sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Impulsos instantâneos

Aparecido Raimundo de Souza

DEPOIS DAQUELE acontecido, a Beatriz se transformou numa mulher trêmula e infeliz. Virou uma criatura de corpo inerte e troncho, totalmente afogado num rio de lágrimas amargas. Seus caminhos se tornaram incertos, cheios de curvas fechadas e abismos desproporcionais. Tudo ao seu redor, parecia uma mancha indistinta diante da imensidão crescida à sua frente. As casas, ao longo da via expressa que seguia, se lhe afiguravam fantasmagóricas, ao passo que o céu, lá em cima, se distanciava de tudo numa escuridão impenetrável. Beatriz se fez, em questão de minutos, de personalidade turbulenta, apesar dos vinte anos incompletos.

Seus gestos de moça suave, no decorrer das horas que se seguiram aquela cena brutal... se degringolaram. Os seus olhos meigos e serenos se fecharam brutais e selvagens. O pé no acelerador do carro que pegara de seu namorado, parecia movido por vida própria. Voava pisando fundo, pela estrada de destino incerto. Abruptamente, tudo ao seu entorno se transformou numa catástrofe como se o mundo tivesse vindo à baixo.

— Meu Deus, o que está acontecendo comigo? — gritou, assustada, as palavras saindo de sua boca impulsivamente. O que está acontecendo comigo?

Ela sabia, por experiência própria, que a realidade do que fizera não poderia ser mudada. Tinha consciência plena e entendia que, no minuto seguinte o impossível se materializaria medonho à seu lado e poderia confundir sonho e realidade, realidade e sonho e, nesse interregno dúbio e deturpado, o que parecia inalcançável, se transformaria de forma robusta e concreta, firme e forte como uma rocha. Beatriz seguia em pranto sentido. Ao se olhar no retrovisor, o espelho mostrou uma tez entristecida, os olhos desbrilharam num súbito impulso de fúria para um ofegante pétreo e friamente inexpressivo.

Na boca desmesuradamente aberta, sobressaíam dentes brancos como pequenos chumaços de algodão, embora, internamente, um ranger felino moldasse um quadro não condizente com a sua silhueta de mulher perfeita e estonteantemente formosa. Se sentia fraca, confusa, indecisa... tinha a impressão que, dentro em breve, afundaria num lamaçal de águas escuras. Uma sensação de violento deslocamento do seu lado sério, se tornou impreciso e fraco. Cobriu o rosto com as mãos, soltando, o volante por um milésimo de segundo. Todavia, o receio mórbido de minutos atrás, a fez voltar a segurar com força bruta os comandos de carro, ao tempo em que, repetindo a mesma frase que em menos de cinco minutos lhe amedrontava, se revelou a ela como se o destino lhe houvesse dado um recado sutil, porém, difícil de ser digerido.

— Meu Deus, o que está acontecendo comigo?

Beatriz não se conformava ou não queria se adequar com aquela situação. Sempre detestou o aparecimento de obstáculos que pudessem frustrar seus planos. E, agora, assim, do nada, um estorvo se punha em seu horizonte, impedindo o deslocamento dos seus objetivos rumo ao ponto programado. E qual era, exatamente esse ponto em questão? Edgar Fernando de Albuena, o príncipe da sua vida. Aquele homem-menino, dois anos mais velho que ela. Apesar de inexperiente para as coisas satisfatórias do bem maior, o amor, o mancebo fazia seu coração bater descompassado, como se, no minuto seguinte, fosse sair pela boca, num impulso tresloucado e fora de controle.

Vezes sem conta tentou afastar o rapaz, apagar a sua figura estonteante. Esquecer os seus beijos arrebatadores e seus abraços afogueados de um calor férvido e ebulitivo. O pior: olvidar da cama, quando ela se entregava numa paixão enlouquecida e ele a fazia viajar, ensandecida por espaços e amplidões ainda não descobertos, como se a compridez do infinito não existisse e o universo fosse inteirinho a morada das suas paixões mais desconexas, fazendo com que ambos esquecessem de retornar à realidade de suas vidinhas pacatas e comuns. Em face disso, vezes não computadas, Beatriz tentou dar um basta. Afastar o rapaz do seu dia a dia, desvinculando a sua figura do seio do seu mundinho familiar.

