viverem bem ou remediadamente - pelo trabalho -, dissimulam a verdadeira pobreza. Com uma dignidade superior às três novas categorias profissionais que põem em grande aflição Portugal.
Alfredo Barbosa

O rei vai nu


No que toca ao sexo, vivemos um tempo doentio. A ausência de regras é a única regra admissível, o prazer é o propósito absoluto e todas as formas de o obter, por mais aberrantes, são equivalentes.
O comportamento marialva e devasso são hoje a norma e esta ditadura cultural é esmagadora. Anúncios comerciais, programas escolares, séries juvenis, literatura erudita e investigação pseudo-científica, tudo impõe a atitude dominante, que antes só se ouvia em tabernas e prostíbulos.
Esta ideologia hedonista e irresponsável (dê-se-lhe o nome que sempre teve: porcalhona) é não só popular mas apregoada a níveis oficiais. Especialistas, pedagogos e psicólogos dedicam a carreira a promover nos jovens um deboche higiénico.
Isso é que é saudável! Até o Governo, embrulhado em crises insolúveis, arranja tempo para repetidamente regulamentar a fornicação dos seus súbditos.
Só existe uma posição inaceitável: a defesa da castidade, pureza e temperança, que é dominante em todas as épocas e culturas, excepto hoje no Ocidente. Defender a decência é «conservador» e constitui o supremo pecado.
Qualquer observador imparcial vê que isto não pode ser sensato ou sustentável. A história regista casos paralelos de cegueira ideológica, com gerações obcecadas temporariamente por uma posição extremista e desequilibrada, embora raramente em tema tão nuclear.
Esta é a lição da genial história do jovem Hans Christian Andersen (1805–1875), As Roupas Novas do Imperador, publicada a 7 de Abril de 1837 em Copenhaga. Mas aqui a nudez do rei é mesmo pornografia.

