terça-feira, 15 de janeiro de 2019

[Para que servem as borboletas?] Filosofar é aprender a morrer...

Valdemar Habitzreuter

Nossos pensamentos, quando bem ordenados e direcionados para decifrar e compreender um fenômeno, nada mais são que um filosofar. Neste caso somos todos filósofos; e, mormente, o que nos ocupa mais a mente é a vida. É claro, por sermos seres viventes racionais, ocupamo-nos de deslindar a vida e o modo mais valioso de vivê-la... Da morte ninguém quer saber muito. Quanto mais longe ficar da mente, melhor. Mas, como diria Cícero, filosofar é preparar-se para a morte.

Nesse sentido, o filosofar seria uma contemplação em que a alma faz o exercício de afastar-se do corpo, o que se assemelharia à morte; a alma experimentaria sua libertação; e isso seria um aprendizado e a morte não nos assustaria. O próprio Platão nos diz que o corpo é uma prisão da alma; a tarefa da alma é aspirar pelo mundo das ideias (uma versão do reino dos céus cristão; aliás, o cristianismo tem muito a ver com a filosofia platônica) do qual decaímos e procurar os meios de alcançá-lo novamente, menosprezando o mundo sensível e passageiro em que nos encontramos.

Talvez, a maneira mais eficaz de viver seja, justamente, lembrar-nos constantemente da morte inevitável e o que levar em conta para sermos alegres e satisfeitos enquanto enredados num corpo. Não resta dúvida, que queremos levar uma vida de satisfação. Portanto, o prazer, a satisfação, é a meta que queremos para nossas vidas. Ninguém se proporia o sofrimento como meta de vida, e a morte não deve ser encarada como sofrimento ou empecilho à vida feliz.

No entanto, é a virtude que nos orienta na meta da vida alegre e feliz; e ela é carregada, muitas vezes, de sacrifícios. Mas ela está envolta ou enraizada de um prazer e satisfação extremos que supera qualquer sacrifício. A virtude, ao fim e ao cabo, torna-se prazerosa. Desse modo, nossa existência caracteriza-se pela quietude e alegria em face de a virtude nos exercitar para a vida feliz e desdenhar a morte que nada significa a não ser a privação de um corpo que nos aprisiona.

Sabemos que a morte é inevitável e, por isso, não nos deveria perturbar os pensamentos; se a recearmos encheremos nossas vidas de tormentos e olharemos para todos os lados de onde o inimigo possa surgir. “O homem é um ser para a morte” (Heidegger). Sim, o ser humano encontra-se no corredor da morte e terá de percorre-lo; se recear a morte não terá sossego no caminho da vida, contará os dias, medirá a vida pela extensão da estrada, sem cessar atormentado pela ideia do suplicio da morte.

À nossa volta presenciamos a morte de outras pessoas e é quase inevitável que nossos pensamentos não se perturbem, fustigando a consciência com a ameaça e receio pela nossa própria morte.

Para que o pensamento da morte não nos atormente é necessário tê-la sempre em mente como algo positivo e que pode nos acontecer a qualquer momento da vida. Afinal, somos mortais e é natural que a morte nos sobrevenha. Mas, enquanto ela não se apresenta, batalhemos no prolongamento de nossa existência e fiquemos indiferentes à sua chegada. E quando chegar: OK, estou pronto.

Um filosofar constante sobre a morte será, sem dúvida, um aprendizado de como admiti-la sem sobressaltos, e leve será seu peso, pois acontecerá apenas uma vez, além da compreensão de que a privação da vida não é nenhum mal. Filosofar, portanto, é aprender a morrer. Indubitavelmente, sem esta aprendizagem, as desolações e aflições perante a morte são bem mais dolorosas do que a própria morte.
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 14-1-2019

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5 comentários:

  1. PERFEITO,
    MORRER É A GRANDE DÁDIVA DA NATUREZA, DEUS NÃO NOS FEZ SEMELHANTES, NÃO NOS DEU A IMORTALIDADE, VIVEMOS PARA PROCURÁ-LA, BRINCANDO DE DEUSES.
    SE FÔSSEMOS IMORTAIS SERÍAMOS ESTÉREIS, PARA NÃO PREJUDICAR "GAIA".
    Perdão aos demais contribuintes, esse texto é memorável.
    Feliz que o entende.
    fui...

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    1. Caro wanderlei, comungo com sua idiossincrasia filosófica...
      Valdemar

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    2. Caro Valdemar,
      Infelizmente os leitores preferem os aforismos galácticos perversos, as críticas modorras, feita e cheia de firulas linguísticas, a ler um texto com intensidade filosófica superior aos alicerces oligárquicos dos escritores brasileiros.
      Você escreve melhor que Olavo de Carvalho, e tem opiniões de dar inveja ao "careca de saber". Compara seus escritos aos melhores que já li, sobre o assunto "vida".
      Você pode fazer uma coluna mensal. seria melhor que ALGUNS FAMOSOS DAQUI.

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    3. Meu caro, não é bem assim... sou apenas um neófito em filosofia e o exercício da escrita me preenche o tempo, além de exercer-me na reflexão filosófica. Textos filosóficos requerem concentração intensa e é uma satisfação quando se chega ao entendimento do conteúdo. Atualmente estou estudando Hegel, mas é um filósofo hermético, muito difícil de entender sua Fenomenologia do Espírito... Um abraço!
      Valdemar

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    4. Estudar as relações da mente é algo difícil, para quem não entende o que é a mente.
      A natureza e o universo em si é uma completa OPOSIÇÃO à espiritualidade.
      Veja que uma AMEBA tem um DNA algumas vezes maior que o humano e muitas vexes maiores complexidades.(natureza real)
      Rejeitamos a hipótese que ameba tenha espírito.
      A NATUREZA é um conluio de relações externas.
      O espírito humano é o subconsciente, consciente e vontade racional.
      O homem depende de seus 5 sentidos para tê-los.
      O homem é solipsista". O solipsismo é a teoria de que eu e apenas eu existo.
      A única coisa que posso afirmar, é valorar da comunicação como um encontro entre um ser e outros que podem dispor de tantas qualidades tanto quanto ele. E, também viajar numa maionese que todos somos viajantes de um mundo que verdadeiramente maior e ininteligível que ultrapassa nosso saber, porque dependemos de informações externas e isso, o sabem tanto os homens quanto as amebas.
      bom dia

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