domingo, 30 de janeiro de 2022

[As danações de Carina] Etiquetas

Carina Bratt

HOJE FALAREI para vocês, em rápido escorço minhas amigas de todos os domingos, sobre a ‘etiqueta’. Vocês sabem o que significa? Segundo o Dicionário Aurélio, a etiqueta é um ‘conjunto de cerimônias que se usam na corte ou na casa de um chefe de estado’. Etiqueta pode ser, igualmente, ‘formas cerimoniais de trato entre particulares’’. Resumindo: etiquetas são pequenas coisinhas básicas, ministradas por normas simples de estilo sutil que necessitamos carregar na bolsa, como o pente, o batom e uma lingerie sobressalente para não deixarmos aquela impressão de desleixada.

No caso que aqui pretendo tratar, a etiqueta diz mais ou está  ligada às normas de conduta. Entrelaça a uma série de costumes do dia a dia. Se agrega à regulamentos vinculados à estilos, ou hábitos que devemos estar sempre atentas para não cairmos no efeito ‘feio-ridículo’, ou no ‘desusado-patético’’. Saber se comportar quando num evento, é uma etiqueta imprescindível. Num restaurante, para um almoço ou jantar, a etiqueta deve estar sempre presente, como uma rosa enfeitando um vaso solitário num canto esquecido da sala.

Precisamos, acima de tudo, saber respeitar, para não deixarmos aquela impressão de que somos deselegantes e rabugentas. Exemplos: numa festa: não comer ou beber demais, a ponto de desviar quilômetros do nosso natural. No restaurante, ainda que entre familiares, não encher o prato em demasia, tampouco repetir uma determinada guloseima duas ou mais vezes. É de bom entendimento não beber além da conta, misturando bebidas a ponto de se chegar às raias da embriaguez.

Já vi cenas de pessoas saindo carregadas de lugares públicos exatamente por ter se excedido nos copos ingeridos. As regras são formas corriqueiras de agir em determinados momentos do nosso cotidiano que sinalizam o que devemos ou não fazer para a convivência com outras pessoas. Onde termina a minha educação, a minha lisura, começa a do outro, ou pelos menos assim deveria ser. Não há nada mais estúpido que aturar um bêbado. O bêbado foge a todas as regras conhecidas. Sem carecer falar nas regras que ele, fora do seu estado normal, inventa para deixar os nervos de quem está por perto, em frangalhos. 

Por outra ótica, a etiqueta está entrelaçada a tudo o que usamos. Calças, blusas, sutiãs, sapatos, meias, calcinhas, óculos, gravatas, escovas de cabelos, perucas postiças, de dentes e dentaduras, bolsas, malas... até os talheres, os pratos, e vasilhames de nosso lar, se não forem de marcas famosas, ou de etiquetas chamativas, passam batidos. Enfim, caríssimas amigas, a lista dessas ‘idioticidades’ é imensamente grande. Algumas criaturas preferem as etiquetas 'fura olhos', deixando de lado as ‘baratinhas’’ de R$ 1.99. 

Tem gente que se dá ao luxo de usar um relógio de R$ 200 mil reais. Outros colocam nos pés sapatos de R$ 60 mil. O Faustão é um desses malucos excêntricos. Final do ano passado, presenciei num necrotério de um famoso, uma cena hilária. O defunto fresco (o tal famoso que acabara de virar cadáver), discutia com seu secretário de imprensa, e o fazia acirradamente. Ele se negava a seguir viagem deitando seu corpo sem vida, desfalecido e inerte, num caixãozinho de segunda. Fazia questão de ser enterrado com toda pompa, num desses ataúdes forrados a ouro, com janelas com vistas para fora da sepultura, ar condicionado, televisão, rádio AM/FM... exigia, inclusive, que lhe trouxessem um ursinho de pelúcia rosa que ganhara da namorada. Ah, na lista, um celular de linha, com tecnologia 5G, para falar com os amigos que deixara sem dar o adeus e um até breve.  

Todas essas bobagens amigas, acreditem, são coisas ‘desfundamentadas’. Não vão além de etiquetas falsas, enganosas, ‘ludibriativas’, prontas para achincalharem a nossa falta de tino e, ao final, arrancarem das nossas carteiras o dinheirinho suado que batalhamos para ganhar. A propósito disso em 16 de janeiro de 1982, Carlos Drummond de Andrade publicou no Jornal do Brasil (no Rio de Janeiro), ou mais precisamente no ‘Caderno B’ um poema intitulado ‘Eu, etiqueta’.

Tal achado, brilhantemente veio ilustrar de forma magnânima, a minha humilde colaboração, e, sobretudo, deixar sintetizado que a propaganda, ou a etiqueta, seja ela comercial ou ideológica, estará sempre ligada aos objetivos econômicos e aos interesses da classe dominante. Igor Caruso, em seu livro ‘A Separação dos Amantes’, ensina que ‘a etiqueta errada’, ou a ‘reiteração contínua’ da propaganda séria é ocultada por uma inversão, ou seja, a propaganda sempre mostrará que quem sairá ganhando com o consumo das etiquetas ‘limpa tontos' ou ‘enganadoras de trouxas’ não é o dono da empresa, nem os representantes do sistema, mas sim, o consumidor’’.

Em conclusão, o poema ‘Eu, etiqueta’, de Drummond que fiz menção acima: 

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

Título e Texto: Carina Bratt. De Vila Velha, no Espírito Santo. 30-1-2022 

Anteriores: 
Sob a sombra de antigas mortes o silêncio se deitou esquecido 
O outro gume da faca 
Tão legal e saboroso quanto comer baratinhas assadas no escuro 
Ausência sentida 
O BEM e o MAL. Dois caminhos DISTINTOS 
Um dia como outro qualquer... 
Tudo não passa de vaidade. O essencial é invisível aos olhos 
Pelo simples motivo de existir

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não aceitamos/não publicamos comentários anônimos.

Se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-