terça-feira, 30 de novembro de 2021

[Aparecido rasga o verbo] Go tell it on the mountain

Aparecido Raimundo de Souza 

A DESCRIMINAÇÃO RACIAL não é coisa de agora. Em absoluto! Vem de longos carnavais, quando ainda a balbúrdia desenfreada que conhecemos hoje como uma espécie de desfile festivo (na verdade uma libertinagem bem a gosto da putaria sem limites), não passava de um bloco de birutas e tresloucados vestidos à Clóvis Bornay e tendo, como puxador do melhor ritmo do samba enredo da Salgueiro, o mestre Djalma Sabiá cantando “Ilegal, imoral ou engorda” do Roberto Carlos, em Esperanto. Calma, meus prezados. Djalma Sabiá nunca cantou “Ilegal, imoral e engorda”, de Roberto Carlos. Menos ainda em Esperanto. 

O que estamos querendo apontar com esta entrada esquisita, neste texto mais estranho ainda, é que usamos este gancho meio que atravessado, ou enviesado, para dizermos e trazermos à baila, um tema atual, ou seja, o de pontilharmos, de maneira objetiva, que o racismo, não é de hoje, vem atormentando as pessoas de cor, como se todos nós, brancos, fossemos os reis e as rainhas do pedaço. Não somos. Saibam, senhoras e senhores, cagamos e fedemos iguais a todos. Nossas sombras, angustias e aflições, são idênticas. 

Em nossas veias, corre o mesmo sangue. As pessoas que pensam em contrário, deveriam ser banidas da sociedade. Como assim, banidas? Em outras palavras: tiradas do meio comum onde vivem. Arrancadas do nosso convívio, afastadas à toque de caixa. Lamentavelmente, o brasileiro faz questão de ser burro, de passar diploma de asno e de imbecil, de se formar nas mais diversas profissões, frequentar as melhores faculdades, porém, continua sem entender que ser preto ou negro não é ser diferente. Ser preto ou negro, é ser filho do mesmo Deus Pai que nos vigia e nos protege, sem a distinção da cor e do credo, sem meios termos. Simples assim. 

Concordamos que existem muitos pretos de alma branca, como muitos brancos mais pretos que os negrumes dos cafundós do inferno. Evidentemente o dia em que os cidadãos brasileiros, os queridos e simpáticos “brancos azedos” largarem de ser idiotas, de bancarem os bufões, de se acharem os maiorais, acreditem, caríssimos, os nossos dias, as nossas horas de existência aqui nessas Terras de ninguém serão melhores até na hora de respirarmos. Como dissemos acima, a descriminação não surgiu ontem, nem é coisa de agora. 

Essa podridão sem limites, essa doença infame, pior que a pandemia da Covid-19, disseminada da cachola dos brancos, vem de longa data. Remonta dos tempos em que eles nem saberiam distinguir a cor preta da raça negra e vice versa. Os brancos se acham os reis de castelos encantados, de baluartes semelhados aos das Cracolândias espalhadas Brazzzil à fora, quando, na verdade, os infelizes não sabem onde têm o nariz, ou pior, onde sentarem com seus rabos nojentos. Nesse universo imenso, houve um escritor que, no seu tempo entre nós, precisou sair fugido de seu país para melhor divulgar o seu trabalho. 

O tema que ele abordava, não agradava meia duzia de senhores farisaicos e proditórios, que não faziam outra coisa senão sentarem suas bundas em grossas e duras bananas. Eram os ilustres e poderosos (entre aspas), que saiam dos armários, desmunhecavam, sem contudo, assumirem o verdadeiro rosto do maquiavelismo fraudulento que os consumiam. Fazemos referência ao jovem negro James Arthur Baldwin, romancista, ensaísta, dramaturgo crítico e poeta, autor do magnânimo “Go tell it on the mountain”. ou  "Vá dizer isso na montanha". 

Evidentemente apostamos que os “antipretos”, ou os “antinegros”, ou se preferirem, os que pisoteiam e insistem em escravizarem as criaturas de cor, numa desvantagem vista e sentida à flor da pele, sequer ouviram falar dele. Lembrar de um “preto-negro” que escreveu um livro sessenta e poucos anos atrás, e precisou se ausentar de seu país para trazê-lo à público não é assunto do interesse coletivo. “Preto-negro escritor, lado outro, não dá matéria para vender jornais, tampouco faz subir os números na escalada de merda do IBOPE. 

Esses filhos da puta preferem levar à frente os assuntos relacionados aos negros (e pretos) em oposto, em avesso, ou seja, no contrafluxo daquilo que certamente trará mais cliques e seguidores para ostentarem em suas redes sociais. À lembrança de um sujeito que careceu sair escondido da sua terra natal, para se fazer mundialmente conhecido como um excelente homem de letras, não conta. Ainda mais não sendo branco. Pois bem! No exílio, Baldwim deu a volta por cima. Tomou fôlego, se restabeleceu dos seus medos e receios. 

Mesmo caminhar, alcançou o reconhecimento da crítica logo que o mundo (fora Estados Unidos) tomou conhecimento do seu romance de estreia, livro escrito em 1953, quando estava na suíça. Nessa época, o autor contava 29 anos e, de certa forma, falava de sua própria vida, embora o romance não fosse rigorosamente autobiográfico: como ele, o protagonista é negro e homossexual. Nesse veio, “Go tell it on the mountain”, repetindo, “Vá dizer isso na montanha” título em português, é considerado, por muitos críticos, o melhor trabalho de Baldwin, um fino estilista que, no entanto, alguns anos depois, ficaria muito mais famoso como defensor dos seus pares em estado de miserabilidade. 

