terça-feira, 12 de junho de 2018

[Para que servem as borboletas?] “Eu era feliz e não sabia”... Que tal fantasiar?

Valdemar Habitzreuter

É bem provável que por felicidade entendamos nada mais que um bem-estar. Diz-se que quando estamos satisfeitos com o que somos e temos para suprir nossas necessidades básicas somos felizes, e quanto mais simplesmente pudermos viver melhor será para preservar a felicidade. Não precisamos de excessos, e isso nos dá uma liberdade invejável: não dependemos de bens exteriores, a maioria das vezes escravizantes; e, com isso, usufruímos do bem-estar interior, sem aquela preocupação de proteger nossa riqueza exterior e, inclusive, de angariar ainda mais bens.

Mas, como alçar-nos ao nível ideal na escala do bem-estar, ou felicidade, sem que incorramos na falta ou excesso de bens? O zero é o marco da escala em que começamos a nos mover na aquisição de bens que nos proporcionam bem-estar. Onde parar? Quando atingimos certo patamar podemos nos dar por satisfeito e dizer que não precisamos de mais nada para nossas necessidades básicas. O sujeito dirá: sou feliz com o que conquistei e isso me basta. Será mesmo? Acontece que esse patamar em que ele se encontra torna-se nova escala que começa do zero. Por que? Porque vê possibilidades de progresso e, além do mais, acima dele encontram-se outros sujeitos de maiores posses e deseja atingir aquele patamar. O sujeito não inveja aquele que está abaixo dele na escala, mas inveja aquele mais endinheirado que está acima dele e quer progredir para além de suas necessidades básicas. Como diria Thomas Hobbes, “a felicidade é o progresso o menos impedido possível à consecução de fins cada vez mais distantes”.

Como explicar isso? O ser humano é essencialmente um ser pulsional. Ele é regido por pulsões e não se contenta em ficar parado, estagnado em um patamar de vida no qual poderia se dar por satisfeito. Ele é impulsionado por desejos de mais posses que ultrapassam as necessidades vitais básicas e sempre procurará ultrapassar seus pontos zeros que ele se coloca na escalada da vida. Ele é empurrado para um ‘mais além’, e isso no aspecto material, intelectual e espiritual. Todavia, tudo isso também depende das circunstâncias e obstáculos que enfrentará na luta por sempre maiores conquistas que supostamente o fariam feliz.

Talvez, o que mais fascina o ser humano não é propriamente o ter, o possuir, mas a luta pela aquisição, a dinâmica do impulso do desejo de adquirir aquilo que ainda não tem. Uma vez conquistado o que desejou, sobrevêm novos impulsos de conquistar e, assim indefinidamente. A coisa adquirida perde o seu esplendor e o sujeito almeja por outras aquisições. É o adquirir que dá a sensação de prazer e não o que foi adquirido. A mulher que vai ao shopping para fazer compras, muitas vezes não vai porque precisa daquilo que vai comprar, mas pelo simples fato do prazer de poder adquirir aquilo. Essa aquisição, muitas vezes, fica esquecido num canto da casa sem utilidade alguma.  Da mesma maneira o intelectual que já conquistou patamares altos de intelectualidade e ciência sempre quer galgar maiores patamares, é o novo que o fascina e não aquilo que já conquistou; dá-lhe prazer desbravar o incógnito. É por isso que a maioria de autores não releem suas produções literárias ou escritos antigos, é lhes prazeroso dedicar-se a novas produções intelectuais. Da mesma maneira o espiritualista que quer se aperfeiçoar na senda espiritual, não se contenta no nível em que se encontra, persegue a perfeição espiritual absoluta sem tréguas, quer endeusar-se.

Bom, tudo isso para dizer que a felicidade é perseguida por todos, mas que ela sempre consegue nos driblar e sair de tangente, e não nos cansamos de correr atrás dela. Que tal, então, fantasiar que somos felizes, já que a vida nos impõe agruras escondendo-nos a felicidade?  Podemos estar de posse da felicidade imaginando-a? Talvez, evadir-se do tempo presente e relembrar o passado nostálgico nos seja oportuno. De vez em quando dizemos ao olharmos para o passado: “EU ERA FELIZ E NÃO SABIA”. É claro que o presente daquela época também estava encoberto por nuvens que escondiam a felicidade e não a encontrávamos. Mas, quem sabe, relembrando agora o passado, podemos alimentar uma fantasia gostosa de nostalgia que nos embebe o espírito de leveza e beleza? Quem sabe, nos proporciona mais serenidade na vida presente, às vezes, por demais massacrante? A nostalgia é uma fuga do presente, é saudade de tempos idos para onde gostaríamos novamente nos deslocar; saudade de lugares fascinantes outrora visitados, não mais disponíveis; saudade de relacionamentos de amizade saudosos... tudo isso transmitindo-nos paz de espírito. Se isso não é felicidade, pelo menos, pode nos aliviar quando os dias negros do presente nos angustiam. Se a felicidade tem de ser perseguida a todo custo, a nostalgia do passado também é uma tentativa de sempre almejá-la, esteja onde ela estiver... A nostalgia nos liberta, em certa medida, dos sofrimentos do presente...  Fantasiar faz bem!
Título e Texto: Valdemar Habitzreuter, 10-5-2018

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