sexta-feira, 24 de julho de 2020

[Aparecido rasga o verbo] Morcego cego

Aparecido Raimundo de Souza

O TELEFONE TOCOU e Glorinha, a empregada, atarefada passando o café, gritou lá da cozinha para  que o Chico, motorista de seu patrão, o magnata das saborosas sardinhas Tuti, sentado  na sala,  fizesse a gentileza de ver quem era. Obediente, e  prestativo, o Chico foi: 
  Alô, bom dia!
— Bom dia.
— Com quem falo?
— Quer falar com quem?
— Com o Tuti.
— O senhor Tuti não está.
— Sabe a que horas posso encontrá-lo?
— Glorinha me passou a informação que só depois das oito da noite.

— Quem é a Glorinha?
— A Glorinha é a empregada dele.
— E o  senhor, quem é?
— Não sou o senhor Tuti.
— Ok. Qual seu nome, por obséquio?
— Prefiro não me identificar. Não vejo necessidade.
— Estou propensa a acreditar que o senhor é o Tuti e está tentando me enganar. Acertei?
— Asseguro-lhe que não. Conhece o senhor Tuti?
— Não tive, ainda, o prazer.
— Acaso falou com ele alguma vez?
— Na verdade nunca tivemos nenhum contato. Esta é a primeira vez que ligo para a sua casa.

— Minha não,  a casa é dele. Se nunca falou com o senhor Tuti, como ousa afirmar que eu sou ele, se jamais conversou comigo?
— Tá vendo só? Na mosca. O senhor é o Tuti.
— Não, não sou.
  Claro que é.
— Prove que sou o senhor Tuti.
— Repetirei o que o senhor acabou de dizer: “Como ousa afirmar que sou ele se nunca conversou comigo?”.
— E daí...?
— Se o senhor não fosse o Tuti  diria: “Como ousa afirmar que sou ele, se nunca conversou com o cara, ou com o sujeito?”. Ao contrário, o senhor foi categórico. O senhor disse com todas as letras: “Como ousa afirmar que sou ele se nunca conversou comigo?”.

— Basta. Não precisa repetir.
— E para completar ficou nervoso. Aliás, está nervoso. Uma prova insofismável de que é o próprio.
— Que próprio?
— O Tuti em carne e osso.
— Senhora, o senhor Tuta realmente saiu. Só depois das oito da noite...
— A que horas ele saiu?

— Não sei ao certo.
— Sabe dizer onde foi?
— A Glorinha  não me disse. Afinal de contas, a senhora é de onde? Deixe o nome e o número do telefone que farei o favor de anotar e repassar para a moça que trabalha aqui na residencia dele.

— Vamos esclarecer uma coisinha?
  Que coisinha?
— Não sou casada.
— E o que eu tenho a ver com o fato  da senhora não ser casada?
— Às pessoas casadas o senhor se dirige usando a tal da senhora. Às solteiras...
— Por acaso tenho bola de cristal? 
— Senhor...
— Também não sou senhor. 
— O tratamento diferenciado faz parte da educação, cavalheiro. 
— Não quero saber. 
— Seu Tuti, preste atenção. Eu...

— Senhora, quero dizer... Moça, não sou o senhor Tuti, por gentileza, não insista. Está começando a me tirar do sério.
— Sabia que é feio mentir?
— Quem está mentindo aqui?
— Só vejo uma pessoa berrando no meu ouvido.
— Berrando? Quem está berrando?
— O Tuti. Só pode ser o senhor. Pois bem, seu Tuti. Vamos ao que realmente nos interessa, ou seja, ao real motivo que ensejou o presente telefonema para a sua residência. O Senhor é o Tuti. Tuti de quê?
— Dona, não sou Tuti de nada.
— O senhor não tem sobrenome?
— Não vou responder. Aliás, não quero mais prolongar esta lengalenga. Passe bem.

