sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Toca sombria

Aparecido Raimundo de Souza

JOÃO TROLHA
chegou no prédio da instaladora de alarmes e apertou o botão da campainha. Uma voz suave, depois de obtida a informação do que ele viera fazer ali, abriu a pesada porta de ferro que o levou a uma sala bastante ampla e iluminada. Uma simpática secretária ao lado de um computador mexia num amontoado de papéis, sentada confortavelmente detrás de uma mesa em formato de meia lua toda trabalhada em madeira com tampa de vidro cobrindo sua superfície.
— Boa tarde, senhor? Em que posso ajudá-lo?
— Como lhe disse vim pagar a prestação da empresa “Dá ou Desce”.
— Um momento, por favor.
Passou a mão no telefone e discou alguns números.
— Tem um senhor aqui querendo fazer um pagamento. Tá legal. Eu falo. Ok. Obrigada.

Desligou o aparelho e se voltou para o cidadão com um sorriso cativante no rosto de princesa.
— O pessoal do financeiro está vindo. Por favor, sente um minuto. Quer uma água gelada ou um cafezinho?
João Trolha optou pelo cafezinho. A moça se levantou com jeitinho, toda delicada. Estava metida numa minissaia de couro preta, muito curta, confeccionada em cirré, modelo justo, naquele momento arregaçada bem acima dos joelhos. Os olhos ávidos do rapaz não deixaram de ficar curiosos e espiar para as pernas da beldade. Viu o que não queria: um par de coxas bem torneadas, e, no meio delas, a calcinha vermelha combinando com a blusa e os sapatos. Ela deu um sorrisinho sem vergonha, baixou com as mãos o que deveria permanecer escondido e sumiu por uma porta que se abria para uma peça contígua. Certamente acessava a cozinha e o banheiro.

No que sumiu, houve um entra-e-sai de tipos diversos circulando para lá e para cá, com pequenas caixas de papelão, fios, ferramentas, até que pintou, em cena, outra moça saída de um corredor transversal. Igualmente um pedaço de mau caminho. Além de bem mais bonita. Alta, os cabelos cacheados caindo à altura dos ombros. Elegantemente protegida por uma blusa regata de alça, com flores coloridas, deixava entrever uma faixa da barriga exposta, onde um piercing em formato de coração balouçava ao sabor de seus movimentos. Logo abaixo, uma jeans colada ao corpo, apresentava um corte diferente com pequenos rasgos nos joelhos. Nos pés, um par de sandálias rasteirinhas combinava com o laço cor de rosa dos cabelos. Dirigiu-se ao João e indagou:
— Qual a sua graça?
— Minha o quê?

— Sua graça?
— Não estou entendendo. Por acaso fiz alguma coisa errada? 
— Senhor, não é isso... — Aquiesceu a bela rapariga com olhar intrigado. 
— Falei algo que desagradou a funcionária que se encontrava aqui? Acaso registrou alguma reclamação a meu respeito? 
— Senhor entenda. Estou me referindo à graça. A sua graça. Qual é? 
— Desculpe, a senhorita está tirando um sarro com a minha cara? 
— Em absoluto! 
— Então? 
— Quero saber qual é a sua graça. Só isso.

João Trolha estava ficando irritado e nervoso. Começou a amassar o envelope dentro do qual um cheque destinado à saldar a dívida que o patrão ordenara. 
— Senhora, eu...
—... Senhorita. Ainda não caí na asneira de colocar uma argola no dedo. Sou solteira...
— Tudo bem! Desculpe... senhorita?
— Alice Cruz... 

— Senhorita Alice Cruz. Vim até aqui a mando de seu Arame — perdão, Aranha — meu chefe, que mandou resgatar a mensalidade... 
— O aluguel, senhor... 
— Claro, o aluguel do sistema de alarmes que vocês colocaram no prédio onde está sediada a firma dele. 
— Qual é a empresa? 
— “Dá ou Desce”. 
— Que foi que o senhor disse? 
— O nome da empresa para a qual trabalho: “Dá ou Desce”. 
— Ah!...

Nesse interregno voltou a secretária da mini que mal cobria a calcinha vermelha que se harmonizava com os sapatos. Carregava uma bandeja. 
— Seu café. Açúcar ou adoçante?
— Açúcar. 
— O senhor não quer sentar? 
Virando para Alice. 
— O que houve colega? Por que este senhor está nervoso? 
— Sinceramente, Simone, desconheço o motivo. Cheguei, perguntei qual era a graça dele, e, desde então, não nos entendemos.

