terça-feira, 30 de outubro de 2018

[O cão tabagista conversou com...] Francisco Carvalho: “Não esmorecemos. Quanto pior ficava a situação, mais nos esforçávamos."

Nome completo: Francisco José Barros de Carvalho Junior

Nome de Guerra: Barros Carvalho

Onde e quando nasceu?
Niterói, Estado do RJ, em 04 de setembro de 1956.

Onde estudou?
Escola Preparatória de Cadetes do Ar (2° Grau), Universidade Federal Fluminense (Economia), Universo (Direito)

Peraí, mas o seu nome de guerra na RG não era Francisco Barros? 😉
O meu nome de guerra era Barros Carvalho, mas muitos colegas me chamavam de Chico.

Hummm... então devo ter errado, todas as vezes em que voamos juntos, o preenchimento do seu nome na ‘General Dec’... ainda bem que estou aposentado. Já pensou eu ter que comparecer perante a “Corte” dos EUA para justificar porque Barros era Chico?? 😊😊
😂😂😂😂

Onde passou a infância e juventude?
Passei a infância em Niterói, a adolescência em Barbacena, MG (onde vive a família do meu pai). Foi nesse período que eu cursei a EPCAR (Escola Preparatória de Cadetes do Ar). Logo que completei 18 anos minha família se mudou de volta para Niterói, onde vivo até hoje.

Saudades de Barbacena?

Sim, tenho. A adolescência é uma fase muito marcante da vida, e eu passei essa fase lá. Mas como tenho parentes na cidade, de vez em quando dou um pulo lá para matar as saudades.

Quando começou a trabalhar?
Aos 15 anos entrei para a EPCAR e lá, além de estudar, ganhava um soldo que já me dava alguma autonomia. Saí de lá aos 18 anos e aos 20 ingressei na Transbrasil Linhas Aéreas, em 1976.

Em 1979 tomei posse no Banco do Brasil e em 1980 pedi demissão para ingressar na Varig, onde fiquei até o apagar das luzes.

Como surgiu a Varig?
Conheci o Claudio Cosme na Faculdade de Economia, ele já era comissário da Varig. Fiquei interessado no estilo de vida proporcionado pela profissão. Pedi a ele que me avisasse quando houvesse um processo seletivo na empresa, mas, por entender que poderia prejudicar o meu curso universitário, ele não se propôs a me ajudar.

Fiquei então sabendo de um processo seletivo na Transbrasil, me candidatei e fui admitido.

Fiquei lá por quase dois anos e saí para assumir um posto no Banco do Brasil em janeiro de 1979, como consequência de um concurso que havia prestado, e no qual fui aprovado. Mas não desisti da aviação e queria mesmo era voar na Varig.

Em princípios de 1980 fiquei sabendo que a Pioneira estava selecionando comissários, me candidatei e fui aprovado. Comecei o curso em maio, e a voar em setembro daquele ano.

Lembra do seu primeiro voo?
Lembro, foi uma ponte aérea de Electra com o Zé Roberto. A minha turma era grande, então fomos divididos de uma forma estranha para começar a voar. As moças foram ter instrução nos jatos e os rapazes no Electra.

Em 1980 a rede de voos domésticos da Base Rio era muito restrita, o forte dela eram as rotas internacionais, lembra? Ainda não existia o aeroporto de Guarulhos.

Os voos nacionais da Base Rio se resumiam às pontes aéreas entre Rio, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, conexões dos voos internacionais entre o Galeão e Congonhas e alguns poucos voos para o sul e Nordeste. Quase a totalidade dos voos domésticos era operada pelas tripulações de São Paulo. Era uma forma de equilibrar a distribuição de pessoal e voos uma vez que o Rio detinha a hegemonia nos voos de longo curso.

Depois de nove meses fazendo só a ponte, de Electra, comecei a instrução nos jatos. Creio que o meu primeiro voo de jato foi um Porto Alegre de Boeing 727.



Desse início na aviação tem algum fato pitoresco para nos contar?
Me lembro de um que hoje me faz rir, mas na época me deixou muito sem graça. Eu tinha 20 anos e fui fazer meu primeiro voo em instrução logo depois de terminar o curso de comissários da Transbrasil, corria o ano de 1977. Meu Nome de Guerra lá era Junior.

Não sei porque o meu instrutor chegou à aeronave antes de mim, era um voo em trânsito, e se deparou com uma comediante muito famosa na época, Wilza Carla [foto]. Uma mulher madura, extravagante, espalhafatosa e "over size" (muiiito!!!). Ele então teve uma ideia maquiavélica.



Quando entrei no avião, a dita cuja estava de pé no meio do corredor e, caminhando em minha direção falava bem alto coisas do tipo "Juninho, quanta saudade! Você nunca mais foi lá em casa. Estou morta de saudades". Isso diante de um avião lotado, os outros passageiros às gargalhadas. Foi um constrangimento e tanto. Para completar, ela passou o voo todo me ajudando a fazer o serviço de bordo ("Juninho, meu amor, me deixe te ajudar!"). Foi o meu batismo de fogo. 

Fica no 727 até quando?
Na verdade, não era só o 727, era a rede doméstica. Voava também o Boeing 737 e o Electra. Fiquei na RAN (Rede Aérea Nacional) de setembro de 1980 a novembro de 1981.

Em dezembro daquele ano fui para uma rede intermediária na qual voava o Airbus A300 e o Boeing 707 em rotas internacionais regionais e da África.

Finalmente em meados de 1985 fui transferido para a RAI (Rede Aérea intercontinental) onde permaneci até o final, em 2006, onde cheguei ao cargo de Chefe de Equipe.

