sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Episódico

Aparecido Raimundo de Souza

TODO SANTO DIA
, logo pela manhã, quando se levantava e se dirigia à cozinha, a Marinalva dava de cara com Pirueta, o cachorro de seu marido Cachola. Como Cachola saia antes das cinco, deixava o cachorro entrar, alimentava o animal e, ao se dirigir para a rua, às vezes afobado, para não perder o ônibus da empresa que o pegava na esquina do bairro, se esquecia de prender o doméstico na coleira e o devolver à sua casinha, nos fundos do quintal. O espetáculo das desarmonias e hostilidades entrava em cena a partir daí. Marinalva, não suportava o Pirueta. 
Assim que topava com ele deitado no corredor da cozinha, entre a mesa do café e à área de serviço, a trilha sonora dos absurdos se abria numa espécie de canção complexa de xingamentos.

Depois, na sequência, vinha o enxotamento para o terreiro, geralmente munida de uma cinta de couro ou a poder de vassouradas sobre seus costados.
— Vamos, pula fora, depressa... desinfeta... vá para os quintos...
Esses encontros, na verdade, passaram a ser corriqueiros. Marinalva, como sempre, depois de cuidar da sua higiene pessoal, deixava o banheiro e se preparava para os afazeres normais. Era a partir daí, que ao dar face a face com Pirueta, a sua paciência desmoronava para os extremos da cólera que criava vida dentro de seu coração. Emproada num discurso edificado no ápice do oposto da sua insensatez, se alheava como se sobre ela baixasse o espírito da deterioração da mente conturbada.

De calma e centrada, algo incomum dava lugar a uma espécie de loucura silenciosa e o pobre animal, por sua vez, se transformava num estranho no ninho:
— Cachorro dos diabos... você aqui de novo?
Marinalva, totalmente fora da razão, deixava cair a máscara da esposa bondosa e se armava da vassoura assassina. Abria a porta e partia para cima do indefeso, ao tempo em que descarregava uma série impiedosa de golpes repetidos sobre ele, açoites ressuscitados das manifestações advindas dos dias anteriores. As sucessões dos maus tratos eclodiam sempre dessa forma, protegidos pela mudez de um inocente que nada podia fazer para mudar aquele quadro lúgubre.

Sem variações coerentes, a não ser para um patamar cada vez mais agressivo e perverso, Pirueta, invariavelmente acabava envolto nas sanhas da tresloucada. Maltratado, pisoteado, escorraçado, certamente na cabeça daquela criatura infame, ele deveria carregar em suas entranhas canina, todos os pecados do mundo.
— Suma, infeliz... vá pra bem longe, onde eu não possa sentir seu cheiro...
Em face dessas repetências inconcebíveis, o inacreditável atonava. O cachorro, pacato e humilhado, cabisbaixo e cheio de hematomas em vista das infindáveis transgressões recebidas, sofria horrores. Entretanto, reza um ditado que ensina: “não há mal que sempre ature, nem bem que nunca se acabe”. Algo inusitado ocorreu. Antes de ganhar a liberdade tranquilizadora do quintal, Pirueta encarou a algoz com seus olhos ternos de cãozinho desprotegido.

Em contínuo, latiu de modo diferente. Depois de meses sendo alacranado, alguma coisa o fez acordar do marasmo. Na verdade, o carecido de afeto não latiu. Falou. Soltou a sua dor ingente numa esganiçada só. Uma mistura de voz-e-palavras, palavras-e-latidos pulou de sua garganta, em bonançoso compasso. Marinalva, apesar do espanto e da tremedeira que se apoderaram da sua estupefação, e, ainda assim, não se convencendo da veracidade do que acabara de ver e ouvir, a sua ficha caiu e ela, no minuto seguinte, entendeu literalmente o recado que Pirueta acabara de lhe transmitir:
— Por favor, abra o cadeado. Me liberta.
Para tornar a coisa mais intrigante, o desditoso completou:
— Em breve nos veremos. Adeus, megera!
A desgranhenta acedeu ao pedido e escancarou o vazio da calçada. A noite, quando Cachola chegou, não encontrou o seu estimado latindo, embora gritasse por ele, à alta voz:
— Pirueta, Pirueta, cadê você? Venha cá, meu menino... Pirueta...

Na cozinha, depois de revirar todo o quintal, se arrostou com uma cena espantosamente ambígua.
Marinalva estava deitada, ao lado da geladeira, de barriga para cima, as pernas esticadas para o alto, as mãos, do mesmo modo, como se juntadas em atitude de prece. Sua estrutura toda se fazia enrijecida.
— Marinalva, meu amor, o que aconteceu?
Houve um longo e deficiente minuto sem que nada fosse dito. Por fim, o aparte da companheira, em oscilação de choque, o deixou gelado, estupefatado, perplexo. Pior: atordoado, sem ação, apatetado, boquiaberto, completamente fora de si. Custou a recuperar o ar e a serenidade:
— Marinalva, Marinalva, pelo amor de Deus — insistiu em prantos. Fale comigo... amor, amor...
Em contradita, a caninana balbuciou algo, ou melhor, não realmente trouxe para a sua assimilação, alguma coisa objetiva, expressada em palavras: Marinalva expluiu em uma série de anárquicos e assarapantados latidos.

Pirueta desde essa manhã em que ganhou a carta de alforria, nunca foi encontrado, embora vizinhos e amigos ajudassem ao Cachola a procurar por ele de forma incansável varrendo todos os cantos, ruas e bermas adjacentes. Marinalva se divorciou da vida de esposa e se amigou com uma demência psicótica experimentando, dentro dela, níveis insuportáveis de sofrimentos. Seu estado crítico evoluiu para uma admoestação delirante e incurável, em face de persistir com seus ganidos e a agir, sobretudo, como se cachorro fosse. Menos de seis meses precisou ser afastada do convívio do companheiro. Atualmente purga seus dissabores internada num sanatório. Quando alguém se dispõe a ir até lá, é informado, de antemão, pelos cuidadores, que a Marinalva (usando coletores para urina e fezes) dará as boas vindas levantando a perna, e fazendo xixi, como se o visitante fosse um poste.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, no Espírito Santo. 21-1-2022

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