terça-feira, 14 de dezembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Na corda bamba

Aparecido Raimundo de Souza

O NEURO-ONCOLOGISTA DOUTOR JOSÉ PAVÃO
resolve dar a péssima notícia à sua paciente. Aliás, uma paciente grácil e formosa, cheia de encantos e dona de um sorriso indescritível. Seu alinho vinha desde as plantas dos pés à raiz dos cabelos.
— Senhorita Rosa — começa o médico —, as palavras escolhidas e bem sopesadas. — Depois de olhar com todo carinho e cuidado seus exames, notadamente as tomografias computadorizadas as ressonâncias, os exames de sangue e outros mais, infelizmente a notícia que tenho para lhe dar não é das melhores.
Rosa de Medeiros fica meio assustada e se abre num sorriso amargo de quem espera pelo pior.

Apesar dos seus atrativos impecáveis, dá uma de durona demonstrando não estar apreensiva. No fundo, está. E muito. Apesar dos pesares, pede ao especialista que vá em frente e lhe conte a verdade. Fala.
— Doutor José. Seja o que for, estou preparada. Sei que o meu estado de saúde é bastante complexo para a medicina, apesar dos avanços...
José Pavão, entretanto, se põe pensativo e acha que, num primeiro momento, fez uma besteira muito grande em tocar naquele assunto tão delicado.
— Acho melhor não, senhorita Rosa. Pelo menos neste momento.

Toma fôlego e completa.
— Vamos fazer o seguinte: encaminharei a sua pessoa para refazer todos os exames que eu havia pedido. Após isto, voltamos a conversar...
Rosa de Medeiros salta da cadeira inopinadamente. Bate o pé. Insiste que a verdade, seja ela qual for, lhe seja revelada. Com a voz trêmula, implora.
— Doutor José, pelo amor de Deus. É a quinta vez que repetiremos os exames. E eu pergunto: para quê? Esta enrolação só me deixará mais agoniada. Vamos, manda longo a bomba. Eu acho que...

O doutor José a interrompe, antes que continue.
— Senhorita Rosa, me escuta. Vamos amiudar os exames. Não custa. Pedirei urgência. O prédio é aqui ao lado. Basta atravessar a rua. No máximo, amanhã, estarão todos em minhas mãos. Aí...
Rosa de Medeiros, porém, parece decidida. Não fala, grita.
— Se abra de uma vez, doutor. Sei que tenho um problema complexo com o qual a medicina não atinou com ele de forma definitiva. Um entrave sério e desgastante, que requer cuidados urgentes. Entendo que posso bater as botas a qualquer momento. Para que prorrogarmos esta agonia? Canta logo a pedra. Ao menos sairei daqui aliviada... e, para matar o tempo, irei me preparando para pegar o caminho do cemitério aos poucos...
— Como consegue fazer piada com uma coisa tão séria numa hora destas? Senhorita Rosa... me escuta. Raciocine...
— Doutor, não quero escutar nada, senão a verdade. Raciocine o senhor. Não sei o que viu nos exames... como disse, seja o que for, abra logo o bico. De repente, posso morrer daqui a alguns minutos, ou, quem sabe, à tarde, ou logo mais à noite... fale logo... sei, aliás, vejo em seus olhos que sabe o tempo exato que me resta nesta Terra. Pense que dependendo das horas ou dos minutos que tenho para o desfrute do ar que respiro, ainda possa realizar um de meus desejos mais prementes.

O medicinal desconversa pegando o gancho que se lhe apresenta oportuno.
— E qual seria um deles?
Rosa de Medeiros começa a ficar furiosa. Seus olhos fuzilam o especialista.
— Não mude de assunto. De mais a mais, acho que meus desejos não lhe dizem respeito. Vamos... qual a noticia que tem para me dar?
O sujeito fica vermelho e se impacienta.
— Calma, senhorita Rosa, Muita calma nesta hora. Olha, o seu coração. Procure frear as suas emoções... Por favor, senta. Respire.

Rosa de Medeiros não está nem ai para o próximo segundo. Quer saber o que lhe resta, em definitivo, com relação ao período que ainda terá de vida.
— Fale, droga, vomite de uma vez...
— Melhor a senhorita voltar amanhã e trazer um parente. Sua tia, seu pai, ou melhor, seu namorado... isto, seu namorado seria o acompanhante ideal.
Rosa de Medeiros se abespinha mais ainda. Falta pouco para pular no pescoço do clínico e colocar, no lugar de onde sai a voz dele, um metro de língua esmagada ao sabor do aparelho de ar condicionado que zune, quase imperceptível, num dos cantos do ambiente.

— Doutor, não me faça de besta. Fale, fale, faleeeeee...
— Sinceramente?
— Claro.
— Estou com medo, senhorita Rosa.
— Medo? Medo de quê?
— Sei lá. Medo que a senhora passe mal, ou que tenha uma indisposição, ou venha a ser acometida de um piripaque súbito. Nunca se sabe...
Rosa de Medeiros, outra vez se levanta, desta feita, mais encapelada.
— Então estou certa. O caso realmente é mais sério do que pensava. Pois bem. Fale, infeliz. Seja o que for, desembucha.