Como passava o tempo nos pernoites?
Sempre aproveitei muito os pernoites. Gostava de caminhar pelas cidades, para mim a melhor maneira de conhecer um lugar. A gente descobre cada cantinho delicioso, que um turista desatento não vê. Quando não era possível caminhar sempre procurava utilizar os transportes públicos. Gostava de agir como os locais.

Sempre me liguei muito nas comidas dos lugares e cultivava algumas preferências em certas cidades. Não tinha muito hábito de compras, mas os supermercados sempre me atraíram.

Costumava comprar algumas guloseimas para trazer para mim e para a família.

Quais os pernoites preferidos?
Meus pernoites preferidos sempre foram os da Europa, nunca tive muita atração por pernoites nos EUA, por exemplo.

Dentre as cidades europeias que eu mais gostava de pernoitar se sobressaíam Roma, Lisboa e Madrid. Era muito bom também quando tínhamos os pernoites longos em Zurique. Era possível pegar um trem ou alugar um carro e conhecer vários recantos daquele país lindo, ou ainda ir à Áustria ou ao sul da Alemanha. E tinha os picos também: o Títlis, o Atlas... Eram passeios inesquecíveis.



Você falou anteriormente que trabalhou na RG “até o apagar das luzes”... recebeu um telegrama?


Sim, no dia 3 de agosto de 2006 recebi o fatídico telegrama. Foi um momento de grande tristeza, fui invadido por um sentimento de desamparo. O fim da Varig e a liquidação Aerus, foram vários acontecimentos ruins em um mesmo período.

O Aerus faliu em 12 de abril de 2006, por má gestão, mas também muito pelo calote da RG. Não era esperado que a caloteira viesse a ter o mesmo fim?
Sabíamos da precária situação financeira da empresa, mas ao mesmo tempo tínhamos esperança que um socorro viria. A Varig era um símbolo do país, não passava pelas nossas cabeças que simplesmente iriam deixá-la morrer. Imaginávamos que o socorro viria na forma de um aporte de capital oriundo do BNDES, ou pela aquisição por uma outra empresa, aérea ou não.

E trabalhamos dedicadamente até o último dia. Não esmorecemos. Quanto pior ficava a situação, mais nos esforçávamos. E não só o pessoal de voo, as equipes de aeroportos também. Era um grande esforço de todos para segurar a empresa, mas infelizmente não foi possível.

Depois de 3 de agosto de 2006 foi fazer o quê?
Depois da demissão fiz e faço várias coisas. Sou advogado, organizo almoços temáticos mensais na minha chácara em Itaipu, Niterói (curto uma boa comida e um bom vinho).

De 2010 a 2015, juntamente com o Claudio Cosme arrendei uma pousada em Geribá, Búzios.

Hoje vivo no ritmo que a vida me permite. No momento, temos planos de nos desfazer de nosso patrimônio e cair no mundo para aproveitar o tempo que nos resta.

Não têm mais a pousada?
A pousada não era nossa, foi arrendada em 2010 por um período de cinco anos com possibilidade de renovação. Ao final do contrato, em 2015, a crise já se fazia sentir e então decidimos não renovar o contrato e devolvemos a pousada ao proprietário.

Como é que está Niterói?
Niterói é a minha cidade natal. Sempre gostei muito de viver aqui e ainda gosto, mas ela já não é mais a mesma. Embora ainda seja mais tranquila que o Rio, a deterioração da qualidade de vida, que de um modo geral hoje afeta todas as cidades brasileiras, também já é sentida aqui.

De qualquer modo temos belas praias, uma boa variedade de bares e restaurantes, um comércio diversificado e vibrante. Temos também um excelente acervo arquitetônico de Oscar Niemeyer no qual se destaca o MAC (Museu de Arte Contemporânea) [foto], hoje um símbolo da cidade.


Você conhecia O cão que fuma?
Já tinha ouvido falar do "cão" e sabia que era relacionado a você, mas nunca tinha feito nenhum contato com ele. Já busquei no Google e vou dar uma boa olhada.

E o Brasil, tem futuro?
É certo que sim. Mas nestes dias conturbados que vivemos, às vezes tenho a impressão que não será aquele que sonhamos. No entanto, devemos ser otimistas, afinal o Brasil é o "eterno país do futuro", não é?

Um primeiro passo deve ser a superação dessa crise que nos sufoca e a arrumação da casa, depois retomar o crescimento. Não é a primeira grande crise que vivemos, mas espero que tenha sido a última! 

E qual o candidato que, na sua opinião, pode superar a crise “que nos sufoca”?
Não sei se algum dos candidatos poderia resolver esta situação, mas teremos que escolher um. Na minha opinião temos que buscar uma mudança já que os governos do PT desperdiçaram as quatro chances que tiveram para mostrar ao que vieram. Por este motivo decidi apostar no candidato que hoje tem a chance de quebrar a hegemonia petista e adotar um novo modelo de gestão.

A pergunta que não foi feita:
Desculpe não ter respondido ontem.  Recebi visitas e também tinha toda aquela agitação do pleito eleitoral! De qualquer modo não me ocorre nenhuma pergunta que eu achasse que deveria ter sido feita. Mas se você porventura lembrar de mais alguma, fique à vontade, terei prazer em responder.

Uma derradeira mensagem:
Para finalizar, gostaria de dizer que gostei bastante deste nosso bate papo. Fiquei muito contente com o convite e espero ter contribuído de alguma forma. Um grande abraço!
PS: no momento você está no Brasil? Pensei que estivesse morando em Portugal.

Obrigado, Francisco!
Sim, estou no Rio. Vim votar e provar que estou vivo!

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