sábado, 18 de junho de 2016

Terrorismo não leva adjetivos

Vitor Cunha

O João Miguel Tavares, no seu artigo no Público, “Homofóbico e terrorista”, defende a tese (partilhada por diferentes pessoas, sejam de esquerda ou direita) de que não se deve escamotear o “homofóbico” do atentado terrorista ocorrido no bar de homossexuais em Orlando, Flórida. Há uma insistência de muitas pessoas no “combate à homofobia”, como se fosse possível ou sequer desejado combater o que as pessoas pensam. A homofobia, como qualquer outra fobia, é um sentimento interior. Trata-se de uma convicção formada através de um conjunto de ideias, ideias estas que, independentemente de fazerem ou não sentido, solidificaram na mente de um ser humano. Ninguém se lembra de combater a aracnofobia ou de combater a agorafobia com a excepção do psicólogo da pessoa que, por persistir num medo que condiciona a sua vida, procura ajuda para enfrentar o dia-a-dia.

Convenhamos que, para a sociedade como um todo – uma noção que, enfim, já roça uma certa boa vontade para que a aceitemos – é indiferente se o Zé das Couves é aracnofóbico, xenófobo ou, para o caso em questão, homofóbico. Durante dezenas de anos, a população portuguesa em geral viu com uma certa desconfiança (estou a ser simpático) a comunidade cigana sem que acções de sensibilização aparecessem.

A única coisa que interessa para a tal de sociedade é se o Zé cometeu ou vai cometer um crime. Ora, para prevenir o crime do Zé, campanhas de sensibilização anti-homofobia são indiferentes: o Zé é um sociopata se está disposto a cometer um crime em virtude do seu medo ou aversão. Como prevenir que o Zé chegue a cometer o crime? Se o Zé tem filiações a organizações que defendem o extermínio de pessoas – imaginemos uma hipotética Organização Para a Aniquilação da Homossexualidade por Via de Armas de Fogo (OAHVAF) – pode-se extinguir a organização, assumindo que, mesmo na ausência de crime, se viola o princípio da livre associação de pessoas. Por outro lado, se o Zé não pertence a qualquer organização desse tipo, o crime só pode ser prevenido através de um processo inquisitório. Há suspeita que o Zé não gosta de homossexuais, faz-se um julgamento e mete-se o Zé na fogueira, por bruxaria convicção de que poderá cometer um crime. Neste caso, assume-se o delito de opinião. O combate a ideias, boas ou más, se não estão instanciadas em acções, só gera resultados através de thought police.

“Combater a homofobia” é, quer se queira, quer não, incentivar o delito de opinião. Já diz o povo, e bem, que “quem vê caras não vê corações”. As acções de sensibilização são engraçadas, dispõem bem, mas não servem para mais do que nos fazer sentir bem por sentirmos que fizemos alguma coisa. Um sociopata que entra num bar e mata gente não se compadece com um arco-íris e beijinhos entre pessoas do mesmo sexo, como é óbvio. Essa é, inclusivamente, a crítica mais certeira ao feminismo moderno: alguém acha mesmo que é possível sensibilizar um selvagem com disposição para violar uma mulher para que não o faça através de cartazes ou segmentos televisivos?

Associar o “homofóbico” ao atentado terrorista não acrescenta qualquer coisa, como não acrescentaria associar o 11 de Setembro a “terrorismo antropofóbico” ou “terrorismo arranha-céu-fóbico”. Aliás, chamar-lhe “terrorismo homofóbico” não serve para mais que originar uma falsa sensação de segurança a todos os heterossexuais, a grande maioria da população. Não, não estão seguros de um ataque terrorista, como já se viu vezes sem conta. Nem sequer muçulmanos estão livres de terrorismo, o grupo religioso mais atingido pelos terroristas do Daesh. Engalfinhar na lógica de compartimentação do terrorismo é, como pretendia a malta do Baader Meinhof ao associar terrorismo ao anti-capitalismo, justificá-lo sob a égide de uma convicção. Terrorismo é terrorismo, injustificável, inaceitável, ponto final.

Apesar disto tudo ser óbvio, há um único travão: aceitar a sua obviedade implica aceitar a necessidade de desigualdade  –  tratar por desigual o que é diferente. E é precisamente isso que a esquerda gramsciana não quer.
Título e Texto: Vitor Cunha, Blasfémias, 16-6-2016

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