quarta-feira, 20 de junho de 2018

Os saltitões no país que é um carrossel mágico

Helena Matos

António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa aos pulos são um símbolo do país carrossel mágico a que estamos reduzidos. Mas por mais que saltem e gritem torni-cotim-torni-cotão a realidade vai apanhá-los. 



Os saltitões. Eles saltam. Saltam com a energia de quem sabe que são essas suas performances que mantêm a rodar o carrossel mágico em que o país está transformado. Saltar é preciso. Colar-se ao que estiver a dar é indispensável e, no caso a colagem ao futebol, é vergonhosa (nenhum destes protagonistas vai voltar a falar de populismo, pois não?) Quando não for mais possível escamotear a realidade, os novos saltitões vão ensaiar versões politicamente atualizadas do torni-cotim-torni-cotão. Ou seja, falar muito da crise internacional, acusar a Itália, o Trump, o BCE, a instabilidade da Espanha… Mas, por mais que saltem, a realidade vai apanhá-los.

“O Bloco quer” – esta expressão faz parte das nossas vidas. Afinal, todos os dias o Bloco quer qualquer coisa. Assim, só nos últimos dias o Bloco fartou-se de querer: a 10 de junho, o Bloco queria um Dia de Portugal que desse conta “da enorme violência da expansão portuguesa, a nossa história escravagista, a responsabilidade no tráfico transatlântico de escravos.” 

A 11, o Bloco virou-se para terra e queria festejar a Feira do Livro e, de caminho, “travar o despejo das livrarias e alfarrabistas devido à pressão imobiliária”. (Esta proposta do Bloco contribuirá decisivamente para que ninguém na posse das suas capacidades mentais alugue uma loja para que lá funcione uma livraria ou um alfarrabista).

A 12 de junho, farto dos livros, o Bloco veio dizer que quer “bolinha vermelha nas touradas na TV”. 

E a 13 o “Bloco quer o fim dos vistos Gold e diz que, de mais de 5 mil, apenas 9 criaram empregos” (como terá feito o Bloco estas contas?). Digamos que é muito querer! Na verdade, não espanta que o Bloco queira. O que não se entende é que o seu querer de imediato seja transformado numa urgência nacional. Num tema que nos querem fazer crer transversal. E muito particularmente uma causa que não se pode questionar sob o risco de imediatamente se ser rotulado com os adjetivos da moda: racista e machista parecem ser aqueles com mais saída nos últimos tempos.

Os caras de parvos. A 15 de Junho de 2018 sabia-se que “Com a passagem às 35 horas os hospitais vão ter de fechar serviços. Sindicatos e Ordem calculam que seriam precisos em julho mais de cinco mil novos enfermeiros e auxiliares, mas Finanças não autorizam contratação. Conjugação da redução dos horários de milhares e o início das férias vai provocar “o caos”.” É caso para dizer que somos um país de cara de parvos. Recordo que, há dois anos, só existiam duas versões possíveis para o impacto da adoção das 35h na função pública: ou não existia impacto algum ou a avaliação do eventual impacto dependia de uns estudos muito apurados e demorados. Para que não restassem dúvidas, Mário Centeno afiançou aos deputados da oposição que a reposição das 35 horas de trabalho semanais na Função Pública “Não é discussão de natureza orçamental neste momento. Só tem impacto nas vossas caras“. Se dúvidas subsistissem logo surgiram reportagens dando conta de várias autarquias onde com as quarenta horas “A produtividade não aumentou e o descontentamento entre os trabalhadores cresceu.” E não faltaram declarações de especialistas explicando que as 40h tinham sido aplicadas  “dentro de uma lógica redutora de que aumentando X% o horário de trabalho reduz-se em X% os custos dos serviços”, resume o especialista, que compara esta lógica a outras “contas de Excel” em que não são ponderadas todas as variáveis.” (nestas coisas de cortar privilégios às corporações acaba-se sempre acusado de “lógica redutora”.)  Em resumo, as 35 horas além de não terem impacto no orçamento até iam contribuir para o aumento da produtividade e quiçá da poupança. Mas tudo isto era em 2016. Em 2018 chegou a demonstração do impacto. Na nossa cara de parvos, claro. O que são senão uns parvos os contribuintes, para mais sob eterna suspeita fiscal, que pagam impostos para sustentar serviços públicos que canalizam para o seu funcionamento os recursos que deveriam ser investidos nos utentes?

Ao dispor. Em Poiares vai fechar um colégio que funcionava em regime de contrato de associação. Os pais protestaram mas valha a verdade que o seu protesto é pouco audível. Está instituído que as famílias portuguesas têm de entender que é seu dever colocarem os seus filhos ao serviço da escola pública, a tal que os jornalistas se obstinam em descrever como gratuita embora depois de feitas as contas se constate que para o contribuinte o custo por aluno numa escola pública é igual ou superior ao das escolas privadas. A existência de escolas com contrato de associação é uma areia na engrenagem dos sindicatos: se os pais puderem livrar os filhos do ciclo infernal de greves e protestos – logo, de dias sem aulas – os sindicatos perdem força. Já para o ministério que sonha fazer um homem novo estes colégios são vistos como uma ameaça à ditadura do pedagógica e socialmente correto. Logo, não interessa se o desempenho das escolas é bom. Se os alunos aprendem e se os professores ensinam. Esses não são aliás os primeiros objetivos da escola. A escola está lá para gerir as carreiras dos docentes e discentes, para incentivar a última causa patrocinada pelos ativistas do costume. O resto não conta.
Título, Imagens e Texto: Helena Matos, Observador, 17-6-2018

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