domingo, 12 de dezembro de 2021

[As danações de Carina] Tudo não passa de vaidade. O essencial é invisível aos olhos

Carina Bratt  

REMONTA DESDE os tempos do ronca, o uso de joias por parte de nós, mulheres. Cada vez mais ricas, cada vez melhores cinzeladas, essas preciosidades —, verdadeiras ou falsas —, não importa. Quando empregadas com sabedoria, senso artístico e discernimento e até uma pequena pitada de humildade, creiam, amigas, elas ornam e não só ornam, paramentam e se sobressaem, e, o mais importante: demonstram, de forma divina e insofismável, o natural, ou o nosso melhor e mais almejado encanto feminino.  

Hoje em dia há um grande entusiasmo ululante, e, ao mesmo tempo, plangoroso pelas joias de todas as espécies. Notadamente pelas mais caras. Aquelas de deixar os cartões de créditos à beira de um ataque de nervos. Todavia, as beldades que não as possuem de estimado valor, carecem se contentarem com as de somenos importância, ou seja, devem procurar adquirir as de meras fantasias. Outras, é bem verdade, se empolgam com as bijuterias. Os fabricantes desses seguimentos, a cada dia, procuram tornar tão aproximadas dos outros paramentos valorosos, que muitas das vezes nos confundimos. Compramos gatos por lebres. 

Na mistura e na confusão formada, encontramos nas farmácias, nos mercados, lojinhas de R$ 1,99, bem ainda em estabelecimentos de shoppings, as peças mais lindas e variadas. Na maioria das vezes, confeccionadas com pérolas, pedras coloridas, metais dourados, prateados, enfim, com tudo isso e mais um pouquinho, os donos das ‘cocadas brancas e pretas’ vamos rotulá-los dessa forma, fazem colares, brincos, clips, pulseiras, grampos e pregadores capazes de transformarem as vestimentas mais simples num exemplar importante para, visando acima de qualquer coisa, o destaque, a elegância e o bem-estar envolvente do belo sexo. 

Nos tempos da juventude de minha mãe e tias, ficou assegurada a eficiência enérgica do ‘sweater’ como parte integrante das vestimentas daqueles idos. Assim, nesse tom, é que se fez reputado e conhecido um cronista de modas de Paris, que descoberto o gancho, pegou o veio que surgia e acabou escrevendo uma série de artigos para uma revista de grande circulação em toda a França. 

Em dias atuais, queridas amigas e leitoras quem nos veste quando somos convidadas para um jantar entre amigos? Certamente um ‘sweater’ de cor discreta vindo da zona franca de Manaus, obviamente sem chamar a atenção, salpicado com bolinhas da mesma cor, contudo, fechado no pescoço. 

E para um concerto? Bem, para um concerto, cairia bem um ‘sweater levemente decotado. No teatro, num chá informal, numa sessão de cinema, casamento, ato religioso, ou mesmo num funeral de corpo presente, um fino ‘sweater preto, decotado em V, na frente e atrás, até mesmo sem mangas vestiria com excelência. 

Se ninguém percebesse, pelo menos o defunto sorriria satisfeito. É bom que tenhamos, ao alcance das mãos, cinco ou mais exemplares, com saias: umas lisas, outras ondulosas. De contrapeso, com três ou quatro fios de pérolas brancas e luminosas. O 'demais' nunca atrapalha. 

Chama à atenção, nessa altura do campeonato, um berloque, um broche, dois ou mais que tanto podem ser verdadeiros como falsificados. Ninguém pedirá para ver a nota fiscal. Vocês guarnecerão idealmente o que os entendidos em besteiras apelidaram de ‘pul over’. 

Tenham em mente, sempre, que alguns conjuntos de joias, com pérolas, pedras de cor ou metal, têm o condão preciso, e, na medida, o que transformará seu negro ‘sweater’ em variadas ‘toilettes’. Dito de forma mais simples, em sedutoras e arrebatadoras, a ponto de fechar o pedaço e deixar todo mundo de boca aberta. Mesmo os sem dentes. 

Se vestir com elegância, garbosidade e alinho, dentro do senso prático e não só prático, forçado, da economia que os tempos atuais exigem de nós (principalmente depois da chegada da Covid-19), ainda que a arte de variar a indumentária com joias e outros acessórios, não vá muito além do esperado, é o que verdadeiramente vale e faz toda a diferença para as sofrências galopantes de agora. 

Em resumo, se não tivermos um colar de pérolas encarreiradas com fios de ouro na pala de um casaco de jérsei, uma aliança de tirar o fôlego das amigas bisbilhoteiras, um anelzinho de camelô comprado na Vinte e Cinco de Março, nada modificará o nosso quadro de mulher. As divas, somos nós, as representantes do escancarado oposto e só isso faz toda a diferença. Com adereços, sejam de ouro, prata ou metal, nós fechamos o círculo. Os homens babam, caem de quatro, ficam sem saber o que fazerem ou como agirem diante de tanta beleza. A nossa. O resto, amigas, o resto é como diria José Mauro de Vasconcelos, ‘o resto é literatura’. 

Título e Texto: Carina Bratt. De Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. 12-12-2021

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