sexta-feira, 30 de junho de 2017

[Aparecido rasga o verbo] À espera do Enola Gay, o milagre que salvaria o Brasil

Aparecido Raimundo de Souza

“O brasileiro é antes de tudo uma besta elevada ao quadrado”.
João Topa Tudo (Pensador de rua. Rodoviária de Ribeirão Preto, interior de São Paulo).


MAIS UMA VEZ, senhoras e senhores, estamos aqui para dizer à população nativa, amedrontada, acovardada, aterrada, que o Brasil está na UTI, vítima de doença incurável. Um câncer raro, pior do que o que vitimou o cantor sertanejo Leandro (da dupla Leandro & Leonardo), em 1998. Um câncer profundamente maligno, inextirpável, portanto, sem cura. Mal crescente, que sabemos, de antemão, se alastrou corpo inteiro nação afora e não há remédio, tampouco medicina que dê jeito. Agora, só um milagre. Talvez nem isso. O Brasil entrou em estado de decomposição vegetativo. Em face disso, se prolonga, se desdobra, se protela aos peidos, preso, acorrentado, amordaçado, a aparelhos, para manter a “onra” que perdeu faz tempo.

O Brasil, na verdade, morreu. Ninguém acredita, mas já era. Foi para os quintos. Está obtuado, fedendo; e o cheiro do que dele restou exala por todos os cantos. Fere contumazmente narizes, corações, pessoas. Ataca frontalmente o que ainda poderia ser salvo. O Brasil de hoje é o mesmo de quinhentos anos atrás, quando Cabral aqui aportou. Estamos todos, filhos desta pátria fodida, corrompida, estragada, decomposta, maravilhando com olhos esbugalhados, a devastação, a pouca-vergonha, o descaso, a falta de pulso, de brio, de nossos representantes em Brasília.

O epicentro, por sua vez, é um enorme prostíbulo, um boeing gigantesco pousado, transformado em casa de mãe-joana, onde putas e veados de todos os quadrantes da federação abundam numa equação que nenhum matemático, por mais experiência que tenha, consegue resolver. Malba Tahan, se vivo fosse, meteria seu homem que calculava na bacia latrinal de algum daqueles palácios intocáveis que apinham à beira do Paranoá e daria descarga. Descarga com força, com gosto, senhor de si. O sol da canalhice, como se percebe, está alto. Queima, dilacera, caustica. O insuportável se propagou. Criou formas dantescas.

As vísceras dos pobres e oprimidos, a cada minuto se multiplicam, se reproduzem, se vulgarizam. A alma das Isaltinas e Manés, Franciscos e Catarinas se desgraçam no repasto da expiação. A impunidade vinda do pessoal da rebeldia dá as ordens, fala alto, grita; e o povinho (atocaiado na alfândega do Congresso e da Câmara) sem eira nem beira, sem teto, sem chão, sem comida, sem direito, se ferra, se atrapalha, se consome, se acorrenta. Os “sem-noção” tomam no rabo, e para não sentirem a dor do ferro entrando, sorriem. O coitadinho do brasileiro sorri. Kikikiki. Sorri meio que tímido, acanhado, retraído, insuflado mais pelo amarelo que o normal, contudo, sorri. É só o que pode fazer: sorrir. Sorrir e ver a trolha adentrando, vagarosamente, pacientemente, sem estardalhaço.

É a saída que, diga-se de passagem, resta a todos: sorrir. Estamos atados por fortes correntes à bunda do Cavalo Chefe, com ele (o Rei Pilantra Maior, o Ladrão), montado ao lombo. Aguardamos que as esporas entrem em ação e os relhos de açoite façam a sua parte. Nada mais podemos esperar de uma nação afundada em merda até o pescoço. O Brasil, repetindo o óbvio, é uma latrina enorme, suja, pior que privada de rodoviária. Nossa insensibilidade, nosso desinteresse, nossa neutralidade se passivou. Foi esganada pela incoerência do que alguns imbecis ainda teimam em chamar de Justiça. Justiça, meus caros, não existe, a não ser para os poderosos. Para os bons de bolso, para aqueles Mendes e Gilmares, Fachins e Edsons, Lúcias e Cármens, Fux, Romizetas e Gordinis, Mellos e Celsos, Aurélios e Marcos, Toffolis e Dias, entre outros famosos e garbosos. Como um penico cheio de excremento, essas ervas daninhas vomitam palavras bonitas, que engabelam os cegos e neófitos que buscam luz onde sequer existe um bico de vela orientando na escuridão.

Este é o nosso querido e amado BRASIL. Ceteizado, vegetando num hospital da rede pública, a poder de máquinas para mostrar a meia dúzia de songamongas e palermas embargados à própria demência e paranoia, que pode sair da crise em que está submergido e se soerguer. Dar um up não para o alto, mas para baixo. O Brasil, senhoras e senhores, não tem vida própria, não tem mitologia para se dependurar. Logo, não renascerá das cinzas, como a Fênix. Quanta ingenuidade desperdiçada! Estamos a poucos metros de uma nova hecatombe. Uma tragédia anunciada como a palhaçada que foi a cassação da chapa Dilma-Temer. A passos poucos das portas de uma engenhosa e carismática bomba atômica que explodirá devastando este rincão, pior que a de Nagasaki nos idos de 1945. Em meio a esse cenário apavorante, onde vagabundos e salafrários, vadios e perniciosos governam um barco sem leme, só nos resta aparecer, vindo da puta que pariu, talvez, um Enola Gay que soltará ou dará o tiro de misericórdia, mandando tudo pelos ares.

Estamos cansados de viver com larápios. De ouvirmos falar de casquilhos e janotas, de assistirmos nos telejornais os gatunos e ratos de esgotos. Mesmo passo, não dá mais para engolirmos esses engravatados vestidos em ternos de grife. Farra Temer ou Fora Temer, não dá mais Ibope. Enjoamos desses gateadores, desses punguistas, dessas víboras, dessas vadias e prostitutas que se vendem por uma calcinha cheirando a perfume francês. Igualmente, engasgamos com esses velhacos metidos a presidentes, flibusteiros e piratas, falando em alta corte, em colegiado, travestidos em peles de ministros. Tudo trocado por um saco de bosta sai caro. Malfeitores do inferno, insignes roubadores do povo! Fanfarrões, destruidores da nossa paz, do nosso sossego. Vocês todos são a ferida aberta, a fístula, a mácula, o infortúnio, O FLAGELO, ENFIM, A PESTE QUE NOS TIRA A MELHOR COISA DA VIDA: A NOSSA FELICIDADE.

Em resumo, amadas e amados, estamos como tristes Johns Coffeys à espreita de um prodígio divino. Como esses fenômenos costumam vir do infinito, quem sabe, tenhamos sorte. Se ainda der tempo, que apareça do nada um Tom Hanks diferente daquele vivido pelo personagem Paul Edgecomb e que, ao contrário, resolva acreditar que nem tudo está perdido, embora esteja. Caso oposto, que se repita, sem mais perda de tempo, sem mais delongas, a tragédia devastadora de Hiroshima, no Japão. Vigiemos, com a graça do Grande Arquiteto do Universo (GADU), e esperemos estar vivos e com saúde para assistirmos, de camarote, à derrocada final.
Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, jornalista. De Uberlândia, Minas Gerais, 30-6-2017

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