Faz uma pequena pausa e volta à carga.
— Lembra que este problema desconhecido quem tem sou eu. Quem sofre dele e com ele, sou eu. Se eu morrer, não será o senhor que irá ter missa de sétimo dia, nem comer capim pela raiz. Vamos, canta a pedra...
O cirurgião está completamente fora de si. Dana a tremer as mãos. Sem uma possível saída, opta por chamar a secretária pelo interfone: “Angelina, me traz água e café, para dois, por favor”.
Voltando à mulher, em sua beira, ela se encontra imóvel, e petrificada, as butucas da visão grudadas nos seus.

— Doutor, não quero água nem café. Apenas a verdade. Só a verdade... de preferência, sem açúcar... fala, desgraçado...
Diante deste quadro, o esculápio resolve, então, abrir o jogo. “Seja o que Deus quiser” —, pensa com os botões de seu jaleco impecavelmente branco e esmeradamente bem passado.
— Senhorita Rosa, a sua pessoa tem apenas... veja bem, apenas...
Angelina, a secretária, bate discretamente na porta e entra acompanhada de uma bandeja trazendo água, café, copos e açúcar. Rosa, com o abrupto da intromissão, volta a se acomodar na confortável cadeira, não sem deixar de se exasperar soltando um impropério.
— Maldiçãoooooo...

O doutor José Pavão ajuda a secretária a servir a água e o café.
— Senhorita Rosa, por favor... sua água...
A bela dama aquiesce. Está amofinada em seu corpo na esteira dos vinte e cinco anos. Impensadamente ataca enumerando uma série de xingamentos contra o esculápio, sem levar em conta a presença da moça que trouxe as bebidas. Cinco minutos se passam. Água e café servidos, Angelina na recepção, retorna à cena que ele, o rabino, não tem mais como evitar.
— Vamos nós de novo, doutor... sou toda ouvidos... manda o estrago...

— Senhorita Rosa, preste atenção. A senhorita tem dois dias de vida. Talvez três...
— E qual é o diagnóstico derradeiro?
— Câncer no cérebro, em estado terminal. Veja, senhorita Rosa, no estágio em que se encontra, pelos exames que tenho aqui, o quadro é irreversível. Nem sei como consegue sair por ai... sozinha, sem estar acompanhada por alguém...
Angustiada e aflita, mais que isto, inquieta e esmorecida, Rosa de Medeiros deixa o consultório. Do corredor, antes de ingressar no elevador, solicita uma Uber. No caminho, conta tudo ao Machado, seu namorado, este um rapaz mais velho que ela, um ano. Pede a ele que procure dar um jeito de sair cedo do trabalho e chegar o mais depressa que puder em sua casa.

Às dez horas da noite, o rapaz dá o ar da graça e ela, diante da sua irritação e derrotismo, sabendo que não lhe resta muito tempo de vida plena, implora ao amado que a leve para o quarto e faça amor com ela.
— Minha princesa, você não me disse que só se entregaria à mim quando nos casássemos?
— Sim, eu disse. Mas se ponha no meu lugar. Três dias, ou, quem sabe dois, vamos pensar no pior, dois, apenas dois de vida. Dos males, o melhor. Pelo menos não morrerei virgem...
— A mim não importa, minha linda, quanto tempo lhe reste. Seja feita a sua vontade... atacar!...

Nesta correria exaltadamente, desenfreada, Machado se presta à satisfazer a linda namorada, dando a ela, o melhor de si. Na euforia reinante, tomam um banho demorado, e, em seguida, fazem amor ao sabor de uma garrafa de vinho. No leito, uma vez, duas... ela afobada, audaz, ousada, carente, pede para que ele continue sem dar tréguas. Machado, lavando a égua, sede. E pensa no gostoso que está para ser repetido: “É hoje, que eu me acabo”. E fazem de novo, e de novo, e, ela, pedindo mais, e ele se entregando cheio de gás. Entretanto, depois de muitas horas no quarto, sem parar, sem se levantarem sequer para a reposição das forças, sem colocarem algo na barriga, ela, incansável, insaciável, gulosa, faminta, sedenta, açorada, reclama. Quer mais, de novo...

Machado, a esta altura do campeonato, está aos trapos, fatigado, amofinado, tedioso, taciturno... em frangalhos, mal se aguentando em pé. A maratona e os copos de vinho lhe deixaram de pernas bambas.
— Amor, amor, meu gato, quero mais — estardalhaça Rosa de Medeiros.
O rapaz então arrega, débil e capenga. Salta da alcova como se tivesse molas por todo o corpo. Coloca um ponto final na história, e o faz aos esbandalhos de uma voz cansada e esfalfada.
— Chega, Rosa. Basta. Não sou máquina. Leve em conta um detalhe muito sério. Daqui a meia hora terei que sair de cena... e ir trabalhar. Quanto a você, segundo seu médico, lhe esperam, na capela da igreja aqui do bairro, seus amigos para o velório e você, enfurnada dentro de um bem apessoado e vistoso caixão!

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de São Paulo, Capital. 14-12-2021

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