terça-feira, 25 de janeiro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Síndrome do descuido

Aparecido Raimundo de Souza

POR MUITO TEMPO, o 7794 foi o ônibus que eu pegava para ir para a casa dela depois de um longo dia de trabalho cansativo e estafante. Era uma linha difícil, o que redundava numa espera longa e às vezes cansativa e enfadonha. A viagem começava no terminal de Santa Gorete dos Milagres e se prolongava até o ponto do meu destino, na pacata cidadezinha de Luz das Estrelas. Não se fazia muito afastado, o lugarejo, quarenta e cinco minutos, talvez um pouquinho mais, dependendo do trânsito. Final da jornada eu me alegrava, porque sabia, ela me esperava sentada no portão com um sorriso no rosto e um beijo de boas vindas com gosto de café feito na hora. Eu me entregava de corpo e alma à esse chamego renovando as forças no descanso do seu afeto.

Quando demorava, ela se desesperava e ligava. Uma, duas, às vezes até seis tentativas. Queria saber por onde eu andava e se logo estaria presente para o jantar. Quando eu não retornava (nunca o fazia), mandava reiteradas mensagens via WhatsApp com as palavras “Triste,” “sozinha”, ou um “queria que estivesse aqui agora.” Como um santo decaído, ungido pelas garras do mal, eu me avessava a não dar satisfações dos meus atos e passos. Tinha consciência que a “cara metade” ficaria zangada, e pior, fula da vida. Confesso, sempre fui assim: um ser difícil de tirar do casulo, absorvido por decisões subversivas, destituído pela falta de limites na vida cotidiana de um sujeito normal.

Na verdade, eu me tornara um imbecil desligado, um ausente, senhor de mim e, em paralelo, para completar o quadro do meu ostracismo, escutava (como se viesse do nada), aquela célebre frase dos antigos: “pau que nasce torto, até a cinza se faz desengonçada.” Sabia, de antemão que a relação que vivíamos, não iria longe, não prosperaria. Logo acabaria num enorme buraco cheio de espinheiros e sofrimentos. Eu vivia, a cada acordar, perpetuando reiteradamente sequelas prematuras, o que bem sabia, construía a própria sepultura para enterrar meus loucos devaneios. Às vezes, ao olhar para o rosto dela, via os desgostos de seu coração aflorados como balões suspensos no teto, prestes a ganharem o espaço numa viagem-voragem de onde não havia como retornar.

Apesar do tempo que vivemos juntos, embaixo do mesmo telhado, dividindo gavetas e cabides, as contas do mês e um calhamaço de problemas os mais diversos, o final se avizinhava inexoravelmente próximo. Bastava, sabia, apenas um empurrãozinho do azar para tudo findar num trágico desfecho. A tranquilidade, num piscar de olhos, me escaparia por entre os dedos. De contrapeso, um desses desenlaces sem volta e totalmente divorciado de qualquer possibilidade de abertura serviria de base sólida para suplantar ou restituir a calmaria de uma possível paz duradoura. O caso é que eu não queria essa paz duradoura. A partir dai, nosso ninho de quimeras se transformaria (aliás, se transformou), no meu oposto, como se caminhasse (e não caminhou, voou) em direção de um amanhã lúgubre e sombrio.

Tinha plena consciência, em breve, lágrimas inundariam nossos beijos apaixonados, enquanto soluços nos fariam soçobrar juntamente com os melhores momentos da mais pura e plena aragem soprada de um zéfiro mitológico. Envolto nas raias dos altos e baixos, o que eu temia, ou melhor, o que eu esperava, esperava, aconteceu. Um astroso imensurável não demorou para colocar um ponto final pesado na situação, sem a possibilidade, por mais remota que fosse, de reconciliação. Nesse tom amargo e apartado de qualquer resquício de uma congração triunfal aos bons tempos de outrora, o amor esmiudou, a ternura acabou, o carinho escorreu para um ralo-brejo e a onda de encantamento que existia se esvaiu, se escafedeu e esfriou definitivamente. Cada um, a partir dai, seguiu por sendas diferentes, na tentativa da busca por novos passos que trouxessem emoções ainda não edificadas.

Vivemos, no agora do jamais, do mesmo parentesco do desagradável e denso isolamento. Ela se debate em busca de outros “seus”, e, eu, mergulho perseguindo outros “mins” numa luta-peleja insana, onde não haverá um vencedor a galgar a glória de levantar, ao cimo, a  pesada taça da vitória. Essas minhas manias de louco são incorrigíveis. Certamente morrerão comigo. De tudo, o que restou? Quase nada! Apenas as lembranças marginalizadas de um tempo bom, de uma excelência inimitável... um período de presságios que pareciam indestrutíveis. Uns certos desvios de condutas ajudaram a enfraquecer a relação. Sempre baterei nessa tecla, porque é a única verdade que me acompanha. O castelo de areia que construí se desfez levado por um vendaval mais afogueado que a tudo transformou em pó.

Entendo que a vida, de alguma forma, está me castigando, me mantendo vivo, todavia atrelado numa desforra infame, pejorativa, que não me permite escapar por vias de fuga. Perdi a autonomia. Antes pudesse parar o tempo, sem que isso se tornasse uma atitude denunciadora do meu óbvio mais cruel e esmagante. Os pilares ostentadores dos meus pecados capitais, não me permitem, agora, que eu reveja a realeza dos sustentáculos que um dia cuidaram das alegrias que habitavam em meu peito. Hoje, sobrevivo numa realidade mórbida que desconheço o que virá logo a seguir. Tanto tempo depois, ainda me chega uma saudade ingrata à bater na porta. Sem que lhe dê passagem, ela não me respeita. Entra, toma conta de tudo e se abanca, intransigente, se faz ociosa numa cadeira na sala vazia num canto esquecida dentro do meu “TODO” desfalecido.

No silêncio que pesa e no vácuo do imutável, sinto que dentro de mim, ou dito de forma mais clara, dentro de nós, bem lá no fundo, alguma coisa ainda vive, porém, morre aos poucos. Desesperado, tento empilhar esses momentos sobrevividos, como madeiras numa gôndola sem as amarras necessárias. Não consigo! Um adversário indigno de sorriso frio, surge do acaso e me põe à nocaute. A cólera do céu se faz pesada, apesar do fogo da paixão tentar manter a tênue chama que, apesar de todas as discrepâncias, insiste taxativamente em não perecer. Meu “âmago” se metamorfoseou numa placenta de curvas hemodinâmicas sem a viabilidade daquilo que a medicina chamaria de prematuridade. A dor que me atormenta, é quase fatal, como um parto nascituro.

Por essa razão, apesar desse e de outros desvios, creio continuar vivo e profundamente apaixonado, sempre pelejando para, numa tentativa de honra, me desenroscar. Bem sei, não conseguirei. Não tenho mais onde me agarrar. Ainda assim, sobrevivo, aos trancos e barrancos, viajando ligeiro por uma estrada de final incerto. Como à bordo do antigo 7794 em direção à Santa Gorete dos Milagres. Possivelmente, logo adiante, num ponto bizarro, sucumbirei rápido e fraco como um suspiro, inexoravelmente atrapalhado, preso, amarrado, enfiado num buraco de proporções gigantescas. Nessa hora amarga, euzinho, espectro de mim mesmo, ressurgirei do fundo do meu passado e, como um cadáver à deriva que uma onda inquestionavelmente trará de volta à praia, eu me defrontarei com o meu fim.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 24-1-2022

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