Aparecido Raimundo de Souza

NAQUELA RUA repletada de ambos os
lados por árvores frondosas e centenárias, se via uma infinidade de belas e
aconchegantes mansões de tirar o fôlego. Eram residências de três andares as
janelas sempre fechadas, cercada por muros baixos, que nem se fazia preciso
ultrapassar os portões para ingressar em seus limites. Quase no final dessa
rua, havia uma casa diferente, (a única de um só pavimento) e todos os
moradores tinham em conta a sua fascinante e meiga proprietária, a bela e
simpaticíssima jovem Ana Clara que todos daquela vila calma e pacífica
conheciam como a Tia Clara. Essa figura bondosa e carismática, de sorriso doce,
os cabelos sempre soltos que lhe caíam cobrindo parte das costas, vivia pelas
redondezas distribuindo sorrisos, balas e conselhos às crianças da comunidade.
Havia, apesar disso, uma coisa que intrigava a todos: aquela moradia espaçosa e
acolhedora, tinha um amontoado de janelas que davam, sem tirar nem pôr, para um
jardim cheio flores bem cultivadas, entre elas, de uma porção de rosas as mais
variadas cores. A boa senhorita, que de segunda a sexta lecionava na escola
para as crianças e adolescentes radicados da redondeza, morava sozinha, ou
melhor, residia apenas ela e um simples gato. Um gato, diga-se de passagem,
estranho e antissocial.
Desde que chegara, fora batizado
como Natal, tendo em vista que se fez presente dois ou três anos atrás
exatamente nesse dia. Mas ele não parecia nada feliz. Era um gato bonito, de
pelagem cinza e olhos grandes e brilhantes. Entretanto, bastava, alguém se
aproximar, ouvir um som mais alto, uma porta batendo, um carro passando mais
depressa na rua de terra batida, e lá ia ele: se escondia amedrontado debaixo
da cama, atrás das cortinas, por vezes dentro de um armário aberto, ou em qualquer
canto escuro e apertado onde sentisse que ninguém o encontraria. Apesar da tia
Ana Clara se dar maravilhosamente bem com os arraigados, alguns sem noção
cochichavam entre si:
—
Que gato mais esquisito. O bicho
não sai, não brinca, não chega perto de ninguém…
E a tia Ana Clara, sempre que alguém
lhe vinha visitar com o intuito de tomar um café e comer um pedaço de bolo de
chocolate que tão bem fazia, ou apenas trocar algumas palavras, ela, com aquele
sorriso calmo, para com todos que questionavam, respondia:
— Deixa ele. O coitadinho é como um
bicho do mato. Ele só levou uns sustos grandes antes de chegar até aqui. A
gente não vê, mas o coração dele ainda tá tremendo igualzinho o de uma criança
que ouve uma história de noite e não consegue conciliar o sono...
Ninguém sabia, mas Natal tinha sido
encontrado na chuva, ainda bem pequenininho. Fora abandonado numa caixa de
sapatos perto da estação da estrada de ferro que cortava o vilarejo. Deve ter
ouvido gritos, visto ou se deparado com eventos que nenhum bichinho deveria
ver. E desde então, o mundo lhe parecia um lugar enorme demais, barulhento em
demasia e perigosamente assustador para a sua fragilidade de animal largado aos
reveses da vida ingrata.