terça-feira, 25 de janeiro de 2022

[Estórias da Aviação] Os números esquecidos, a realidade e as consequências

José Manuel

A surpresa tomou conta de mim ao longo do tempo em que escrevia as minhas memórias, tendo o cuidado sempre de escrever de um modo fácil, descontraído, irônico, revelador de fatos desconhecidos a alguns e procurando não ser enfadonho, até porque muitos vivenciaram fatos semelhantes.

Mas... por que surpresa?

Na medida em que escrevia, ia me surpreendendo com fatos que ao longo de todos os anos voados, tinham passado completamente desapercebidos por mim e, acredito, pela maioria.

Fatos, reais, originados nas programações dos voos, objeto mister da profissão, que tinha que ser executado por força de um contrato laboral, mas que hoje, vistos sob outra ótica, nos mostram algo surreal e inacreditável, que tenhamos passado por aquilo, e ainda estarmos por aqui. Vivos!

Ao mesmo tempo, a perda nestes últimos tempos de quantidade expressiva de colegas ainda relativamente jovens para um novo padrão etário mundial, me fez pensar muito sobre o que aqui está escrito.

Em nenhum momento, este relato é cobrador, sofredor ou reclamador, até porque fiz porque quis, não sendo nunca pressionado a nada.

Apenas um rastreamento do que o meu corpo biológico “pode“ ter sofrido com o que passo a relatar e quais as consequências a longo prazo. 

Quais e de que tipo? Não sei!

Também tenho perfeita consciência de que sempre fui monitorado por órgãos capacitados ao exercício da minha antiga profissão.

Logo que inicio as minhas estórias, em caráter histórico, lá pela década de 70, me refiro a certas programações tanto nos turbo-hélices AVRO e ELECTRA, como em jato, no caso o B-727, em que num mesmo dia realizávamos voos com dez, doze escalas. Hoje, com calma e observando por outra ótica, os números se multiplicam assustadoramente, coisa que nunca havia me dado conta à época.

Avro-748, foto: Marcelo Magalhães

Por exemplo, uma programação com dez escalas significava nove decolagens e nove pousos, num total de dezoitooperações, pressurizando e despressurizando num período de dez a doze horas.

Qual terá sido o efeito dessas pressões e descompressões controladas, num volume incrível para uma jornada de algumas horas, sobre o meu organismo ao longo dos anos? Não sei!

Até ao momento, passados cinquenta anos apenas e felizmente uma rinite/sinusite crônicas, me causam mal-estar permanente e espero que fique por aí. 

Quanto ao barulho infernal dos turbo-hélices, em especial os AVROS, os efeitos são mais sentidos ao longo do tempo, pois, como todos sabem, só quem usava os EPIS, de proteção eram os funcionários de terra junto às aeronaves, apesar de que os motores funcionavam durante algum tempo com as portas abertas e ficávamos sujeitos a decibéis altíssimos por algum tempo.

Multiplique-se isso por dez horas seguidas e teremos aí uma resultante com efeitos irreversíveis na nossa audição.

Ao final deste texto dois vídeos mostram o som produzido pelas turbinas do AVRO e do ELECTRA [foto]. É simplesmente ensurdecedor!

No meu caso específico a resultante, que aliás me cassou a carteira de voo foi uma perda severa de 80% no ouvido direito e 30% moderada no esquerdo.

Apesar disso, a Previdência Social sempre disse que eu não sofria de nada e não me liberou de não pagar o imposto sobre renda, algo que é lei porque fui incapacitado pelo CEMAL, e a que tenho direito.

Um país de espertos, claro, mas nem tanto, pois quando o fizerem na lei, terá que ser retroativo com correção ou, o mesmo de sempre como já conhecemos de sobra!

Mas... e a vibração de corpo inteiro causada pelos motores da aeronave, ao longo de um voo transatlântico por exemplo, no meu organismo ao longo de trinta e dois anos?  E eu fiz mais de 1800 dessas travessias!! 

E a irradiação (exposição à radiação) na minha medula, na minha tireoide, na minha pele com várias lesões retiradas ao longo dos anos?

"As altitudes de voo das atuais aeronaves a reação são entre 39.000 pés e 51.000 pés, onde, a partir de 25.000 pés a dose de radiação dobra a cada 6.000 pés, ou seja, quanto mais alto for o voo, maior será o índice de radiação absorvido pelo tripulante".

E o estresse físico e mental como relatado no texto “Varig... Luanda e Cabul" quando chegamos a voar numa mesma programação vinte mil quilômetros?

Acho que já posso parar por aqui, para não me estender demais nas variantes, mas o link abaixo muito bem elaborado deve ser lido por todos os atuais e ex- aeronautas, no sentido de conhecerem melhor a sua profissão, pelo que passaram e estarem atentos, pois muitos colegas perderam a vida, sem saberem exatamente o agente causador de seus males. E isso é a pior parte desta estória, o que me encorajou a escrever este texto elucidador de fatos, talvez até propositalmente esquecidos. 

Profissão do Aeronauta e a Exposição a Doenças.

Até 1995, todos o Aeronautas, exatamente por estarem expostos a agentes nocivos, insalubridade, como o relatado acima, eram aposentados com vinte e cinco anos de serviço, sem contar sua idade à época, o que era um avanço em nossa legislação, e salvaguarda de nossa saúde futura.

Aí, um iluminado de baixo pra cima, cassado pelo regime militar anterior e facilitador de políticos criminosos como os que saquearam este país, durante 16 anos, em seu mandato, simplesmente cancelou a nossa aposentadoria especial, fazendo uma lambança na vida dos Aeronautas.

Quem é ele? Dizem que mora em Paris, na Avenue Foch.

Sons do AVRO e do ELECTRA:

https://youtu.be/Pow-KH34EPA

https://youtu.be/3EYJuO09RLs

Título e Texto: José Manuel – Certamente seus familiares não foram tripulantes. Janeiro de 2022

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[Estórias da Aviação] A Varig... Luanda & Cabul 
As ervas da ira. (Prólogo) 
O voo 100, o apartamento e Lisboa 
[Estórias da Aviação - Extra] Fatos & Cronologia 
A chegada do Jumbo e o bullying finito 
O gordão de nariz em pé 

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