quinta-feira, 28 de julho de 2016

Este mundo não é nada como tínhamos imaginado

José Manuel Fernandes

O multiculturalismo falhou porque ignorou a centralidade dos nossos valores. O laicismo também falhou pois ignorou que a modernidade não é só filha do Iluminismo, é também da tradição do cristianismo.

Não foi assim que imaginámos que ia acontecer.

Não imaginámos que a globalização, que muitos diziam que ia empobrecer os pobres, causasse afinal problemas nos países ricos. E por isso não vimos chegar Donald Trump, como antes não compreendêramos o significado do voto popular em Marine Le Pen ou em Nigel Farage.

Não imaginámos que aqueles que foram sendo acolhidos na Europa como imigrantes se voltassem tão violentamente contra os valores dessa mesma Europa. Não imaginámos que uma, duas gerações depois de chegarem continuassem não apenas a não estar integrados, como a recusar a integração.

Não imaginámos que, depois da revolução portuguesa de 1974, das transições democráticas na América Latina, desse maravilhoso ano de 1989 em que caiu o Muro de Berlim, os regimes autoritários voltassem a ter prestígio e até apoio popular. Tal como não imaginámos que a ideia de “primavera democrática” não tivesse o mesmo sentido, nem o mesmo destino, nas duas margens do Mediterrâneo.

Eu sei que houve muitos avisos. Que muitos alertaram para o excesso de optimismo. Que houve quem previsse uma viragem dos ventos, quem notasse que, na viragem do século, estávamos porventura a viver um momento de “viragem da maré”, e que vinham aí tempos menos previsíveis, mais turbulentos, com menos liberdade, com menos esperança.

Eu sei isso tudo, até porque várias vezes, ao longo destes anos, alertei para a necessidade de algum cepticismo: a História não é um processo com um só sentido, a ideia de que se pode forçar o Progresso (com P maiúsculo) é mesmo das mais perigosas.

Mas, convenhamos, não me recordo de alguém ter previsto esta espécie de “tempestade perfeita” em que parece estarmos a entrar neste Verão de 2016. E não, não é a economia, pois nunca houve tanta riqueza ao dispor de tantos no conjunto da Humanidade. E não, também não é guerra, pois a verdade é que também nunca, na história da mesma Humanidade, houve tão poucas guerras e, proporcionalmente, tão poucas pessoas a morrer de morte violenta.

Os eleitores de Trump ou Le Pen podem sentir-se deixados para trás pela globalização, mas não deixam por isso de ter acesso a níveis de conforto e de consumo que mesmo há uma ou duas gerações eram inacessíveis mesmo àquela pequena parte da população mais rica. Os terroristas de Nice ou de Ansbach ou de Bruxelas podem invocar discriminação, mas a verdade é que todos eles tinham acesso a níveis de protecção social ou a condições de liberdade inimagináveis nos países de onde vinham, ou de onde os seus pais tinham vindo.

Eu sei que porventura não devia estar a colocar num mesmo saco fenómenos que são muito diferentes, assim como associar num mesmo parágrafo eleitores inquietos com criminosos sem nome. Amalgamar tudo nunca é bom critério – mas também não é esse o meu objectivo. A preocupação é outra: é ter a imagem de conjunto. É ver como há certezas, ou expectativas, que se esboroam, escapando-se por entre os dedos das nossas mãos, tal areia fina.

É que é essa imagem que surpreende, e não apenas pela vertigem das notícias, que podem ser tão distintas como um motim racial nuns Estados Unidos presididos por Barack Obama, ou a eleição de Trump (por enquanto apenas como candidato republicano), a vaia dos delegados híper-radicalizados na conferência do partido democrata, a subida do populismo nacionalista e do extremismo de esquerda entre os eleitorados europeus, a opção de jovens educadas nas nossas escolas por deixarem os seus trajes europeus e regressarem à niqab ou mesmo à burka, enquanto outros defendem restrições à liberdade em nome do direita a não ser ofendido, tudo isto para não falar dos ataques de Orlando, de Nice, de Ansbach e, agora, de Saint-Étienne-du-Rouvray. O que teve por palco uma igreja. Aquele em que um padre de 86 anos foi degolado, numa encenação semelhante à realizada com os reféns do deserto sírio.

