terça-feira, 11 de julho de 2017

[Aparecido rasga o verbo] Produtos escassos

Aparecido Raimundo de Souza

A JOVEM ENTRA SILENCIOSA, na lanchonete, quase sem ser percebida e, antes de se sentar num dos vários banquinhos, com mesinhas redondas ao longo do salão, se dirige com um sorriso largo no rosto ao homem com um avental branco e bolinhas da mesma cor que se encontra em pé, atrás do balcão.

- Boa tarde. Um refrigerante, por favor.
- Desculpe, só temos sucos. Pode ser?
- Está bom. Prepara um de manga. Pouco açúcar e sem gelo.

- Posso substituir a manga por maracujá?
- Por quê? A manga não está boa?
- É que... acabou. Desculpas, por não poder atender a seu pedido.
- Fazer o quê, não é? Que seja!

O homem dá meia volta e some atrás de uma porta vai-e-vem. Retorna um segundo depois.

- Vou ter que pedir desculpas novamente.
- O que foi desta vez?
- O maracujá também foi pro brejo.

- Como foi pro brejo?
- Acabou. Antes das onze. Não tivemos como repor o estoque.
- Esquece o suco. Traga, por gentileza, uma bananada. De morango.


- Como disse?  Perdão, senhorita, não existe bananada de morango.
- Claro que existe.
- Bananada?

- Sim!
- Nunca vi no mercado bananada sabor morango.
- Como não? Estou cansada de comer...

- Desconheço. Aliás, nunca ouvi falar ou dizer que fabricassem. Estou nesse ramo de comércio, tocando lanchonete há mais de 15 anos. Sinceramente...
- Desculpe a insistência. O senhor não está atualizado. Deixa pra lá a bananada. Qual o lanche mais rápido do seu cardápio?

O sujeito arreganha a boca num sorriso que vai de um canto a outro da orelha.
- Lanches. Uma infinidade deles. Veja o cardápio afixado ali naquela parede. O que a senhorita quiser. É só pedir.
- Ummm!... Me veja um misto quente...

A alegria do cara se fecha imediatamente como se alguém tivesse lhe aplicado um tremendo soco na boca do estômago e ele se trancasse, assediado pela dor repentina.

- Preparei o derradeiro para aquela senhora ali naquela mesinha.
- Salgadinhos?
- À vontade... veja. Temos um leque bastante grande...

- Menos mal. O que sugere?
- Depende do que realmente queira colocar no estômago.
- Uma coxinha, um pastel de carne, ou de queijo, um quibe frito...

- Estamos sem sorte. O garoto que faz a entrega caiu da bicicleta e se ralou todo. Dois dias sem dar o ar da graça. Estou, inclusive, à cata de outro fornecedor.
- Não acredito! Que falta de sorte!
- Verdade!
- Então, qual a sua decisão? 

De novo, vou pedir que me ajude.

- Pão de queijo. Quer experimentar? Acabaram de sair do forno.
- Uauuuuuuu...
- Boa escolha, pode acreditar. Quantos?
- Traga dois.

O cidadão se retira, passa novamente pela porta vai-e-vem e retorna coçando a cabeça em sinal de desalento.

- A senhorita só pede o que não temos...
- Meu Deus! Não é possível. O que houve com os pães de queijo?
- A moça que os faz acabou de entrar para o banho. Seu horário laboral acabou de acabar. Agora, só amanhã...

- Pastel. Isso. Traga depressa que estou morta de fome.
- Agora sim. De queijo, carne ou frango?
- Carne. Vê logo uns três. 

- Parece brincadeira, filha, só tem de galinha. E como pode ver, se olhar ali na vitrine, sobrou só um.
- Dos males, o pior: fico com esse.

O infeliz passa a mão em dois guardanapos e se encaminha até um compartimento ao lado da porta vai-e-vem. Todavia, se desconsola ao olhar para o tal pastel. Por questão de segundos, permanece sem ação. Olha para a cliente como um paspalho idiota.

- Querida, estamos realmente sem sorte. Sinto muito. Sinto mesmo. Me perdoe. Vou ficar lhe devendo mais essa... que lástima!
- Estou vendo o pastel daqui. Manda esse.
- Não posso.

- Por que não pode?
- Está frio e uma mosca... está pousada... sugiro...
- Sugere o quê? Fale?

- Perdão. Nem sei aonde meter a minha cara.
- O senhor tem banheiro?
- Temos ali no final do corredor. O feminino está interditado. E a minha funcionária está, neste momento, no dos cavalheiros.
- Que pena!
- Por quê?
- Ia sugerir ao senhor enfiar a cara dentro dele e dar descarga.

- Perdão. Pelo amor de Deus, mil desculpas. A senhorita não menciona o tamanho da minha vergonha.
- Vergonha, o senhor, por acaso tem vergonha?
Risos.

- Claro. E muita. Ainda mais nessa situação...
- Pois não parece ter nem um pingo. Se tivesse, arriaria as portas desta espelunca e sairia a caçar outra coisa para fazer.   

A jovem sorri, vira as costas e vai embora, tão silenciosa como chegou. E o homem atrás do balcão permanece ali, estático, boquiaberto, sem dizer nada. Na verdade, não havia, igualmente, nada para ser dito.
Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Brasília, Distrito Federal, 11-7-2017

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