terça-feira, 4 de janeiro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Brincando de quem sabe mais

Aparecido Raimundo de Souza

DOIS SUJEITOS
discutiam na fila da casa lotérica. O primeiro, um baixinho sobejamente vestido, no rosto ostentando um óculos de aro banhado em ouro, camisa de seda e calça de terno de marca, tinha cara e pinta de intelectual. O outro, humildemente composto, carecia, na verdade, de tudo, a começar por um bom par de sapatos. Sem falar na camisa rasgada nas costas, a calça jeans com uma mancha de tinta vermelha na perna direita. Parecia, coitado, um ganso recém afogado numa bacia de água quente.
— Digo pra você uma coisa e pode ter certeza. A maioria dos brasileiros é burra. Ou melhor: os filhos da nossa terra são burros de pai e mãe.
— Não acredito. Existem pessoas inteligentes.

— Mas é uma minoria. O resto, come capim. Topa tirar a prova dos nove?
— O que ganho com isso?
— Vamos fazer uma aposta.
— De que tipo. Se for dinheiro, aviso logo: aqui no bolso só disponho, miseravelmente dos trocados para o jogo da virada de ano. Quero entrar 2022 rico.
— Espera lá. Se eu ganhar, o amigo me compra vinte pães na primeira padaria que encontrarmos pela frente quando sairmos daqui. Se eu perder, lhe pago quarenta.
— É muito.

— Você não gosta de pães?
— Não é isso. Não posso pagar nenhum. Deixei a carteira em casa.
— Não terá que pagar coisa alguma, seu Mané. Basta me provar que existem pessoas inteligentes. Eu acho que a maior parte dos que aqui estão, grosso modo falando, não sabe nem por qual motivo resolveu sair de casa...
Um grandalhão sem camisa ouvindo essas palavras engrossou. Queria pegar o baixinho dos óculos de aro banhado em ouro e jogar para o alto.
— Burro é o irmão mais velho do seu tio —, aquele que colocou você no mundo. Eu topo a parada. Pago os vinte do seu amigo aí, mais os quarenta e ainda entro na briga com vinte. Oitenta pães não se veem, todo os dias, numa mesa.
Para não ficar por baixo, o baixinho dos óculos de aro banhado em ouro topou.

— Fechado.
— Quem começa?
— Por favor, vá em frente.
— Vou sabatinar o prezado com perguntinhas fáceis.
— Eu escolho o tema.
— Nada disso: eu pergunto, eu escolho.
— Não tem graça.

Uma senhora que ouvia o papo dos três com atenção desmedida resolveu entrar no meio da confusão.
— Posso dar uma sugestão aos ilustres cavalheiros?
— Vá em frente, madame.
— Senhora...
— Que seja.
— Escreverei em pedacinhos de papel, algumas palavrinhas simples, ao acaso. Chacoalho nas mãos, vocês fecham os olhos e tiram um. Por exemplo, o Senhor aí, tirou “relógio”. O outro, aqui, “oligopólio”. Eu, então, perguntarei: o que é é um relógio, ou o que venha ser oligopólio? A resposta deve ser rápida, simples e objetiva. Quem for mais sucinto será o ganhador. Podemos começar?

O dos óculos de aro banhado em ouro deu um passo à frente:
— Estou pronto.
— E eu aqui para o que der e vier.
Enquanto a bondosa senhora cuidava dos nomes, um outro cidadão com o boné do Flamengo resolveu entrar no desafio.

— Não pude deixar de ouvir a conversa fiada dos amigos. Quero provar aos distintos que não sou burro e levar para casa todos esses pães que estão em jogo...
— Pois tome guarda.
— Estou dentro...
A fila aumentava de tamanho a cada abrir e piscar de olhos. Na verdade, todos esperavam pelo desfecho da contenda. Saber quem seria o felizardo a ir embora com uma baita sacola de pães quentinhos. Num canto, onde havia uma espécie de bancada, a boa senhora grafava as tais indagações que seriam sorteadas entre os presentes. Uma funcionária avisada do que ocorria, bondosamente trouxe uma caixinha:
— Dona, a senhora põe os nomes aqui “drento” e balança...

