Aparecido Raimundo de Souza
DOIS SUJEITOS discutiam na fila da casa lotérica. O primeiro, um baixinho sobejamente vestido, no rosto ostentando um óculos de aro banhado em ouro, camisa de seda e calça de terno de marca, tinha cara e pinta de intelectual. O outro, humildemente composto, carecia, na verdade, de tudo, a começar por um bom par de sapatos. Sem falar na camisa rasgada nas costas, a calça jeans com uma mancha de tinta vermelha na perna direita. Parecia, coitado, um ganso recém afogado numa bacia de água quente.
— Digo pra você uma coisa e pode ter certeza. A maioria dos brasileiros é burra. Ou melhor: os filhos da nossa terra são burros de pai e mãe.
— Não acredito. Existem pessoas inteligentes.
— Mas é uma minoria. O resto, come capim. Topa tirar a prova dos nove?
— O que ganho com isso?
— Vamos fazer uma aposta.
— De que tipo. Se for dinheiro, aviso logo: aqui no bolso só disponho, miseravelmente dos trocados para o jogo da virada de ano. Quero entrar 2022 rico.
— Espera lá. Se eu ganhar, o amigo me compra vinte pães na primeira padaria que encontrarmos pela frente quando sairmos daqui. Se eu perder, lhe pago quarenta.
— É muito.
— Você não gosta de pães?
— Não é isso. Não posso pagar nenhum. Deixei a carteira em casa.
— Não terá que pagar coisa alguma, seu Mané. Basta me provar que existem pessoas inteligentes. Eu acho que a maior parte dos que aqui estão, grosso modo falando, não sabe nem por qual motivo resolveu sair de casa...
Um grandalhão sem camisa ouvindo essas palavras engrossou. Queria pegar o baixinho dos óculos de aro banhado em ouro e jogar para o alto.
— Burro é o irmão mais velho do seu tio —, aquele que colocou você no mundo. Eu topo a parada. Pago os vinte do seu amigo aí, mais os quarenta e ainda entro na briga com vinte. Oitenta pães não se veem, todo os dias, numa mesa.
Para não ficar por baixo, o baixinho dos óculos de aro banhado em ouro topou.
— Fechado.
— Quem começa?
— Por favor, vá em frente.
— Vou sabatinar o prezado com perguntinhas fáceis.
— Eu escolho o tema.
— Nada disso: eu pergunto, eu escolho.
— Não tem graça.
Uma senhora que ouvia o papo dos três com atenção desmedida resolveu entrar no meio da confusão.
— Posso dar uma sugestão aos ilustres cavalheiros?
— Vá em frente, madame.
— Senhora...
— Que seja.
— Escreverei em pedacinhos de papel, algumas palavrinhas simples, ao acaso. Chacoalho nas mãos, vocês fecham os olhos e tiram um. Por exemplo, o Senhor aí, tirou “relógio”. O outro, aqui, “oligopólio”. Eu, então, perguntarei: o que é é um relógio, ou o que venha ser oligopólio? A resposta deve ser rápida, simples e objetiva. Quem for mais sucinto será o ganhador. Podemos começar?
O dos óculos de aro banhado em ouro deu um passo à frente:
— Estou pronto.
— E eu aqui para o que der e vier.
Enquanto a bondosa senhora cuidava dos nomes, um outro cidadão com o boné do Flamengo resolveu entrar no desafio.