João Trolha, gentilmente servido, não conseguia segurar a xícara. Tremia como se tivesse voltado, de repente, de uma amnésia anterógrada. 
— Por favor, sente-se. 
Diante dessa confusão pintou na sala um quarto elemento. 
— O que está acontecendo aqui? Alguém poderia explicar? 
Alice Cruz, ao ver um dos diretores chegar sem prévio aviso, entrou no clima de João Trolha e, pior que ele, embranqueceu como uma vela de cera. Danou a tremer e a suar frio, como se houvesse enfiado o rosto numa bacia cheia de medo.

— O que houve, afinal? 
— Doutor Macedo, desculpe. A Simone interfonou na minha sala e disse que tinha um senhor aqui querendo fazer um pagamento. Mandei aguardar. Ao chegar, dei de cara com este cavalheiro. Seguindo nosso protocolo, perguntei qual era a graça dele e depois disso...
O tal do Doutor Macedo, de sério, fez ar de riso, mas se conteve, amolecendo, de imediato, as feições carrancudas.
— Senhor, por gentileza. Qual é mesmo o nome da sua firma?
— Ou “Dá ou Desce...”.
— Amigo, só estou tentando ajudar. Não precisa me agredir. Sou da paz, pode crer.
— Não estou agredindo ninguém. Trabalho na “Dá ou Desce”. É logo aqui ao lado. Seis ou sete casas abaixo. 

Doutor Macedo ao perceber o mico que acabara de pagar, tentou consertar a gafe, emendando. 
— Mil perdões. Por favor, venha até meu escritório. Simone renove o café do nosso amigo. Alice pegue a ficha do companheiro, por obséquio! 
Antes de entrar no corredor imenso João Trolha bateu pé.
— Senhor doutor Macedo, quer me dizer o que foi que fiz de errado? Por acaso destratei a moça do café? 
— Em absoluto... 
— Continuo voando...
Risos.

— Houve apenas um imprevisto. A Alice, aqui ao meu lado, perguntou qual é a sua graça, não perguntou? 
— Sim. 
— E o que o senhor respondeu à ela? 
— Meu Pai eterno. Acho que falei... acaso respondi usando algum termo esdrúxulo? Mil desculpas se...

No que falava, João Trolha estapeava o rosto, como se autoflagelasse por algum deslize cometido. Doutor Macedo colocou a mão no ombro do rapaz e esclareceu: 
— Nós é que lhe devemos desculpas pelo contratempo. 
— Que contratempo? 
— Quando a Alice perguntou qual é a sua graça, ela quis dizer, mas acabou não dizendo — ou melhor —, não perguntando ou para ser mais transparente, não explicando o patronímico quando indagou pelo seu... 
— Meu o quê?! 
— Seu nome. Seu nome de batismo. Graça significa nome... 
—... E eu que pensei que... 
Olhando de rabo de olho para as pernas da Simone que reaparecera trazendo a bandeja (agora com três xícaras e uma garrafa), concluiu, com a humildade que lhe era peculiar. 
—... tivesse falado ou “fazido...” quero dizer... feito alguma besteira...

Tudo posto em pratos limpos, João acabou, finalmente, pondo termo ao que fora fazer. E a segunda bebida, trazida pela esfuziante da calcinha vermelha, caiu goela abaixo quentinho e com apetitoso e inebriante sabor. 
— Vamos começar do começo – prosseguiu o diretor Macedo. Por favor, meu amigo, qual o seu nome? Ainda não nos disse... 
—...João... João Trolha, seu criado.

Doutor Macedo e as duas moças não conseguiram se aguentar ao tomarem conhecimento do sobrenome do jovem mancebo. Caíram em estrondosas gargalhadas. A partir deste momento, um novo reboliço se fez real. A raiva, quando infrene, acossa o sujeito qual leopardo faminto à presa cobiçada. Escudado num ódio indômito, o tempo se fechou, desta vez mais insuportável e tenebroso.
— Agora, eu é que pergunto — Berrou João Trolha, fora de si: qual é a porra da graça de vocês?!

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Porto Alegre Rio Grande do Sul. 10-12-2021 

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Um comentário:

  1. O texto vem mesmo a calhar. Mostra, de forma sucinta, a burrice cavalar do povo, que não sabe o que significa quando alguém indaga: qual é a sua graça??!! Se o povo lesse mais, fosse mais atento à leitura, certamente o personagem João Trolha (temos um pouco dele dentro de nós) não passaria pelo vexame sofrido quando foi resgatar o boleto de pagamento da firma onde trabalha. Da mesma forma, o patronímico.
    Carina
    Ca
    Porto Alegre RS

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