FinalMENTE

Peter Wilm Rosenfeld
No dia 31 de outubro, chegamos ao final do processo eleitoral em que elegemos (a) Presidente da República.
Penso que o processo eleitoral foi o mais sujo e desleal que já vivenciei em meus não poucos anos de vida.
Talvez não tenha sido muito diferente de tantos outros, exceto por um fato realmente vergonhoso, que nunca tinha ocorrido antes: a ativa e ostensiva participação do Presidente da República, agindo como cabo eleitoral de um dos candidatos, no caso uma candidata.
De nada adiantaram os alertas de políticos, da imprensa e da sociedade em geral; o Sr. da Silva se “lixou” para tudo e para todos, não deu ouvidos sequer à Justiça. Infringiu todos os mandamentos, regras e normas do País para fazer propaganda de sua candidata que, aliás, foi por ele escolhida, sem ouvir seu partido.
Dois fatos absolutamente “nunca antes” ocorridos: a imposição, pelo atual Presidente,  ao próprio partido e aos aliados do nome da candidata sem que houvesse qualquer processo de seleção e a participação ativa na campanha eleitoral, alegadamente sempre fora do “horário do expediente”.
Que o partido, humilde e servilmente, tenha aceito a imposição da candidata demonstra o quanto falta qualquer resquício de orgulho ou amor próprio aos filiados.
E indica que, se a candidata vier a ser eleita, na realidade estará sendo escolhido o Sr. da Silva, para um terceiro mandato, que exercerá talvez sem algumas mordomias.
Voltando à campanha  eleitoral foi, de todas as em que participei, a campanha em que mais mentiras foram ditas e alardeadas pela candidata e pelos integrantes dos partidos que a apoiavam.
Aliás, para um partido que, através do Presidente, mais mentiu à população, isso já seria de esperar.  O Sr. da Silva tornou-se, pela voz do povo, o PresiMENTE, e a candidata, se eleita ou não, já mereceu o apelido de DilMENTE, aliás, com toda a justiça...
Estamos chegando ao fim do governo do Sr. da Silva e podemos vislumbrar, além da farsa dos dois Planos de Aceleração do Crescimento, outras prestidigitações de tipo idêntico e, mais grave, a quase certeza de que o funesto  3º Plano Nacional de Desenvolvimento Humano será imposto à sociedade.
Sou levado a essa conclusão pelas recentes demonstrações de fidelidade ao comunismo às antigas, a saber:
- A recente reunião da elite (?) do comunismo brasileiro, em um teatro do Rio de Janeiro, presentes desde o macrobiótico arquiteto Oscar Niemeyer até jovens e ignaros artistas,  auto-designados a nata da  intelectualidade e dos artistas brasileiros.
- Outra reunião, essa em Curitiba (PR), com a participação do ainda governador paranaense Roberto Requião, do ditador venezuelano Hugo Chávez, do líder do MST João Pedro Stédile, além de tantos outros, em que o comunismo foi exaltado e anunciado como estando próximo de ser introduzido no Brasil;
- A manutenção do 3º Plano Nacional de Desenvolvimento Humano, introduzido no País por decreto no final do ano passado, jamais revogado ou alterado. Todos seus idealizadores e patrocinadores continuam atuando em suas sinecuras, prontos para dar o bote ao primeiro sinal de fraqueza ou de descuido da sociedade.
Podemos ter certeza de que uma eventual continuidade do governo do PT e de seus satélites nos levará às trevas do comunismo.
Aliás, é o que está pouco a pouco acontecendo nas Américas do Sul e do Centro !
Por enquanto, o Brasil tem conseguido fugir disso, por ainda ter uma imprensa livre e rejeitar toda e qualquer espécie de censura. Mas o velho ditado de “água mole em pedra dura...” acabará mostrando ser verdadeiro e o País mergulhará no período mais negro de sua nem tão longa existência.
Há muitos anos formei a convicção de que se o comunismo vier a ser introduzido no Brasil, começará seu fim definitivo ! Isso porque o brasileiro, gaiato como nenhum outro povo, desmoralizará a esquerda, com isso levando-a a seu fim definitivo. E não estou gracejando !
Como isso levará algum tempo, posso vislumbrar dias negros e difíceis para nosso povo. E não se diga que foi algo sorrateiro. Está acontecendo abertamente, só não o vendo os que querem ser cegos
A cor vermelha está sendo cada vez mais usada nas camisas trajadas por brasileiros, inclusive e principalmente pelo Sr. da Silva e sua eventual sucessora. É a cor de nosso sangue.
Basta lembrar como era a vida nos países do antigo bloco comunista, inclusive na Alemanha Oriental. E é estranho que gente jovem esteja imbuída da crença na esquerda. Certamente não estudaram a história recente.! Não posso crer que pensem que “o Brasil é diferente e que nossas liberdades serão preservadas”! Isso não existe em regimes comunistas (pelo menos não existiu até agora. Vide Cuba, aqui perto, Coréia do Norte lá do outro lado do mundo). Esses regimes, além disso, são longevos. Não terminam de um momento para outro !
Espero que, nesses últimos dias de campanha, a oposição atue de maneira inteligente (o que não fez até agora) e consiga convencer a população de que o vermelho não serve para nós. 
Peter Wilm Rosenfeld
Porto Alegre(RS), 27 de outubro de 2010

O meu computador voltou. Eu também!


A tecla “espaço” ficou meio solta, só funcionava quando lhe apetecia. E não lhe apetecia sempre… Um saco, né? Aí, como estava (está) na garantia (que em Portugal é de dois anos, independentemente do que rezem os contratos e as “garantias”) levei-o à Media Markt. Quinze a vinte dias para o conserto…
Depois, quer dizer, no dia seguinte, me arrependi de tê-lo levado, pois me lembrei que não iria “participar” da reta final da eleição presidencial brasileira…
Enfim, o “pior” já passou, well… Portanto, eis-nos de volta, a máquina e eu; ela, com um teclado novo, eu, com dezenas de “recortes”, notas e apontamentos… Muita coisa a fazer: responder e responder, a e-mails, escrapos, mural, comunidades… e atualizar este singelo e irrequieto blogue.
Vamos nessa!!

A seguir, ou em cima, você lerá artigos, crónicas e intervenções sobre o recentíssimo processo eleitoral brasileiro. Não se surpreenda. Não são novos, é verdade. Mas são atuais. E estampam a minha opinião.
Boas leituras!