Mesmo norte, ousou desengolir o coração em festa que persistia subir pela garganta. Todavia, o desenfreio da paixão, o desejo fulminante da posse, a emoção conturbada falavam mais alto. Impedia qualquer movimentação contrária aos desejos que lhe pipocavam a alma atormentada. Por sua vez, o músculo úmido de maldade, senhor de si, embora sofresse junto com a sua dona, não batia. Ao oposto, em rota dramática, girava dentro dela numa dimensão vertiginosamente inconsequente. Com isso, em tom altivo, não sossegava. Descontrolado, irritava intensamente seus brios.  Fazia seu corpo dar cambalhotas, o que tresdobrava o impulso açodado e doidivano pelo seu príncipe Edgar Fernando de Albuena.

Só de pensar nele, se perdia em meio a um mar de águas revoltas. Saia do chão, viajava a mil por hora, na sua sandice desregrada e infrene. Num instante, se sentia como uma passista rodopiando no meio de uma escola de samba em plena Marquês de Sapucaí. Em outras, se via na pele de uma viciada em drogas com uma cracolândia inteira à sua disposição. Às vezes, o seu amor se fazia tão forte e carente, poderoso e violento que Beatriz perdia o senso prático da vida normal e se via como uma gata desvairada rodeada de ratos abobalhados tentando abocanhar um queijo gigante. Loucuras e mais loucuras vinham à tona e criavam, numa profusão interminável de luzes se acendendo e apagando, repletadas de imagens pecaminosas.

Por assim, no quilômetro seguinte, se via estirada no leito redondo, completamente nua, às partes dos seus secretos expostos à visitação de seu macho. Fora de controle, endoidecida, distribuía beijos e afagos em seu garanhão. Literalmente radiante e desbaratinada, se enclausurava em uma garota em dias de passar à vida de casada. Tinha a impressão de se ver flagrada com um amante numa suite de motel de beira de estrada. Edgar Fernando de Albuena, mulherengo, folgazão, a cabeça amalucada, cultuava um bigode exótico, tipo o de Tonico Rocha, personagem de Alexandre Nero no folhetim de Thereza Falcão.

Carregava consigo um defeito. O pior deles. Fumava sem limites. Tabagista compulsivo, não respeitava as mulheres com quem dividia os seus cardápios sexuais mais variados. Acendia o seu veneno na casa onde cismava de passar algumas horas e, sem um mínimo de respeito pela companheira que lhe fazia a bola da vez. Com isso, empesteava a casa toda. Amava incondicionalmente a babação de ovo da Beatriz. Contudo, não queria nada sério com ela, como, igualmente, não pensava em nenhum compromisso com as outras. Ao estar nos braços de Beatriz, em sua concepção de pilantra e vagabundo, ela se assemelhava a uma rosa vermelha solitária depositada numa campa de cemitério de periferia, ao passo que para ele, a coitada não ia além de uma biscate qualquer, tipo uma rameira de zona, grosso modo, uma célula anormal crescendo entre um pólipo nasal. Suas risadas sarcásticas, aos carinhos dela, se estardalhaçavam como a estridulação de espectros em busca de lugares secretos para se esconderem dos vivos.