— Pretende continuar insistindo na brincadeira? Fale sério!
— Por que não desliga e vai  até a esquina fumar um cigarro ou tomar um refrigerante bem geladinho no canudinho?
— Não fumo mais. Parei  faz  exatamente dois anos.  Refrigerante dá estrias. E o canudinho... Bem o canudinho...
— Esquece o canudinho. Tenha um bom dia.
— Calma, seu Tuti. Só confirme para mim o seu nome completo e seu endereço.
— Simpática, não sou o senhor Tuti. Ele saiu...
— Vamos supor que realmente o seu Tuti esteja ausente . O senhor, quem é?
— Um colega e um amigo.

— E esse colega e amigo não tem nome?
— Senhora, eu...
— Senhorita. Lembre-se: não sou casada.
— Que seja. Atendi ao telefone para fazer uma gentileza à Glorinha que está passando o café.

Tenho mais o que fazer. Pela última e derradeira, tenha um bom dia. 
— Calma, calma. Percebo, por sua voz, que o senhor está muito nervoso.
E não é para estar com você torrando meu saco?
— São quase dez horas da manhã. Estamos no horário comercial. Apenas tento fazer meu trabalho.
— Vamos colocar um ponto final nesta parlanda. Não sou o senhor Tuti. Ligue depois das oito da noite e se entenda com ele diretamente. Ou deixe seu nome e número. Ele lhe retornará a ligação.

— Insisto: quem é o senhor?
— Um colega e amigo do senhor Tuti.
— Colega e amigo do senhor Tuti em sua casa, assim tão cedo?
— Vim resolver um problema. Passei para pegar os documentos do carro dele. Coincidentemente, como a Glorinha está preparando um café, estou esperando pela bebida. Meu Deus, o que estou fazendo? Não tenho que lhe dar satisfações.
— Ora, seu Tuti, fique a vontade.
— Tuti é a sua mãe.
— Não me ofenda. Minha mãe se chama Umbelina. Umbelina sem o agá. E não tem Tuti.
— Vá para o inferno.

— Irei. Antes de me pôr a caminho, me diga seu nome todo. Tuti de quê?
— Querida, vá para o raio que a parta.
— Cavalheiro, colabore. Quero seu nome para constar aqui na minha ficha de atendimento ao cliente. Tenho que anotar o nome da pessoa com quem falei neste número.
  Se lhe der meu nome me deixará em paz?
— Juro por tudo quanto é mais sagrado.
— Pois bem. Sou o Chico. Chico Pinto. Satisfeita?
Risos:
— O que foi agora? Qual a graça?
As hilaridades continuaram:
— Vou desligar...

— Então o senhor é o famoso Chico Pinto?
— Sou. Contudo, não tenho nada de famoso. Por que continua  gargalhando? Tenho cara de palhaço?
— Me lembrei de um fato curioso. Mamãe fala todo mês no senhor...
— Sua mãe? Ela não me conhece! Que patranha é essa agora?
— Se minha mãe não lhe conhecesse, não teria motivos para ficar uma arara. Uma arara. Principalmente quando o senhor chega...
— Deve haver algum engano neste falatório todo. Sua mãe nunca me viu nem mais gordo, nem mais magro. E eu... Eu nunca cheguei...
— Agora que declinou seu nome, tenho cá minhas dúvidas...
— Que dúvidas? Como sua mãe poderia me conhecer?
— Vou provar que o senhor a conhece. E a incomoda, literalmente, todos os meses.

— Eu a incomodo? Como? De que forma? Não sei quem é voce, moça, que dirá a sua mãe, esta tal de dona Umbelina.
— Lembrando, para que não esqueça: sem o agá.
— Que diferença isto faz, com ou sem o agá?
— Seu Tuti —, quero dizer —, seu Chico, o senhor me faria um imenso favor?
— Favor, que favor?!
— Saia de uma vez por todas do meio das pernas dela. Quero dizer, desagarre das intimidades da minha querida mãezinha. Que droga, que coisa feia, seu  Pinto... Digo, seu Chico...

Chico Pinto ia retrucar mas a engraçadinha se abriu novamente numa estrondosa chalaceação desligando o aparelho na cara dele.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha Espírito Santo ES. 24-07-2020

Colunas anteriores:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-