sábado, 14 de novembro de 2015

Será que o terrorismo vai vencer?

José Milhazes
 
Paris, noite de 13 de novembro de 2015, foto: Thierry Chesnot/Getty Images

Quantos atentados terão de acontecer ainda mais para que os Estados Unidos, União Europeia, Rússia, China, se juntem e tomem medidas concretas e coordenadas para pôr fim à maior praga do século XXI?

Em pouco mais de quinze dias, o mundo assistiu a mais duas fortes acções terroristas do Estado Islâmico: o derrube do avião de passageiros russos no Sinai e o ataque à cidade de Paris, isto para já não falar dos numerosos atentados terroristas realizados no Iraque e Líbano.

Sempre que acontece alguma catástrofe do género, os dirigentes dizem-nos que “é preciso renovar esforços”, “aumentar as medidas de segurança” e “impedir novos atentados” mas, passa algum tempo, e a desgraça volta a bater-nos à porta. Porque não se resolve o problema de forma séria e profunda. Como se trata de um problema global, é necessário tomar medidas à escala global que tentem dar início à solução do problema. Não se trata de um processo rápido e fácil, mas é preciso começar.

Ao que tudo indica, os atentados dos últimos tempos têm a assinatura do EI e, por conseguinte, é necessário neutraliza-lo através de vários canais, sendo o principal a criação de uma coligação internacional ampla que se debruce a sério na solução dos problemas da Síria, Iraque e Médio Oriente em geral.

O Estado Islâmico, pelas suas ideias e acções, traz-nos à cabeça a recordação do nazismo. Se, em 1941, Churchill, Roosevelt e Estaline souberam pôr de parte as suas ambições políticas pessoais para enfrentar um adversário desumano perigoso, porque é que hoje não pode surgir uma coligação semelhante?

Não escondo as críticas que faço à política interna e externa de Vladimir Putin, mas não me passa pela cabeça compará-lo a Estaline. Também não comparo François Hollande com o general de Gaulle, mas por outras razões. O que eu quero dizer é que, se existir vontade política, é real a criação dessa ampla coligação. A China também deve participar, pois, como é sabido, tem territórios onde o EI já deve, no mínimo, “ter posto ovos”, bem como o Irão.

Além das componentes militar e securitária, fundamentais para não permitir o alastramento do conflito, é necessário fazer secar as fontes de financiamento dos grupos terroristas. Será que não é possível, em prol da salvação da civilização humana, e o problema deve ser colocado assim: o terrorismo constitui um ataque a ela, controlar os fluxos de dinheiro ou a venda ilegal de petróleo por parte do EI? Onde compram armas e explosivos? Ou os banqueiros, os gerentes das petrolíferas e traficantes de armas consideram que, desse modo, comprarão a segurança para si e para os seus descendentes?

Acho incorrecto e simplista ligar esta onda bárbara à religião, neste caso ao Islão e ao seu livro sagrado: o Corão. É verdade que nesta obra há incitamento à violência, ao fanatismo, à intolerância, etc. Mas, como é sabido, a Bíblia, a ser levada à letra, poderia servir, como já serviu, para justificar grandes barbaridades.

O problema reside na interpretação de textos que foram escritos há já muitos séculos. Por isso, no combate ao terrorismo, é indispensável não permitir que os imãs muçulmanos radicais tenham a possibilidade de pregar, com todas as condições e conforto, ideias odiosas nas mesquitas de Paris, Londres e por aí adiante. Os apelos ao extremismo devem ser castigados como um grave crime.

Alguns socorrem-se da famosa máxima de Voltaire: “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”, para justificar a total liberdade de expressão, mas nem sequer se deram ao trabalho de ir verificar se a frase realmente lhe pertence. E mesmo que lhe pertencesse, que parece não ser o caso, duvido que Voltaire daria a vida pelo direito dos terroristas a expandir o seu ódio.

Os terroristas do EI empreenderam um verdadeiro jogo do “gato e do rato” com a civilização, até gozam com os dirigentes europeus. Prometem afogar a Rússia em sangue e, no dia seguinte, realizam uma mortandade em Paris. Teria isso sido possível tal crime se os serviços secretos dos vários países se concentrassem no combate ao terrorismo em vez de andarem a escutar dirigentes seus e alheios? E como não foi possível prever a onda de refugiados, não tomar medidas preventivas para responder a essa crise?

Até agora, os dirigentes mundiais deram provas da sua incompetência no campo do combate ao terrorismo. Eles tiraram lições correctas do 11 de Setembro de 2001, tomaram medidas para tornar o mundo mais seguro? Não, pelo contrário, criaram novos focos de tensão e ninhos de terroristas.

A ganância económica e a sede de poder, não devem cegar os dirigentes mundiais e nós, cidadãos, devemos levantar a voz para que eles actuem com responsabilidade. Caso contrário, continuaremos a ser peões nos mais diversos jogos.
P.S. A deputada socialista Ana Gomes escreve no Twitter: “Alguém confronta o PR com a necessidade urgente de termos governo que governe também por causa da ameaça terrorista?!” Considero que isso não passa de oportunismo político de muito mau gosto. E mais não digo. 
Título e Texto: José Milhazes, Observador, 14-11-2015

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