terça-feira, 18 de janeiro de 2022

[Aparecido rasga o verbo] Irrefutável

Aparecido Raimundo de Souza 

A PRISCILA CHEGA PARA O PAI
assim que ele coloca os pés em casa e, na sua inocência dos onze anos, manda os questionamentos sem pensar duas vezes no que obterá como esclarecimentos às suas indagações:
— Pai, paizinho... posso lhe perguntar umas coisas?
— Claro, minha filha.
— O senhor me ama?
— Muito, Priscila. Você nem imagina o quanto!...
— Tem certeza, pai?
— Está duvidando do seu velho pai?

Priscila insiste, com certa veemência:
— Me ama como ama a mamãe?
— Amo as duas da mesma maneira, ou melhor, amo de maneiras e formas iguais. Só que, embora sendo amores iguais, são amores com perfis e sentidos diferentes.
— Como é lá isso, pai, se o senhor acabou de dizer que embora sendo amores iguais, têm sentidos diferentes?

— Vou tentar explicar de modo bem simples. O meu amor por você Priscila, é um amor de pai para filha. É aquele amor paternal, fantástico, puro, sem manchas, que está guardadinho, num cantinho oculto, escondidinho bem aqui dentro do meu peito. Que aflora no sopro do menor movimento que eu faça quando lhe beijo e lhe abraço. Em igual intensidade, o que sinto por sua mãe não se descreve... é verossímil.
— É o que, pai? Não entendi... vero... vero o quê?!
— Verossímil, filha. É aquele amor que parece verdadeiro e, na verdade é. Em outras palavras: o amor de seu pai, pela sua mãe é um amor bonito e sincero, de um homem que ama uma só mulher e não a troca por outra, nem quer se desgrudar dela. Pede à Deus que seja para sempre. E que Ele proteja a união, e permita que fiquem juntos até que a morte os separe...
— O senhor tem certeza disso, pai? É de fato verdadeiro ou não?

— Claro que sim, filha. Vou dar um exemplo prático. O amor que sinto por sua mãe é como o amor que você nutria por aquela bonequinha Barbie que você carregava pra baixo e pra cima. Você a amava incondicionalmente, ou seja, não ficava sem ela. Onde você ia, a levava com você, como se fizesse parte do seu corpo. Tenho certeza que se perdesse ou esquecesse, morreria de tédio e de solidão. Diga sinceramente para seu pai: você, três ou quatro anos passados, ficaria um minuto sem a sua bonequinha?

Priscila faz uma carinha triste. Concorda:
— Não, pai. A Barbie que o senhor me deu está comigo até hoje.
— Pois então, minha filha. Igual a você, eu não seria completo sem o amor da sua mãe. Ela é essencial. É dela... ou melhor, é de dentro dela que sai a minha felicidade líquida e que me mantém vivo e respirando. Em outras palavras: é do coração de Virgínia que brota todo o amor imensurável que preenche a minha vida. Sem a sua mãe, seu papito aqui não seria ninguém... por falar nisso, me ajuda a colocar os pratos na mesa para o jantar! Nossa Deusa está quase chegando do hospital. Não sei de onde tirou a ideia maluca de ser enfermeira...

De repente, Priscila muda completamente o rumo da conversa. A mesa quase pronta, faltando apenas as panelas, segue a curiosa com os questionamentos, todavia, agora, mais impertinentes e obsessivos:
— O senhor sabe que o pai da minha amiga Débora foi embora?
O sujeito treme imperceptível. Finge um espanto momentâneo, tipo assim, estranho:
— Ele foi embora? Desconhecia esse fato... acaso você atinou com o motivo, minha princesa?
Priscila fuzila o pai, muito rígida. De antemão conclui que ele está mentindo de forma descarada:
— Paizinho, todo mundo aqui no bairro comenta. Até os cachorros...

— De onde você tirou essa ideia maluca?
— Não é maluca, pai. Há duas semanas que o seu Murilo se separou da dona Iolanda e se mandou e o senhor é o responsável. A Débora me falou que foi por sua causa. Ela me segredou que dia sim, dia não, antes de “vim embora pra casa”, o senhor passa ou melhor, ainda continua passando na lanchonete deles e bebendo vários copos de cerveja. Depois você mais dona Iolanda despistam, somem lá pros fundos e trocam afagos... e se beijam... e num desses trololós, seu Murilo chegou mais cedo do trabalho e filmou vocês dois...
O pai da garota quase tem um piripaque brusco e inopinado. Perde a cor natural, se prostra branco, carece se sentar às carreiras, como se tivesse o corpo, dos pés à raiz dos cabelos, girando desordenadamente em torno do próprio eixo. Protesta:
— Mentira, minha filha. Sua amiguinha Débora é uma grande loroteira. Desculpa! Uma tremenda fofoqueira de mão cheia. Não dê trela ao que ela lhe conta. Se essa desgraça de conversa fiada chega aos ouvidos da sua mãe... Jesus, Maria, José... pelo amor de Deus, filha, esquece esse assunto... seu pai lhe pede por tudo quanto é sagrado.

Priscila, apesar dos poucos anos, tem uma cabeça à todo vapor e cheia de pensamentos coerentes e claros, bem coordenados e maduros para a sua idade. Examina o pai, o observa de uma maneira dura e decidida, como se, ao derradeiro, previsse a pior desgraça num tempo não muito distante:
— Não tem como pai. Tarde demais. Seu Murilo descobriu toda a verdade e puxou o carro para, segundo ela, não lhe “cortar na bala...”.
— Como foi que disse filha? Me cortar na bala? E por que o Murilo faria tal coisa?

A menina se posiciona ainda mais impenetrável. Seus traços se amuam num semblante de quase mulher adulta. Do nada, começa a chorar. Entre lágrimas, esclarece, a voz completamente embargada:
— Pai, eu não quero assustar o senhor. Mas olha: pega aqui o meu celular e assiste as filmagens que a Débora me mandou ontem a tarde, pelo WhatsApp...
—... Filmagens? Que filmagens, filha?

— Por favor, pai, veja os vídeos... e se prepara para a bomba. Como o senhor continua passando por lá, como se nada tivesse acontecido, dona Noca, irmã do seu Murilo se emputeceu de razão e viralizou as provas. Não sei como vai acabar essa confusão toda entre o senhor e minha mãe. O que sei, é que a tia da Débora, a maldita dona Noca, postou as sacanagens entre o senhor mais dona Iolanda para todo o grupo da família dela e da nossa, incluindo a mamãe... por falar em mamãe não deve ter visto ainda essas bandalheiras, apesar do tempo, porque tem mania de desligar o telefone quando está de plantão no hospital. Não fosse por isso e por conta dos infectados da Covid-19, que ela está cuidando, o senhor estaria no mato sem cachorro...

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Salvador, na Bahia-BA, 18-1-2022

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