Essa é a imagem de um mundo que não imaginávamos possível ainda há poucos anos. Um mundo onde as democracias parecem mais frágeis, mais susceptíveis de sucumbirem perante as investidas do autoritarismo, do populismo ou do radicalismo, ou de tudo isto à mistura. Um mundo onde a convivência e a integração se revelam muito difíceis de conseguir, antes regridem. Um mundo que, afinal, não partilha valores que considerávamos, e consideraramos, universais, mas que uns contestam, outros repudiam, outros combatem de forma encarniçada.

Um dia vamos ter de discutir a sério as razões do refluxo da maré que parecia trazer liberdade e prosperidade para cada vez mais, e isto sem nos reduzirmos aos simplismos de culpar outros – sejam eles os mercados financeiros, a guerra do Iraque ou a ignorância das classes baixas e dos velhos que votam sempre mal. Nessa altura talvez compreendamos algumas coisas.

A primeira, é que as instituições que deram corpo às nossas democracias e que permitiram a nossa prosperidade não nasceram do nada e muito menos, como alguns sugerem, da rapina do tempo dos impérios. Essas instituições, sendo produto de uma longa maturação, têm raízes na cultura judaico-cristã que é – ou era, digo temerosamente – a do Ocidente. Um Ocidente que também é filho da tradição grego-romana e do iluminismo. Um Ocidente que também não pode esquecer que a solidariedade não existe sem uma forte ética do trabalho, que os cidadãos estão antes do Estado, que a democracia é sobretudo sobre regras, não sobre resultados. Se não percebermos que é tudo isto que faz (ou ainda faz) a nossa identidade, nem sequer perceberemos o que estamos a defender.

A segunda, é que temos de encontrar formas de adaptar as expectativas à realidade. Se é mentira que tenha existido um passado paradisíaco a que valesse a pena regressar, como sugerem muitas nostalgias, também é verdade que o grande desafio das nossas sociedades e dos nossos políticos vai ser o de viver com pouco ou nenhum crescimento. Há dois séculos que não sabemos o que isso é na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, pelo que temos pela frente o grande desafio de aprender a viver em democracias que já não vão conseguir oferecer o progresso material a que nos habituámos, geração atrás de geração.

A terceira, que temos mesmos de defender a nossa identidade e os nossos valores. Não somos nós que temos de nos adaptar, que temos de rever os nossos livros de História, reescrever as letras dos hinos ou deixar de venerar os grandes vultos da nossa cultura, de apreciar os monumentos que ergueram ou os livros que escreveram – são os que nos procuram em busca de uma vida melhor que devem integrar-se. A prosperidade que procuram não é independente dos valores que a tornaram possível – e esses são os nossos valores, não os deles. Como também não são os dos populismos nacionalistas ou dos radicalismos socialistas.

O multiculturalismo falhou porque desistiu da centralidade dos nossos valores como base do nosso modo de vida. O laicismo também falhou porque ignorou que a modernidade não é apenas filha do Iluminismo, é também herdeira da tradição do cristianismo, e que isso é válido mesmo para os ateus.

Nestes dias em que a sucessão de acontecimentos nos vai tornando quase imunes ao choque, porventura à indignação, e nestes tempos em que sinais tão diferentes e contraditórios fazem com que até seja difícil pensar, e ainda mais perceber, talvez o melhor antídoto para o desnorte seja o regresso ao essencial, e o essencial são os nossos valores, aqueles que são as referências, os pontos cardeais que temos de ter presentes no meio da tempestade – e no dia a dia deste tempo de muitos medos.
Título e Texto: José Manuel Fernandes, Observador, 28-7-2016

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