Até que no dia de hoje, quase dois anos e meio de namoro (sério para ela, de passatempo e de fuleiragem para ele), Beatriz deu o flagra. Pegou o seu homem de calças curtas. Ou melhor, sem calças. A boca escancarada metida onde não devia. Edgar se mimoseava eletrizante envolvido em gritos histéricos enriquecido ao abafo de palavras ininteligíveis, com a Priscila Beltrão, a desgraçada e sua melhor amiga. Trabalhavam juntas, mesmo prédio, andares diferentes. Iam para casa dividindo igual condução. Compartilhavam marmitas e lanches. Enfim, não há mal que sempre ature, nem bem que nunca se acabe. Priscila saiu mais cedo (labutava até às seis. Pediu ao chefe e se foi às três e meia. Por sorte ou azar (vai se saber dessas armações do destino), sem querer, sem programar coisa alguma, deu uma incerta na hora certa e, de fato, pilhou o seu diletante nos braços dela, justo ela, a sua melhor amiga e confidente.

Sem desconfiar de nada, adentrou em seu apê onde morava com Edgar. Logo que se viu na minúscula sala, ouviu vozes vindas do único quarto. Apurou os ouvidos. Não demorou a distinguir os sons. Eles traduziam um vocábulo voltado para orgias sexuais correndo a todo vapor. Se aproximou mais, desta vez, como uma serpente prestes a dar o bote. Quem seria a fulana? Curiosidade à sanha do desespero, não imprimiu mais que dois passos. De fato, o Edgar. Mas com quem? Deu um tempo, e então, a descoberta cruel.

— Priscila, meu amor, eu te amo. Vamos acabar logo com a nossa farrinha e comer algo. Estou com uma fome dos diabos.

Lá estava a infame. A Priscila. Dos cabelos aos pés, os impudicos à mostra. Sua melhor amiga. Em face daquele cenário de conflito comendo à solta e a toda velocidade no auge da cama barulhenta, logo na cama que era dela, pior, na casa dela, no espaço que ela achava ser somente deles dois, a cena impactante a levou aos extremos.

Diante daquele ato pérfido, a distorção dos sentidos se fez endemoniada. A pressa ansiosa de excitamento reprimido invadiu seu espírito inconformado. Pelo desconforto do que presenciava, pela quebra da fidelidade, um furor até então nunca sentido se sobrepôs ao ódio e esse sentimento maligno aflorou de forma maciça, a ponto de vazar de suas entranhas. Os olhos ficaram cegos. Na verdade, se enfraqueceram da visão, se aturdiram, desfocados e distantes. Beatriz não pensou duas vezes. Resolveu. Agora ou nunca. Não sem alguma dificuldade, se movimentou como entrou. A pas de loup. Na cozinha, colocou uma chaleira com água e ligou, apressada, os bicos de duas das seis bocas do fogão, sem acendê-los.

Antes, cuidou de fechar tudo. Em sequência,  deu meia volta e retornou à porta da sala. A raiva e a repulsão, recheadas de mil metros de ansiedade por segundos, atrelada a exaltação violenta estavam muito longe da sua calmaria. Seu estado, em questão de segundos, passou da tranquilidade arroubada para um estágio muito acima do encolerizado. Falando de si para consigo, num sussurro feroz, lembrou: “meu Deus, o que está acontecendo comigo?”. Abruptamente, faltou terra aos pés. Tudo se transformou, como num passe de mágica. Uma desilusão se fez maior, se agigantou.

A vontade de matar, como um desejo inesperado, com fins destruidores, se formou em seu desespero espicaçado. Beatriz não esperou uma chance mais alvissareira. Trancou tudo e se foi, sem olhar de retro. Edgar Fernando de Albuena, logo viveria, com a sua amásia, os seus melhores e derradeiros momentos de prazer. O final soube depois, nos jornais da noite. Ao se levantar abraçado com a sirigaita e sentindo um estranho e forte cheiro vindo de algum lugar dentro do apê, impensadamente nem se deu conta. Seria o gás? Buscou o interruptor para se situar em meio a nublada ablepsia do quarto mergulhado em escuridão em face das cortinas cerradas. Ao levar o isqueiro à ponta do cigarro, que havia tirado do maço...

Título e texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Porto Alegre Rio Grande do Sul. 3-12-2021 

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