A mulher agradeceu o gesto cortês da garota. Ao acabar de escrever, colocou todos os papeizinhos na caixinha, e, em seguida, se voltou para os competidores que a aguardavam, impacientes.
— Estão prontos?
Todos balançaram a cabeça, afirmativamente.
Nessa altura, a fila não era mais uma fila. Os que haviam chegado depois, procuraram se acotovelar em derredor, formando um grande circulo em torno dos desafiadores que tomariam parte da enxurrada de questionamentos.
— Quero alguém para sortear a primeira perguntinha.
Um senhor acompanhado de uma menina que puxava um cachorrinho por uma coleira, se prontificou. Meteu a mão na caixinha e trouxe na ponta dos dedos, uma tirinha rosa. Leu:
— Flauta.

O cara de óculos de aro banhado em ouro deu um passo à frente:
— Respondo.
— Quando quiser...
— Instrumento musical de sopro.
— Ótimo. Agora o senhor que respondeu por favor, puxe um papelzinho.
— Tabuada.
Foi a vez do grandalhão sem camisa.
— Fácil. Livrinho que contém as quatro operações fundamentais.
— Bom. Agora tire a próxima disse a velhinha. Quem se habilita? O grandalhão sem camisa leu a palavra:
— Escanifrado.
— Não sei...

— Aí está o primeiro burroooooo — completou a velhinha, eufórica.
Uma quase confusão restou formada. A senhora que intermediava, por pouco não levou uns tapas. Ao se ver acuada, deu uns gritos estridentes que reverberaram por todos os espaços da agência. Os funcionários vieram em socorro:
— Senhores, pelo amor de Deus, se comportem como adultos. Que coisa horrível! Quem souber, pode responder.
O silêncio se fez total. Ninguém, claro, sabia definir escanifrado.
— Bem, até agora o meu amigo dos óculos de aro banhado em ouro continua empatado com o nosso amigo grandalhão sem camisa.
— Pois vamos desempatar — se manifestou o senhor que rebocava a menina e o cachorrinho. Se me permite, senhora, pedirei ao amigo do boné do Flamengo, por gentileza, que sorteie a pergunta seguinte.

— Atenção — estrondou a senhora: quem acertar, leva os oitenta pães. Quem errar, paga. Entendido?
Todos fizeram que sim balançando a cabeça.
O homem do boné do Flamengo meteu a mão na caixa.
O silêncio se fazia total.
— Mentecapto...
O sujeitinho dos óculos de aro banhado em ouro olhou para o grandalhão sem camisa e o grandalhão sem camisa o encarou, de cima em baixo, desafiador.
— E então, seu intelectual de meia tigela? Passa ou responde?
— Não, eu respondo. E você?
— Também respondo...

— Cedo a vez. Solta a língua. Tá vendo, não sabe. Burroooooo...
— Você idem, também não sabe o que é mentecapto. Burroooooo...
— Você é um energúmeno. Está blefando. Burroooooo...
A boa velhinha resolveu apartar o que logo terminaria em briga.
— Vou contar de um a três. Quando terminar o que souber, responde e leva os oitenta pães. Lá vai:
— Um...
Podia ser ouvida até a respiração dos rivais. A roda de curiosos cruzava os dedos, outros rezavam.
— Dois...
— É agora ou nunca: três.

O dos óculos de aro banhado em ouro resolveu abrir a guarda.

— Está bem. Desisto. Não sei a resposta...
— Burro, burro, burroooooo — ecoou a uma só voz em uníssono a galera que assistia e torcia pelos jogadores.
— Silêncio, gente, deixaram a educação no chiqueiro?
— Tudo bem, sou burro. Reconheço. Então diga qualquer um de vocês o que é mentecapto? Vamos, falem, vamos, miseráveis, desembuchem...
Os homens que se doeram ao serem taxados de miseráveis, do nada se engalfinharam e rolaram pelo chão, aos tapas e aos socos. Um corre-corre dos diabos tomou forma.

Os seguranças do estabelecimento precisaram entrar em cena, bem como alguns funcionários. Final da história: viaturas da polícia militar foram acionadas. Todos acabaram na delegacia, inclusive a boa velhinha que teve a ideia dos papeizinhos picados. Nem o idoso que trazia pela mão uma menina com um cãozinho atado a uma coleira conseguiu ficar de fora. Quando saiam escoltados pelos fardados, a multidão (não só das pessoas que esperavam para jogar), como uma dezena de transeuntes que passava na calçada deu novo clamor ao coro das chacotas, em repeteco:
— Burroooooo!... Burroooooo!... Burroooooo!...

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 4-1-2022

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