Mas esperem: defensor do quê? Dos direitos civis das minorias ao lado de nomes como Martin Luther King ativista norte-americano (1929, assassinado em 1968), e Malcolm X (1925, líder afro-americano, igualmente assassinado em 1965) do que jamais fora como escritor. Pobre e sem recurso Baldwin embarcou para a França com uns poucos trocados nos bolsos, em 1948, e lá viveu nove anos. “Deixei a América porque duvidava de minha capacidade para sobreviver à violência do problema de cor”, explicou esse neto de escravos criado no Harlem, em Nova Iorque. 

Orador protestante na adolescência, a espiritualidade é um tema presente na maioria dos seus textos, aliada a uma consciência dos problemas raciais que vai muito além do tom marcadamente político da dita “literatura negra” de então: o olhar de Baldwin captou nuances psicológicos que só os grandes escritores enxergariam. “Vá dizer isso na montanha”, de 1953, com seu título de ecos bíblicos, inaugurou um estilo que frutificaria a depois, em ensaios, contos, artigos, poemas de teatro, além de romance como “Another country” (no Brazzzil seguido de “Numa terra estranha” e o belíssimo “Giovanni’s room” ou (“Giovanni”). 

Em 1956, Baldwim recebeu um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, o do Instituto Nacional de Artes e Letras. Um ano depois, retornou ao seu país para participar mais ativamente, percebam, mais ativamente das lutas daquelas classes consideradas como os “grupos excluídos da realeza dos brancos”. A essa altura, estabelecido como escritor renomado, fazia parte de um passado distante a juventude pobre, quando trabalhou como garçom e operário de fábrica – época em que descobriu o que muitos de seus companheiros do movimento negro ignoravam: que a discriminação embutida no “sonho americano” atingia gente de todas as cores. Pasmem, senhoras e senhores. Gente de todas as cores. 

Baldwim nasceu em 2 de agosto de 1924, em Nova York. Veio à óbito em 1º de dezembro de 1987, em Saint-Paul de Vence, aos 63 anos. Contudo, antes de falecer, escreveu outros livros de sucesso, como “Notas de um filho nativo”, “O quarto de Giovanni”, “Terra Estranha”, “Se a Rua Beale falasse...”. Não parou ai. Seguiram se a esses, “Da próxima vez o fogo” onde o escritor narrou com maestria o racismo na sua melhor forma de expressão nos Estados Unidos, e “Great Force”, somados a uma dezena de outros títulos, em observância, a maior parte deles completamente desconhecidos e não publicados aqui em nosso querido país. 

E por que não? Porque em vista de sermos uma nação retrógrada, analfabeta e tacanha. Só isso basta. O povo fala tanto e vomita aos quatro cantos, que é completamente contrário à descriminação racial, quando, na realidade, bem sabemos, o Brazzzil não aceita a cor negra de coração, de peito aberto. Apenas finge engolir, para ficar bem na foto. Resumindo, senhoras e senhores, o nosso (nosso??!!) Brazzzil odeia a raça negra. E os brancos de plantão... aqueles vagabundos que poderiam fazer alguma coisa, simplesmente se posicionam, calados e amordaçados, como veados e prostitutos em cima dos muros. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. 30-11-2021

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Um comentário:

  1. O TÍTULO É UMA MÚSICA NATALINA QUE DIZ PARA CONTAR AO MUNDO O NASCIMENTO DE JESUS CRISTO.
    Muito antes da lei áurea a escravidão já havia siso setenciada à morte,
    A Princesa Isabel só determinou a abolição de 5% dos escravos da ápoca inclusive com cláusulas de pagamentos aos patrões.
    José do Patrocínio, um negro foi político e monarquista e quem poderia imaginar um negro na maçonaria na década de 1850,
    O Brasil teve um presidente negro, Nilo Peçanha em 1909, muito tempo antes dos americanos.
    A Varig teve comandantes, engenheiros de voo e atendentes de bordo negros que por anos não podiam fazer voos para a ÁFRICA DO SUL.
    Quanto ao muro de veados e prostitutos, nada tenho contra, cada um dá o que acha de melhor em si. Eu só limpos a bunda por obrigação de higiene
    Eu não sou racista, a cor não atrapalha minha conduta.

    Sou contra cotas, porque deturpa o merecimento e o mérito.
    Você não pode dar um cargo por causa da raça ou das preferências sexuais ou por acaso Nilo Peçanha ou Joaquim Barbosa foram tutelados por cotas para atingirem seus postos máximos em suas carreiras.
    O racismo no Brasil é estigma.
    Sou fâ de Lewis Hamilton, um negro que me lembra os tempos de Senna,
    Ele foi ovacionado por milhares de brancos no grande prêmio Brasil.
    Perguntem a Ney Matogrosso quel é o seu sexo?
    -Ele responderá:
    -Homem!
    Minha avó era caigange, preta com pixe e nariz como fucinho de porco, meu avô espanhol branco como a neve, casaram-se por volta de 1915.
    O Brasil tem 60% da sua populção miscigenada.
    Nessa terra lotada de FAVORES DE MERDA e lutadores por atandimento no SUS, onde imbecis preferm fazer fogo com álcool do que usar tijolos para fazerem fogo com lenha
    Todo mundo pode se esforçar para obterem méritos.
    Defendem ajuda aos artistasmas eu assisti Neil Diamond Cantanado num lobby do hotel Holliday Inn em Los Angeles e Nelson Gonçalves num PUB em Porto Alegre.

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